Opinião: o camisa 10 está cada vez mais raro no futebol

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Sou um apaixonado pelo futebol, um futebol bem jogado, independente de cores ou nacionalidade – sou do tempo de assistir jogos junto ao alambrado e que você conseguia ouvir a bola roçando na grama, de pé em pé…onde aquele que sabia jogar, a bola procurava. O passe para o companheiro sem “chutão”, apenas com a força necessária e precisão.

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Atualmente poucos tem capacidade técnica para isso, hoje é recebe e “chutar” para o companheiro, ele que se vire para dominar a bola, e quando não para “apanhar” dela, sabe aquela que bate na canela e sai na lateral ou volta para o adversário. “Falta o 10”, como Casagrande sempre se refere a times, que não tem criatividade no meio de campo, mesmo tendo bons planteis.

Raridade nos times profissionais, e o cara que dita ritmo ao time, o que enxerga espaço onde não tem,  o acima da média ou como você queira chamar – o meia armador – como era chamado até a alguns anos atrás. Em atividade hoje vejo apenas dois que estão dentro do padrão: Diego no Flamengo e Lucas Lima no Santos.

Nos anos 60/70 todos os times, do pequeno ao grande, possuíam esse jogador cada um com um estilo diferente, o mais técnico aquele que não soava a camisa fazia a bola correr, o que se movimentava pelo campo todo sempre como opção ao companheiro e o vertical que recebia a bola e partia para o gol. Era um espetáculo a parte, no modo de “matar” a bola, conduzi-la em campo sem olhar para ela ou quando a passava a um companheiro.

“- A bola procura… sabe que não vai ser maltratada… como um casal bailando… para o espetáculo no tapete   verde!”(Fiori Gigliotti)

Mas esse “camisa 10” aos poucos começou a virar 2º volante ou 3º, trocando o talento pela força. Os treinadores dos times de base, com aquele insano medo de perder e consequentemente ser substituído, recuou o meia para linha defensiva, com a missão de ser mais um a defender.

Tive o privilegio de ver em campo (não pela TV) ao vivo e a cores, Ademir da Guia o “Divino” no Palmeiras, Roberto Rivelino(para mim o maior meia armador da história, Maradona pensa igual) no Corinthians, Dicá ainda na Portuguesa, Pedro Rocha e Gerson no São Paulo e Ailton Lira e Pita no Santos, essa constelação de foras de série, em épocas diferentes, só para citar times de São Paulo.

Ademir da Guia parecia correr em câmara lenta, pelas passadas largas, quando desarmava o adversário, era como se pedisse licença para ficar com a bola. Passe milimétrico sempre de cabeça ereta, quase certo que nunca deu um chutão em toda carreira.

Roberto Rivelino era um meia, com uma habilidade impressionante, tanto para o drible como para lançamentos, chutador emérito, era um típico meia vertical. Muito veloz para a época, tinha um chute de canhota potente e mortal para qualquer goleiro, foi apelidado de “Patada Atômica”. Mas seu apogeu como jogador ocorreu no Rio de Janeiro, jogando pela “Maquina” que era o time do Fluminense.

Dicá quando apareceu para o futebol na Ponte Preta, foi contratado pelo Santos para ser reserva de Pelé, ou seja quase não jogava, foi vendido a Portuguesa e lá mostrou toda sua capacidade, um misto de Ademir da Guia e Rivelino, estilista de habilidade rara e também com chute fortíssimo mas de direita, passeava em campo, grande batedor de faltas. Por incrível que pareça sua melhor fase, foi quando voltou a Ponte Preta, já com mais de 30 anos e formou um dos mais brilhante meios de campo do futebol Brasileiro – Vanderlei, Dicá e Marco Aurélio – gastavam a bola, era uma verdadeira aula de futebol, os times grandes quando iam a Campinas sofriam para sair com um empate, era como se os três jogassem por música.

No São Paulo infelizmente, Gerson e Pedro Rocha só jogaram juntos dois anos(70/71) eram os dois camisas 10, mas como só cabe um, inicialmente Pedro Rocha ficou com a 8. Tinham estilos diferentes, mas completavam-se, Gerson era o cérebro do time, fazia lançamentos de 40 metros para os atacantes, e quando a bola tocava o chão, parecia que esperava que o destinado a recebê-la, chega-se para a conclusão. Pedro Rocha tinha estilo mais cadenciado, ditava o ritmo do jogo, de boa colocação corria pouco sempre recebia a bola livre, preciso nos passes e chutava colocado, parecia desfilar em campo, Pelé o classificou como um dos cinco maiores jogadores que ele viu jogar(quer aval maior?).

Ailton Lira e Pita, foram meia armadores, em épocas diferentes e jogaram juntos apenas dois anos. Lira foi o 10 entre 76/77 e em 1978 com a primeira geração dos “Meninos da Vila”, Pita foi o 10.

No inicio, temeu-se que os dois não conseguiriam jogar juntos, por terem ritmos parecidos, não eram de correr muito, Pita pela idade era mais rápido e conduzia mais a bola. Lira era o cérebro, grande lançador, fazia o rápido ataque do Santos na época correr. Formado por 3 velocistas Nilton Batata, Juary e João Paulo era eletrizante quando acontecia essa jogada, a velocidade de troca de passes, dribles e a movimentação levava as defesas a loucura. Ailton Lyra era considerado uma cópia mais nova do Gerson, tinham estilos parecidíssimos, Pita era aquele que conduzia mais a bola, meia de toque curto e preciso(Ganso tinha essa característica semelhante). Quando no São Paulo, seu estilo encaixou bem com o do Silas, e o ataque com características parecidas com o Santos de 78, não houve dificuldades para se entrosar.

Podemos dizer que os grandes armadores dos anos 80 foram Sócrates e Zico, o suprassumo da época, também tínhamos Paulo Roberto Falcão, que também exercia essa função, mesmo sendo volante. Os 3 eram técnica e classe, na segunda melhor seleção formada pelo Brasil e jogavam à brasileira, mas infelizmente o “futebol de resultados” venceu personificado pela Itália.

Sócrates tinha um estilo mais clássico de toque de bola e passes precisos, tinha boa mobilidade apesar de ser alto, pelos seus predicados era chamado de Doutor. Zico era aquele jogador quase impossível de ser parado sem faltas, drible curto e desconcertante, batia faltas e pênaltis como ninguém, tinha ótima visão de jogo e um bom passe, o melhor depois de Pelé.  Falcão era um caso a parte, volante de origem, mas tinha técnica e visão de jogo para ser o armador do time, elegante na condução da bola, quase não fazia faltas, tinha grande capacidade de organização e visão de jogo. Responsável pelo ultimo titulo da Roma, para ter ideia da dimensão como jogador.

Com as novas táticas vindas da Europa, principalmente de 1982 para frente, onde a seleção Italiana e Alemã, utilizavam dois volantes de contenção e um armador mais recuado, quase um terceiro volante(detalhe a Itália, utiliza até hoje variações desse estilo) e 3 atacantes com boa técnica. Hoje a Alemanha já aboliu essa tática para um futebol pragmático, mas com leveza e técnica.

Depois dessas mudanças, adotadas por boa parte dos técnicos brasileiros, tivemos uma entre safra de armadores e vários laterais com maior capacidade técnica, ocuparam a posição, podemos citar Mazinho no Palmeiras,  Junior e Leonardo no Flamengo em times de épocas diferente, como mais emblemáticos.

O ressurgimento de alguns armadores de muito talento só aconteceu, no final dos anos 90 inicio do século XXI,  mas assim mesmo prevalecia o futebol de resultados, só para citar um exemplo o único armador da seleção de 94 era o Rai, que só jogou um jogo e foi substituído pelo Mazinho um bom jogador, mas sem técnica para ser a cabeça pensante de um time. Era uma seleção acéfala, sorte que tínhamos Romário.

Destacaram-se dois meias, um já estava na Europa jogando no La Coruña, mas compunha o meio campo jogando como ponta esquerda recuado que era o Rivaldo e no Brasil aparecia Geovanni, ambos com histórias diferentes antes de irem para a Europa.

Geovanni, quando apareceu no Santos, fazia tempo que o time não tinha um jogador de categoria como ele. Comandava um time mediano, formado com jogadores da base e outros que não tinham chances em seus clubes, era considerado lento por seu tamanho, mas era técnico e com faro de gol, de toque fácil carregava a bola com muita elegância, era diferenciado. Levou o Santos a decisão do Brasileirão de 95 contra o Botafogo, não foi campeão por motivos escusos, mas isso é outra historia. Vendido ao Barcelona assumiu a camisa 10 do clube Catalão.

Rivaldo, tem o estilo de movimentação em campo, e sempre ajudando a recompor o meio de campo, quando seu time está sem a bola, começou no Mogi Mirim era quase um volante jogando pela ponta esquerda, dando sustentação ao habilidoso meio de campo do time, Valber. Pelos times que passou, Mogi, Corinthians, Palmeiras, La Coruña e Barcelona sempre fazendo essa função, mudando o posicionamento quando Geovanni deixou o Barça.

Parênteses, para mim Rivaldo sempre o vi como um jogador limitado, que foi ultravalorizado pela imprensa esportiva. Quando o Corinthians comprou metade do time do Mogi Mirim, o único que foi por empréstimo foi o Rivaldo e não foi contratado pelo Corinthians, por acharem muito caro. No Palmeiras ele era coadjuvante de Edmundo e Cia. Só foi melhorar quando Geovanni saiu do Barça e ele assumiu o seu lugar. Sempre achei que deu sorte, tanto é que o meia de 2002, ele não seria o titular, com isso só um jogador esforçado, um jogador tático e com muita sorte.

Podemos citar também, Djalminha, Alex e Ricardinho, como meias de gabarito e honravam a camisa 10. Ricardinho foi campeão do mundo, fazendo parte do plantel de 2002. Já Djalminha e Alex, não tiveram essa sorte, Djalminha agrediu o técnico do seu time, e por isso não foi convocado. Alex teve algum tipo de desentendimento com Felipão e com isso ele não o chamou.

Os anos 2000, foram mais pródigos de armadores, tivemos Ronaldinho Gaúcho, Thiago Neves, Diego, Paulo Henrique Ganso, Philippe Coutinho, Felipe Anderson e Lucas Lima. Mas se formos considerar o que já tivemos de foras de série para a posição, estamos ainda na entre safra, todos com qualidade, mas em pouca quantidade. Esperemos que formemos mais jogadores para ocupar essa função nos times, pois volto ao inicio dessa matéria, estão faltando jogadores de qualidade para a posição.



Formado em Desenho Industrial, na Unisanta turma de 84, mas apaixonado por futebol, aquele bem jogado. Saudosista dos grandes jogos e jogadores.