Pretinha: “Todo mundo que gosta de futebol feminino precisa ajudar”

Crédito da foto: Reprodução / Site oficial da CBF

Quinta-feira, três horas da tarde. Ela aparece como quem chega num bar para aquela resenha com os amigos e curtir o belo dia que fazia no Rio de Janeiro. Ela se senta no chão e começa a assistir e comentar os lances de Flamengo X Audax no Centro de Educação Física Almirante Adalberto Nunes, o CEFAN. O nome dela? Delma Gonçalves, a Pretinha. Ex-jogadora da Seleção Brasileira e do Vasco da Gama, ela se misturou com os (poucos) torcedores para ver o jogo válido pela Copa do Brasil Feminina com a mesma habilidade e irreverência com que desfilava pelos gramados. No intervalo do jogo, resolvi sair de onde estava, me apresentei e perguntei se ela gostaria de conversar comigo. O assunto não poderia ser outro: futebol feminino no Brasil.

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TORCEDORES.COM: Pretinha, você acompanhou a campanha da Seleção Feminina nos Jogos Olímpicos? Quais foram as suas impressões sobre esse quarto lugar das nossas meninas no Rio de Janeiro?

É claro que eu estava torcendo e confiante, não só eu como todo torcedor brasileiro. A Seleção também estava confiante, mas, infelizmente, não veio a medalha. Mas as meninas estão de parabéns independente do resultado e do quarto lugar. As meninas estão de parabéns.

TORCEDORES.COM: Depois de tudo o que você viu nos Jogos Olímpicos, você acha que estamos no caminho certo para melhorar o futebol feminino aqui no Brasil? O que falta?

A pergunta é sempre a mesma. O que precisa melhorar? A gente sabe das dificuldades que a modalidade tem aqui no Brasil. Aqui no Rio de Janeiro principalmente precisa melhorar. Todo mundo sabe que precisa melhorar, só que ninguém faz a sua parte. Então fica difícil só as jogadoras batalhando. Mas todo mundo que gosta de futebol feminino precisa ajudar de alguma forma.

TORCEDORES.COM: Pretinha, você acha que o machismo e o preconceito são os motivos pelos quais o futebol feminino não decola?

O machismo e o preconceito é “normal” com a mulher. Todo mundo sabe que em todas as áreas, não só no futebol. Em todas as áreas existe o preconceito.

TORCEDORES.COM: E o que você está achando da Copa do Brasil Feminina? Você tem acompanhado os jogos da competição? E o que você tem achado da estrutura da competição?

A estrutura, infelizmente, é fraca. E a divulgação também. Tanto que gente só fica sabendo dos jogos por uma amiga, pela internet ou pelo facebook como eu fiquei sabendo. Ainda falta muita coisa. Nao passa na televisão, principalmente a aberta. Precista ter divulgação para os torcedores comparecerem e a estrutura melhorar.

Estrutura da Copa do Brasil Feminina foi alvo de críticas de Pretinha. Foto: Lucas Figueiredo / CBF

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TORCEDORES.COM: Visibilidade é a palavra?

Sempre. A gente sempre fala as mesmas coisas. Daqui a dez anos eu vou estar falando a mesma coisa aqui pra você. Eu acho que precisa melhorar muito.

TORCEDORES.COM: Logo depois da derrota para o Canadá na disputa do bronze, as jogadoras da Seleção Feminina deixaram uma mensagem pedindo para que os torcedores não esquecessem delas. Você acha que essa mensagem está sendo respeitada? Você acha que…

Não. E eu vou te cortar porque ela não está sendo respeitada. Não está sendo porque os jogos não passam na televisão. Não existe divulgação. Então a mensagem já está esquecida.

TORCEDORES.COM: O horário dos jogos também não ajuda. Três horas da tarde pra um jogo de futebol, pro pessoal que trabalha, é complicado…

A responsabilidade é de todos. Não adianta apontar um ou dois culpados. Todos têm que se responsabilizar.

TORCEDORES.COM: Pretinha, você pretende se tornar treinadora de futebol? Você quer ajudar no crescimento do futebol feminino de alguma forma?

Sim. Eu quero ajudar de alguma forma. Por enquanto, eu ainda não decidi. Eu parei em novembro do ano passado, mas eu espero estar dentro do futebol de alguma forma.

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Encerrei a entrevista satisfeito com o depoimento de uma atacante que vestiu a camisa da Seleção Brasileira durante quase um quarto de século e que esteve presente na primeira edição da Copa do Mundo de Futebol Feminino. Ainda havia muito mais coisa para perguntar, é verdade, mas Flamengo e Audax já voltavam para o gramado. Depois de conversarmos sobre o jogo em si e a atuação dos dois times (a partida terminou empatada em um a um), resolvi deixá-la à vontade para ver os quarenta e cinco minutos finais. No entanto, ao voltar pra casa, as palavras de Marta ao final da decisão da medalha de bronze nos Jogos Rio 2016 permaneceram na minha mente por muito tempo…

“Ganhamos vários fãs na Olimpíada, enchemos os estádios. Isso é o maior prêmio. Lógico que queríamos o pódio, mas ser aplaudida em todo lugar, isso que vamos levar. Agora peço ao povo brasileiro: Não deixe de apoiar o futebol feminino. Precisamos muito de vocês.”

Elas precisam de nós. É nosso dever ajudar.



Produtor executivo da equipe de esportes da Rádio Nacional do Rio de Janeiro, jornalista e radialista formado pela ECO/UFRJ, operador de áudio, sonoplasta e grande amante de esportes, Rock and Roll e um belo papo de boteco.