Opinião: Quando a graça não tem mais graça

Crédito da foto: Goiás Esporte Clube

11167955_852369918173781_6912531110082002445_nNa última quinta-feira, 22, o meia Daniel Carvalho anunciou a rescisão amigável de seu contrato com o Goiás. O atleta de 33 anos agradeceu ao clube em suas redes sociais, disse – como é de praxe no meio – que sai como mais um torcedor e deixou o futuro em aberto. Porém, em entrevista à rádio 730 de Goiânia, revelou que já não se sente bem em dizer que é um jogador de futebol. Algo perturbador vindo de um jogador que poderia atuar tranquilamente por, no mínimo, mais três a quatro anos.

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Os atletas, é claro, são seres humanos, e assim sendo, não são eternos. Estão limitados ao tempo que seus corpos suportam a prática em nível competitivo. Na maioria das modalidades, em especial no futebol, esse limite normalmente chega entre os 35 e os 40 anos. O esporte em alto nível exige muito física e mentalmente dos atletas, que começam muito cedo a competir e se dedicam por vinte anos ou mais à atividade numa intensidade que ultrapassa os limites do humano. Há atletas que conseguem se manter bem por muito mais tempo do que o que seria o comum. Mas há casos em que uma parte falha, seja o corpo ou a mente, e grandes talentos acabam abandonando suas carreiras quando era para estarem no auge da forma.

No caso de Daniel Carvalho, há pelo menos cinco anos, ele já não é mais um atleta profissional de futebol. Sempre brigando contra a balança e demonstrando pouca vontade de recuperar seu melhor futebol. Desde que retornou ao Internacional, após passagem pelo futebol russo, o meia nunca conseguiu jogar em grande forma e acumulou passagens apagadas por Atlético-MG, Criciúma, Botafogo e por último Goiás. Sua provável aposentadoria, numa idade onde a maioria dos jogadores ainda almeja coisas grandes na carreira, como chegar á seleção nacional ou disputar uma Copa do Mundo, demonstra que não adianta apenas ter aptidão para o esporte. É preciso ter tesão pela coisa. Há que se estar disposto a encarar a rotina puxada que os atletas profissionais tem. Muitas vezes o esportista tem que abrir mão de suas horas de lazer, do convívio com família e amigos, para alcançar resultados. E nem todos, talvez a maioria, não estejam preparados para encarar essa realidade. E em algum momento são cobrados por isso. Esporte de alto rendimento é, no sentido mais amplo da expressão, para gente grande.

O grande George Best, talvez o maior talento da história do futebol inglês parou de jogar em alto nível aos 26 anos. O estrelato precoce e o alcoolismo anteciparam em muito o fim de uma das mais promissoras carreiras do futebol mundial na década de 1970. O piloto finlandês de Fórmula 1 Mika Hakkinen, após duas temporadas dominantes na categoria, que culminaram no bicampeonato mundial, encerrou a carreira aos 32. Ronaldinho Gaúcho assombrou o mundo jogando pelo Barcelona em meados dos anos 2000. No auge de sua forma, entre 2004 e 2007, o craque proporcionava exibições de gala, beirando a perfeição. Contudo, o sucesso estrondoso o colocou numa tal zona de conforto, que já em seus últimos tempos no Barça já não demonstrava o mesmo apetite de seus anos de ouro. Depois que deixou a Catalunha, o gaúcho nunca mais jogou a mesma bola. Teve ainda uma boa fase no Atlético-MG em 2012 e 2013, porém, desde que deixou o clube mineiro em julho de 2014, parece ter deixado também o futebol.

Outro caso emblemático é o de Adriano, o Imperador. Desafia a compreensão a forma como um dos maiores centroavantes do mundo, estrela de primeira grandeza da fortíssima Série A italiana e uma das referências da seleção brasileira abandonou tudo. Após a perda do pai, Adriano sucumbiu á depressão e o vício em álcool. Acumulou problemas físicos, disciplinares e passagens turbulentas por Flamengo, Roma, Corinthians e Atlético Paranaense. O atacante, hoje com 34 anos poderia ser um dos líderes da nossa seleção e teria todas condições de ser um dos grandes artilheiros do futebol mundial. Entretanto, nem mesmo os fãs mais otimistas têm esperanças de ainda vê-o atuando em grande forma.

Ser um grande astro, tornar-se referência para milhares de pessoas e inspiração para muitos, especialmente jovens, que desejam se tornar também grandes esportistas, é algo que encanta muito aos atletas. É uma das maiores satisfações que eles têm. É o que faz valer a pena as suas carreiras. Porém, o custo de se ser uma grande referência é alto. O atleta de alto nível, o olimpiano, tem que se condicionar fisicamente de forma contínua e ter disposição mental para fazer isso por longos períodos de sua vida. A longevidade no esporte tem aumentado bastante, até mesmo em modalidades como a Natação e a Ginástica, que durante décadas conhecidas pelo fato de seus praticantes e começarem e terminarem a carreira muito jovens. Como grande exemplo desse novo momento, tivemos nos Jogos Olímpicos do Rio a a participação da uzbeque Oksana Chusovitina, que disputou sua sétima edição de Olimpíada aos 41 anos de idade. Algo absolutamente incomum para um esporte onde até bem pouco tempo os atletas se aposentavam no máximo aos 25 anos.

A grande lição que atletas como Chusovitina deixam é que, quando há vontade, dedicação e paixão pelo que fazemos é possível ter grande desempenho e obter grandes resultados por muito tempo. E o que histórias como as de Best, Hakkinen, Adriano, Ronaldinho, Daniel Carvalho e muitos outros comprovam é que o esporte em alto rendimento pode ser massacrante para quem não tem estrutura, sobretudo psicológica, para lidar com a responsabilidade de ser uma grande referência. Esporte profissional, com o perdão da redundância, literalmente, não é para amadores.