Entrevista com Alline Calandrini: zagueira do Santos fala sobre Conmebol, aposentadoria e muito mais

A zagueira santista, Alline Calandrini, ou Calan, como é popularmente conhecida, concedeu entrevista exclusiva para o Torcedores. A jogadora, de 28 anos, falou sobre a nova mudança na Libertadores a partir de 2019, feita pela Conmebol, -que obriga os clubes de futebol masculino que estão na disputa do torneio continental, a manterem uma equipe feminina ativa-. Calandrini também relatou que já pensou em aposentaria, mas espera concluir a faculdade para decidir seu futuro.

Questionada sobre a decisão da Conmebol nos últimos dias, Calan foi bem direta: “Acredito que os clubes não gostaram nem um pouco disso. (Risos). Falo porquê sei a dificuldade dos clubes terem um time feminino. Pode até não ser a maneira mais eficaz, mas, quem sabe assim os clubes tendo futebol feminino não abram a cabeça e gostem da gente? (Risos)“.

Com passagem pela seleção brasileira e uma carreira longínqua pela frente, a zagueira de 28 anos já pensou em se aposentar dos gramados. Mas ressalta que só tomará qualquer decisão após o término de sua faculdade: “Já andei pensando em pendurar as chuteiras, inclusive com a idade de hoje. (Risos). Mas, meu foco é terminar minha faculdade que será ano que vem. E aí então penso por onde caminhar”. 

Confira na íntegra a entrevista da zagueira alvinegra:

T: Calan, conta um pouco mais sobre você, para quem ainda não te conhece.

Calandrini: Meu nome é Alline Calandrini, tenho 28 anos e sou de Macapá. Saí de casa em busca de um sonho com 17 anos. Passei pelo Juventus onde fiquei 4 meses, Santos 2006-2011, Centro Olímpico 2012-2014 e retornei para o Santos 2015-2016. Durante esses anos tive passagem pela seleção brasileira.

T: Atualmente você joga no Santos, descreve para nós como é trabalhar nesse clube e se possível, dá mais detalhes sobre a estrutura que a instituição oferece para as meninas.

Calandrini: Bom, sou suspeita pra falar. (Risos). Eu jogo aqui tem muitos anos, desde a geração anterior. Mas é o clube que mais incentiva a modalidade no país. Temos estrutura de masculino. Alimentação, salário (carteira assinada), cuidados médicos, fisioterapia, assessoria de imprensa, material novo, faculdade e campos de treinamento ótimos. Ou seja, temos todo o suporte para desenvolvermos nosso melhor. Seria ótimo se tivéssemos mais clubes com essa estrutura para o futebol feminino.

T: Já sofreu algum tipo de preconceito por ter escolhido essa profissão?

Calandrini: Não. Na verdade quando falo que jogo causa espanto. Claro que em seguida as pessoas sempre falam: “Poxa, pena que no Brasil não tem apoio nenhum”. O que de fato é verdade. Mas preconceito em ter escolhido a profissão não.

T: Como é a relação da torcida santista com as Sereias? 

Calandrini: Eu acho muito legal a relação da torcida conosco. Eu sinto que estamos perto o tempo todo. Sinto os torcedores próximos. Acho legal termos uma identidade com os torcedores santistas. Vamos buscar cada vez mais retribuir isso com um título. Tá faltando.

T: Esse ano foi bastante produtivo para vocês, mas ficou aquele gostinho de “quase” na final do Paulista, diante do Rio Preto. Já pensando em 2017, acredita que a equipe pode alçar voos ainda mais altos? Qual sua expectativa para o próximo ano?

Calandrini: Claro. Desde quando voltamos eu comento sobre ter calma. Os resultados nunca irão aparecer da noite para o dia. Essa geração é completamente diferente da anterior. Temos que trabalhar cada vez mais para alcançarmos o título. É nossa segunda temporada e esse ano foi melhor que ano passado. Ano que vem será melhor Ainda. Isso é normal quando se monta uma equipe. Ninguém mais que a gente quer dar esse presente para o Santos.

T: Recentemente, o Peixe divulgou que vai abrir categorias de base para o futebol feminino. O que acha dessa iniciativa?

Calandrini: Acho perfeito. Recebi muitos pedidos de meninas pedindo chance. E parte o coração não poder ajudá-las em realizar esse sonho. O incentivo vem do futebol de base. O futuro são elas. A modalidade ganha com isso.

T: Também foi divulgado pela Conmebol a reformulação na Libertadores a partir de 2019, e isso inclui  a obrigatoriedade dos times masculinos em manterem uma equipe feminina profissional em atividade. Aline, você acredita que essa possa ser a maneira mais eficaz para a integração e expansão da modalidade feminina?

Calandrini: Essa palavra “obrigatoriedade” é complicado. (Risos). Acredito que os clubes não gostaram nem um pouco disso. (Risos). Falo porquê sei a dificuldade dos clubes terem um time feminino. Pode até não ser a maneira mais eficaz, mas, quem sabe assim os clubes tendo futebol feminino não abram a cabeça e gostem da gente? (Risos). Quando o Santos abriu o departamento de feminino não foi fácil. Muitos contras, até hoje. Mas estamos aí, buscando nosso espaço e com pessoas que acreditam no nosso potencial.

T: Com esse novo projeto do Santos, agregado às mudanças da Conmebol, o que mais estaria faltando para o futebol feminino cair no gosto popular?

Calandrini: Não acho que apenas essa mudança seja o diferencial. Acredito que precisam de outros fatores. Mídia, empresas apostando, CBF ajudando. É um conjunto que precisa andar junto. Incentivo a modalidade.

T: Em 2008, quando você participou do Mundial sub-20, no Chile, te elegeram a jogadora mais bonita da competição. De lá para cá, a fama de musa sempre te acompanha. Como é lidar com isso? Acha legal?

Calandrini: Hoje é tranquilo. Não deixo que isso atrapalhe minha carreira de atleta. Meu foco sempre foi ser vista como uma zagueira de bom nível. Quando era mais nova ficava incomodada. O título de musa vinha antes de ser jogadora de futebol. (Risos).

T: Atualmente você tem 28 anos, e tem uma carreira bem longínqua pela frente. No entanto, já parou para pensar quando pretende pendurar às chuteiras? E o que pretende fazer depois que encerrar a carreira? De alguma maneira, quer continuar no meio do futebol?

Calandrini: Já andei pensando em pendurar inclusive com a idade de hoje. (Risos). Mas, meu foco é terminar minha faculdade que será ano que vem. E aí então penso por onde caminhar. Faço jornalismo e pretendo seguir na área do jornalismo esportivo. Não necessariamente futebol. Mas o esporte é uma área que eu gosto e me sinto segura.

T: Calan, por fim, qual a mensagem que você deixa para as meninas que sonham em viver do futebol? Realmente vale a pena?

Calandrini: Não me arrependo nada em ter escolhido essa profissão para minha vida. Amo meu dia a dia, trabalho. Então para as meninas que gostariam de seguir essa profissão, aposte. Não é fácil. Esteja disposta a conquistar seu espaço que será feliz. E claaaaaaro, estudar. A idade chega para o esporte e é importante estar preparada quando encerrar a carreira esportiva.

Crédito da foto: Reprodução / arquivo pessoal



Súdita do Pelé e da Marta. Acredito na ética jornalística e no diálogo como primeiro passo para a reflexão e ação. Apaixonada pelo futebol feminino.