Opinião: O futebol perde com a morte de Carlos Alberto Torres

caju fala de capita devia ter levado cunha
Crédito da imagem: Rafael Ribeiro / CBF

Gilmar, Carlos Alberto, Mauro Ramos, Calvet e Dalmo, defesa clássica do Santos na década de 60. Infelizmente para nós todos eles já estão jogando no céu e com isso o futebol fica mais pobre.

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Fui surpreendido, e todo o Brasil, da morte do grande capitão de 70, vítima de um infarto fulminante. Foi-se o maior lateral direito da historia do futebol mundial. Como lateral, o vi jogar muito pouco, mas o suficiente para ter certeza que após largar a seleção brasileira e o Santos, não apareceu mais ninguém com a sua capacidade técnica e de comando em campo. É uma lacuna aberta já há muito tempo.

Dos que o sucederam na seleção, o que mais chegou perto foi o Jorginho e esse perto ainda tem um abismo abissal de diferença.

Das poucas lembranças que possuo, destaco a elegância em conduzir a bola e o centro perfeito para os atacantes, e olha que naqueles tempos de mais buracos que grama na Vila era um desafio aos que conheciam do metiê. Além de exímio batedor de faltas, tinha um chute de direita potentíssimo, fazia a função de lateral como pouco de desarme limpo sempre procurando a bola.

Percussor do “ala” moderno, saia para o jogo como poucos e teve como companheiros por aquele lado do campo pontas de rara qualidade – Edu, Jair Camargo, Manuel Maria só para citar alguns – obrigava o ponta adversário a voltar para ajudar a marcar o lado direito do ataque do Santos, causada pela extrema qualidade dos que por ali jogavam.

Um líder nato e olha que o capitão era o Zito, sempre procurava tomar a frente de situações que viessem a prejudicar o clube ou um companheiro, respeitadíssimo por todos no plantel.

Lembro-me mais dele como zagueiro central, que também jogava uma enormidade, formando dupla com Ramos Delgado (outro que sabia pouco de bola), perfeito no tempo de bola, raramente perdia uma dividida, bom de cabeceio tanto defensivamente como no ataque, bom passador saia com muita qualidade com a bola para o ataque e a cobertura do lateral direito era perfeita.

Um lance que presenciei de como era a personalidade do Capitão em relação aos companheiros, em um Domingo à tarde na Vila, jogavam Santos e São Paulo, só não lembro por qual campeonato, mas acho que era pelo Paulistão. Carlos Alberto já estava jogando de zagueiro de área. O Santos tinha o retorno do lateral Hermes, que voltava de empréstimo do Coritiba. Acho que era a primeira partida após o empréstimo.

O ponta esquerda do São Paulo era o Paraná, atacante voluntarioso e muito rápido. Lá pelo meio do primeiro tempo, lançaram tricolor e na corrida ele deixou o Hermes para trás, mas quando chegou na linha de fundo e preparava-se para cruzar, o Hermes chegou prensando a bola e na sequência deu uma “caneta” no Paraná e saiu jogando.

O Paraná não gostou e fez uma falta duríssima, dizendo para o Hermes ficar “esperto”. Quando o Hermes ia bater a falta o Carlos Alberto chegou perto e disse qualquer coisa para ele e gesticulou para o Paraná, tipo o “teu tá guardado” (comentário de um senhor do meu lado – “xiii, acabou o jogo pro Paraná, depois dessa eu pedia pra sair”) e seguiu-se o jogo.

Perto do final do primeiro tempo, outro lançamento para a esquerda, Paraná dispara junto a lateral do campo, mas o Hermes não foi na bola, quem vem cortando o campo em diagonal do meio para a lateral direita é Carlos Alberto. Mais ou menos na direção da linha da grande área, ele chegou como uma locomotiva na dividida com o Paraná, entrou por cima com a sola no meio da canela do adversário, foi duríssimo na jogada, foi falta, mas o juiz não deu atenção e o Carlos Alberto saiu jogando e o Paraná ficou lá no chão rolando.

No segundo tempo passou a ser mais um a auxiliar do lateral esquerdo do São Paulo. Apenas para ilustrar como ele tomava conta da garotada dentro do campo. Foi um dos grandes incentivadores do Clodoaldo, que já pintava como futuro substituto do Zito. Era reverenciado na cidade, sempre educado e atendia a todos com a maior educação.

Existe uma lenda de um jogo, em um sábado contra o Corinthians no Pacaembu, os jogadores do Santos estavam se aquecendo e o Pelé não estava a fim de brincadeiras, ficou em um canto reservado concentradíssimo. Tinha um aparelho telefônico dentro do vestiário e o Carlos Alberto quando viu o comportamento do Pelé, foi ao telefone e ligou para casa e disse para a esposa: “Pode ir pra feira amanhã e enche o carrinho que o ‘negão’ tá ‘amoado'”. Todo mundo estranhou aquilo, e ele disse para o grupo:

“É bicho certo, vocês viram como ele está? Da última vez que eu vi o “negão” assim, ele só não fez chover, marcou três e tem outra é o Corinthians!!!”, disse.

Pelé fez dois, o jogo acabou em quatro e a esposa do Carlos Alberto encheu o carrinho na feira do domingo.

São só alguns casos do folclore do futebol que a gente fica sabendo, viram lenda, mas servem para ilustrar a vida profissional do maior lateral direito da história, formou uma das maiores duplas de zaga da historia do Santos, faz parte do maior time de todos os tempos do Botafogo do Rio, abrilhantou e qualificou o time do Flamengo. Foi um técnico que sabia o que fazia e nos últimos tempos um grande comentarista. Em todas as funções desfilou toda sua competência e capacidade daquilo que se propôs a fazer.

Vá em paz capitão, que no grande gramado do céu se você optar pela camisa do glorioso alvinegro praiano, terá a companhia de craques para jogar. Vai fazer muita falta para nos todos que gostamos de futebol.



Formado em Desenho Industrial, na Unisanta turma de 84, mas apaixonado por futebol, aquele bem jogado. Saudosista dos grandes jogos e jogadores.