PAPO TÁTICO: Analisando o empate entre Itália e Espanha

Crédito da foto: Reprodução / Twitter / FIFA World Cup

Um jogo entre Itália e Espanha sempre merece a nossa atenção. A expectativa pelo reedição do duelo das oitavas de final da Eurocopa 2016 era grande não somente por se tratar do primeiro grande “clássico” europeu na disputa das Eliminatórias da Copa do Mundo de 2018. Tratava-se do reencontro de duas grandes escolas táticas do futebol mundial. A partida, realizada no Juventus Stadium, em Turim, reunia a estratégia de toque e posse de bola da Espanha (adotada na seleção desde os vitoriosos tempos de Vicente del Bosque) e o chamado “gioco all’italiana”, de forte marcação na defesa e saída rápida para o contra-ataque. Alguns mais saudosistas (como este que vos escreve) podem ter sentido a falta de craques como Roberto Baggio e Xavi Hernández na armação das jogadas de ataque. Mas a partida valeu pela emoção dos minutos finais.

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As duas seleções entraram em campo cumprindo à risca as determinações dos seus treinadores. Enquanto o técnico Giampiero Ventura armou a Itália no usual 3-5-2 com Éder e Pellè se movimentando muito no ataque, Julen Lopetegui organizava a Espanha num 4-2-3-1 bastante utilizado no país. Iniesta jogava mais centralizado com David Silva auxiliando o camisa 6 na armação das jogadas e com Vitolo acelerando pelo outro lado. Embora a Fúria tivesse mais posse de bola e abusasse das triangulações e toques rápidos, o setor ofensivo não conseguia furar o bloqueio defensivo imposto pelo trio de zagueiros formado por Barzagli, Bonucci e Romagnoli. A saída de Jordi Alba e Montolivo por lesão ainda na primeira etapa fez com que as duas seleções demorassem um pouco para se reencontrarem na partida, apesar de Bonaventura ter dado um pouco mais de mobilidade ao meio-campo italiano.

A Itália se manteve fechada na defesa e tentava chegar ao ataque com as bolas longas para Pellè e Éder. Já a Espanha, no entanto, mantinha a posse de bola e não permitia que o 3-5-2 italiano desmontasse a boa execução do 4-2-3-1 do técnico Julen Lopetegui.

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O início do segundo tempo em Turim foi marcado por um daqueles momentos que provam que o futebol pode ser imprevisível. Busquets deu belo passe em profundidade para Vitolo. Buffon, um dos maiores goleiros que este que vos escreve já viu jogar, deu uma pixotada incrível e deixou o camisa 11 espanhol com o gol livre para abrir o placar. A partir desse momento, o técnico Giampiero Ventura resolveu agir e sacou Pellè para a entrada de Immobile, que deu muito mais intensidade ao ataque italiano. Embora o desenho tático não tenha mudado, a postura da Azzurra mudou bastante. A bola, no entanto, seguia batendo na defesa espanhola e voltando para a intermediária. Do outro lado, Julen Lopetegui se via obrigado a substituir um esquentado Diego Costa por Morata. Apesar de ganhar mais movimentação ofensiva, a Fúria perdia em força e em presença na área adversária.

Aos trinta e um minutos da segunda etapa, Giampiero Ventura foi ousado e sacou o volante Parolo para a entrada do atacante Belotti, rearrumando a sua equipe num ofensivo 3-4-3. A recompensa veio quatro minutos depois, quando o camisa 23 entrou pela direita e deu a bola para Éder, que foi tocado por Sergio Ramos. Pênalti (polêmico) bem convertido por De Rossi. E enquanto a Itália seguia acreditando numa virada, Julen Lopetegui sacou Vitolo (única alternativa de velocidade na Espanha) para a entrada de Thiago Alcântara. A substituição melhorou a qualidade do passe no meio-campo da Fúria, mas acabou com a única jogada de contra-ataque da equipe. Belotti ainda balançou as redes mais uma vez, mas o árbitro viu impedimento no lance e anulou o gol. No final das contas, o resultado acabou sendo justo para as duas equipes.

Giampiero Ventura ousou e mandou a Itália ao ataque num 3-4-3 que explorou muito bem os problemas defensivos da Espanha. O empate no Juventus Stadium acabou sendo justo para as duas seleções.

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Mesmo com apenas uma vaga disponível no seu grupo das Eliminatórias Europeias para a Copa do Mundo de 2018, Espanha e Itália não devem encontrar muitas dificuldades para se classificar. Mesmo com a Albânia surpreendendo e assumindo a primeira posição do Grupo G e com seleções como Israel mostrando que vai dar trabalho para Espanha e Itália. Foi bom ver que tanto espanhóis como italianos não tiraram o pé das jogadas mesmo com o início da disputa (segunda rodada) por uma vaga no Mundial da Rússia. No entanto, este que vos escreve esperava um pouco mais de qualidade nesse empate em Turim. Primeiro, pelo peso das duas seleções no continente (estamos falando de cinco Copas do Mundo em campo) e depois por tudo aquilo que se prometia antes da bola rolar. A emoção só veio com a falha de Buffon. Só depois do gol espanhol é que a Itália resolveu fazer algo além de se defender.

O grande X da questão para as duas equipes está na renovação. A Fúria ainda tenta voltar aos bons tempos de Xavi, Iniesta, Casillas, Villa e Xabi Alonso, mas não consegue encontrar jogadores à altura destes para montar uma seleção forte para as próximas competições. Já a situação da Squadra Azzurra é um pouco mais complicada. Não é exagero nenhum dizer que a Itália não monta um time competitivo desde o vice-campeonato da Eurocopa de 2012 (perdendo justamente para a Espanha na grande final). Taticamente, as duas seleções têm muita qualidade, mas ainda falta aquele “algo mais”, aquele “diferencial”. E para vencer uma Copa do Mundo, esse elemento é praticamente indispensável.



Produtor executivo da equipe de esportes da Rádio Nacional do Rio de Janeiro, jornalista e radialista formado pela ECO/UFRJ, operador de áudio, sonoplasta e grande amante de esportes, Rock and Roll e um belo papo de boteco.