Reportagem: Por que os ingressos de jogos de futebol são tão caros?

No ano de 2013 a Pluri Consultoria, uma empresa que desenvolve investigações sobre esportes, mostrou em uma de suas pesquisas um dado alarmante: O BRASIL TEM O INGRESSO DE FUTEBOL MAIS CARO DO MUNDO.

 

Preços dos ingressos no Brasil em relação a outros países

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PREÇO DOS INGRESSOS
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PAÍS
EM REAIS
EM DÓLARES
RENDA PER CAPTA DO PAÍS EM DÓLARES NO ANO
NÚMERO DE INGRESSOS QUE SE PODE COMPRAR COM TAL RENDA PER CAPTA
MÉDIA DE PÚBLICO NO ÚLTIMO CAMPEONATO NACIONAL

Brasil

51,84 22,62 11.208 495 14.951

Espanha

112,89 49,36 29.118 590

26.867

Inglaterra

116,27 50,84 39.351 774

36.589

Portugal

52,15 22,80 21.029 922

10.217

Argentina

27,96 12,22 11.573 947

18.216

Turquia

25,61 11,20 10.946 978 15.014

México

24,51 10,72 10.307 962

22.939

Itália

72,40 31,66 34.619 1.094

23.365

Japão

78,80 34,46 38.492 1.117

17.160

Holanda

82,83 36,22 47.617 1.315

19.289

França

57,98 25,35 41.421 1.634

20.693

Alemanha 60,10 26,28 45.085 1.716

43.173

EUA 62,51 27,33 53.143 1.944

18.743

Fonte: Pluri consultoria – dados de 2013

 

De acordo com a ela, nosso país está no topo da lista dentre os 16 investigados, inclusive de europeus como Espanha, Inglaterra e Itália. A pesquisa levou em consideração o preço atual do ingresso e a renda per capta do cidadão daquele país. Essa relação colocou o brasileiro como a povo que possui o menor poder de compra dentre os investigados; além de possuir a segunda menor média de público entre os campeonatos nacionais.

 “Se você compara o preço dos ingressos aqui no Brasil com o de países europeus vê-se que o valor aqui é mais barato do que lá. O problema é que a nossa renda per capta é muito mais baixa que na Europa. Então, a questão da elitização tem, na verdade, relaçãocom a distribuição de renda no país.” – comenta Marcelo Proni, professor da Universidade Estadual de Campinas, a Unicamp.

 “O Brasil tem uma grande parte dos torcedores, com renda média bem baixa. Então, essa politica que é feita nas novas arenas prioriza os torcedores de mais alta renda. Ou seja, são aqueles torcedores que podem pagar um ingresso mais ou menos compatível com que é cobrado em países da Europa.” – Afirma o professor.

Os resultados da pesquisa da Pluri Consultoria também demonstraram existir uma maior concentração de público de apenas uma classe econômica que vem acompanhando os jogos em estádios através dos anos. Prova disso é o fato de o Maracanã possuir os 5 maiores recordes de público da história do futebol mundial e hoje, apesar da redução da sua capacidade total,  seus números de pagantes no estádio seguirem sem atingir números expressivos.

 

Os 5 maiores publicos do futebol mundial (Todos no Maracanã)

Confronto

Data Competição

Público

Brasil 1 x 2 Uruguai

16 de julho, 1950

 

Copa do Mundo

199.854

 

Brasil 4 x 1 Paraguai

21 de março, 1954

 

Eliminatórias da Copa

195.513

Fluminense 0 x 0 Flamengo

15 de dezembro, 1963 Campeonato Carioca

194.603

Brasil 1 x 0 Paraguai

31 de agosto, 1969

 

Eliminatórias da Copa

183.341

Flamengo 3 x 1 Vasco

4 de abril, 1976

 

Taça Guanabara

174.770

Fonte:  Revista Mundo estranho – acessado em 27/10/2016 –

“Futebol é um entretenimento que sempre foi do cidadão de baixa renda. Na medida em que ele não é mais acessível é obvio que você esta tirando uma coisa importante da população. Não é só uma discussão de esportes, é uma discussão do país. Você tirar algo importante do brasileiro não é algo simplório. Não tem só relação com o futebol ou com o clube. Ela é algo maior. É um reflexo de um problema social. E que foi criado pelo futebol brasileiro que não conseguiu encontrar um jeito de melhorar seus estádios sem aumentar demasiadamente o custo dos ingressos” – Afirma o jornalista Diogo Olivier, do Jornal Zero Hora (RS).

“É só a gente olhar o semblante, o aspecto visual que os torcedores de qualquer estádio agora têm. Nas novas arenas principalmente. É uma situação complicada porque todos nós concordamos que tinha que ter uma melhoria nos estádios e não havia outro caminho. O mundo inteiro estava caminhando para arenas modernas, estádios multiusos, etc. E isso não é barato; é muito caro, aliás. Agora o que nós não podemos fazer aqui no Brasil é transpor o modelo europeu para nossa realidade. Uma coisa é você ter uma arena em Munique, em Milão, em Turim; outra é você pegar aquele estádio e achar que pode-se fazer é a mesma coisa aqui.

 E é até injusto você fazer isso com os torcedores que trouxeram os clubes até aqui durante esse tempo todo e, de uma hora para outra, aos poucos serem excluídos dos estádios.” – Completa o jornalista.

O professor da UNICAMP, Marcelo Proni, especialista em Economia no Esporte, afirma que muito dos valores dos ingressos se devem a uma questão de mercado; uma demanda realizada pelos torcedores que refletem nos atuais valores dos ingressos.

 “Eles [Os ingressos] valem o que você esta oferecendo. Ou seja, um espetáculo de qualidade e porque os torcedores estão motivados a ir ao campo. Quando você tem um produto que não é atraente, quando os clientes não estão dispostos a pagar aquele preço que você está pedindo, necessariamente você tem que reduzir o preço. Isso em qualquer mercado.”

No dia 19 de Setembro deste ano, a Folha de São Paulo divulgou uma entrevista com o atual Secretário Nacional de Futebol e Defesa dos Direitos do Torcedor, Gustavo Perrella

Na matéria, Gustavo afirma não ver problemas no preço dos ingressos dos estádios. Ele justificou que este esporte é caro, assim como os salários dos jogadores e as arenas esportivas, fazendo com que os clubes precisem gerar mais receitas para bancá-los.

22 de Setembro de 2016 - Secretário Nacional  de Futebol Gustavo  Perrella Participa de audiência publica na Comissão de Educação ,Cultura e Esporte do Senado para tratar do Estatuto do Torcedor. Foto: Roberto Castro/ME
Foto: imagens públicas – Roberto Castro

 

Camila Mattoso, jornalista responsável pela entrevista com o Secretário, contou quais foram suas impressões após a conversa com Gustavo Perrella.

 “A impressão que eu fiquei foi de que ele não vai mexer nisso (no valor dos ingressos), que ele entende como algo normal” – comentou.

 Mas há quem discorde do ponto de vista do Secretário de futebol. Como o jornalista Diogo Olivier, que não vê argumentos suficientes para justificar essa elevada alta dos valores dos ingressos.

 “Não justifica porque eles sempre foram assim. Antes das arenas os salários já eram absurdos. Essa loucura de pagar salários altíssimos começou acentuadamente na virada do século XX para o XXI, fazendo salários de três dígitos ou mais. Vamos pegar o Inter e o Grêmio, por exemplo. Eles não tinham nem Arena Grêmio nem o Novo Beira-Rio, e já possuíam folhas salariais de 7 milhões, 8 milhões.” – justificou o jornalista do Zero Hora.

Diogo olivier
Foto: Zero Hora
O jornalista Diogo Olivier foi um dos entrevistados da matéria

De acordo com Diogo Olivier, o problema dos valores dos ingressos ultrapassa a mera razão da existência das arenas e dos salários dos atletas. Existindo fatores extras a estes.

 “O problema é o processo todo envolvido. Não se culpe o estádio por isso. Temos que discutir também a relação dos dirigentes e tudo mais. Não podendo justificar somente uma coisa com a outra. Embora eu reconheça que é caro manter um estádio.”

 

Não depende apenas dos clubes.

 Outro fator que interfere diretamente nos valores dos ingressos é a questão da administração dos estádios e Arenas. Geralmente elas são feitas por empresas terceirizadas que, por questões contratuais, tem o poder de decidir o valor que certo ingresso de jogo terá.

ARENA GREMIO
Foto: Wikipédia
Arena Grêmio

 

Para o jornalista Diogo Olivier, as administradoras das arenas esportivas usadas nos campeonatos não se preocupam com as questões sociais e sim com o lucro que podem obter.

“Outro problema ainda é que em algumas arenas o clube não tem o direito de baixar os valores dos ingressos. O internacional [por exemplo] ainda tem esse privilégio, pois ele gerencia cerca de 80% de seu estádio.  Apenas as áreas de camarotes e cadeiras são administradas pela parceira Andrade Gutierrez . Já o Grêmio, por sua vez, não pode. Ele precisa de permissão da OAS, que é a sua administradora de estádio, para pedir redução de valores de ingressos. Tudo por uma questão de contrato. E assim é com outros estádios  também. Maracanã é assim, Mineirão é assim; tem um consórcio ali de empresas que administram e elas não estão muito preocupadas com a questão social, com a popularização, com elitização. Elas estão preocupadas com os números e se eles vão bater.  Então não se trata apenas dos clubes quererem baixar. Tem que ver se os administradores dos estádios, que nem sempre são os clubes, e na verdade quase sempre não o são, se querem fazer isso.”- conta Diogo.

Estádio beira rio
Foto: Wikipédia
Estádio Beira-Rio

 O jornalista do Zero Hora terminou sua participação propondo medidas possíveis para diminuir essa desigualdade de público nos estádios.

“Qual é uma alternativa viável? Bom, tem que, primeiro: ser mais radical na classificação dos jogos. Não tem como cobrar o mesmo valor de ingresso de um jogo de campeonato estadual e de um jogo de campeonato brasileiro. Mas mesmo assim há uma certa injustiça em se fazer isso, trazer o torcedor carente para jogos de menor importância. Porém, pelo menos é uma solução primária. E segundo é manter espaços mais populares nos estádios. Esse modelo todo construído tem de alguma maneira financiar esses torcedores que não possuem condições.”.- finaliza o jornalista.



Graduando em jornalismo na Universidade Estadual Paulista (UNESP campus de Bauru). Iniciei meu envolvimento com a profissão em 2014, quando trabalhei como produtor de um programa esportivo de rádio. Na graduação, sempre me interessei por pesquisas do meio jornalístico principalmente ligados a área esportiva.