Opinião: O relato de um corintiano no Maracanã

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Antes de começar, quero que deixem uma ideia fixada na cabeça de vocês: não passo pano para criminoso. Não sou de torcida organizada, mas fui de caravana para o Maracanã. O preço era mais barato e eu não me preocuparia com “surpresinhas” no trajeto Rodoviária/Estádio-Estádio/Rodoviária.

Saímos do Bom Retiro(SP) às 4h50 e pisei no estádio às 16h10 (11 horas e 20 minutos de viagem). Coloco pelo menos 4 horas na conta da polícia pela canseira que tomamos.

Entrei no Maraca, comprei uma cerveja (ideia visionária para os estádios de São Paulo) e fui para ‘bancada’. Lá dentro, já havia grande provocação entre as torcidas.

Quando a briga entre alguns corintianos e PM começou, a torcida do Flamengo ao todo, adorou. Gostaram tanto que alguns torcedores foram nas grades para jogar bebida e chamar pra briga. Pedido atendido por corintianos, que quando foram pra grade receberam repreensão de 3 PMs (salvo engano), vendo que estavam em maioria, partiram pra cima da polícia e protagonizaram aquela cena horrorosa.

Voltaram para grade e ela começou a ceder, a polícia do outro lado jogou spray de pimenta e a maioria dos torcedores desceram sentido os acessos. A câmera não mostra, mas a separação da parte de baixo do estádio (onde ficam lanchonetes e banheiros) também cedeu, nisso começou as bombas.

Onde eu estava? Lá na rampa com outra breja. As câmeras estão do meu lado.

Bateu 10 minutos voltei pro estádio e aí rolou tudo legal. Estádio inflamado e atmosfera sensacional.

No intervalo, a polícia já começou a pegar alguns torcedores, chuto uns 10.

Fim do jogo. Flamenguistas saíram, e começou a repressão.

As lanchonetes estavam fechadas, e só tínhamos acesso ao banheiro de deficiente. No mínimo 5 minutos para usar o banheiro.

Voltei para a arquibancada, depois de uns 30 minutos a PM queria todos sentados juntos, e já subiram batendo em quem ainda não estava perto, e quem estava nos acessos. Primeiro nos colocaram lá embaixo, e depois mandaram subir. E tome bordoada em quem não conseguia subir rápido.

Fomos ameaçados e coagidos a todo momento, a polícia começou a pegar qualquer um com característica parecida ou que eles não iam com a cara. Já abordavam ameaçando e batendo.

Quando não conseguiram mais, mandaram as mulheres e crianças saírem e os homens tirarem as camisetas. Não antes de xingar muito qualquer mulher que se posicionava contra o que estava acontecendo ali. Me lembrava muito o Carandiru, muitas pessoas passaram mal e eles não ligavam, falavam que não era pra estar ali, que no RJ a polícia funcionava, diferente de SP.

Um cara da Sunset (terceirizada de segurança no Maracanã) indignado com o que estava vendo, começou a gravar a ação escondido. Quando descoberto, foi ameaçado, coagido, teve seu celular confiscado pela PM, e também o seu supervisor chamado lá no meio da confusão. O policial solicitou que o cara fosse demitido. A PM o levou…

As cacetadas pararam um pouco com a chegada de emissoras no gramado. Muito criticadas pela PM, que diziam que “as emissoras atrapalhavam o trabalho”. Aliás, teve policial pedindo que os jornalistas fossem embora ou desligassem as câmeras. Pedidos não atendidos.

Lembrava apenas do policial Camargo e do Chumbinho, que fez sucesso, pois não foi esquecido no relato do amigo Anderson Araújo. Frases como “essa volta vai ser um inferno para vocês”, “vocês são todos vagabundos”, “em São Paulo não tem macho”, “seus merdas”, “vão ver o que é a polícia do Rio de Janeiro, uma polícia de verdade”, “to cagando para a volta de vocês”, entre outras, me faz pensar até onde a PMERJ é xenofóbica, e até onde ela está lá para nos proteger ao invés de nos achincalhar.

Saímos do estádio 22h, nos corredores você só ouvia as cacetadas, e se olhasse pro lado era ameaçado de ficar preso também. Fomos obrigados a correr nas rampas em meio a um enorme corredor polonês de policiais. Tudo para não darmos entrevistas. Batiam em quem ia devagar. Ameaçados e xingados enquanto passávamos.

Lá fora, quem não achasse o ônibus rápido apanhava. O meu ônibus estava lotado de spray de pimenta. Proibiram a gente de abrir as janelas.

22h20, saímos.

Ficamos sem água das 19h até 1h da manhã, quando finalmente pudemos parar em um posto.

Cheguei no Bom Retiro 4h10.

Para mim, é nítido que alguns inocentes ainda estão no RJ, e muitos inocentes nunca mais voltarão ao Maraca.

Para mim, é nítido que a preocupação é maior em humilhar e mostrar poder sobre todos, do que realmente prender os culpados.

Para mim, é nítido que se realmente quisessem repreender os “incitadores de violência”, teríamos flamenguistas detidos também.

Para mim, é nítido que tirar o Setor Norte da Arena Corinthians é medida para cego ver.

Para mim, é nítido que eles não estão lá para nos passar segurança.

Não respeito os policiais militares que estavam no Maracanã domingo. Deles, tenho nojo.

A torcida do Corinthians teve uma contribuição de R$98.750,00 com ingressos no Maracanã. Grande fatia disso vai para a PMERJ.

Não passo pano para criminoso. Tanto para o que veste camisa de torcida, quanto para o que veste farda.

Ah, e o ótimo Flamengo 2 x 2 Corinthians acabou virando algo secundário.

Me chamo Jefferson Marques Campel de Oliveira, vou a estádios de futebol, frequento as arquibancadas e não sou bandido!