PAPO TÁTICO: A grandeza monumental do Grêmio no pentacampeonato da Copa do Brasil

Crédito da foto: Reprodução / Facebook / Conmebol

Uma defesa sólida, um meio-campo criativo, um ataque eficiente, um esquema tático bem executado e bem compreendido e um treinador competente são apenas algumas dessas peças que compõem um elenco vencedor. E o Grêmio pentacampeão da Copa do Brasil teve tudo isso e muito mais. Teve aplicação tática para segurar um Atlético-MG muito mais organizado e perigoso no ataque. E também teve paciência para achar os momentos certos para atacar. A boa vitória por três a um no jogo de Belo Horizonte já deixou o time comandado por Renato Gaúcho com uma mão e dois dedos na taça. Faltava apenas confirmar o título. E ele veio com um empate na Arena do Grêmio. O único “senão” da festa azul, preta e branca foi a confusão lamentável depois do apito final num dia em que todos se uniram para relembrar as vítimas da tragédia da Chapecoense. Mesmo assim, a Copa do Brasil está em excelentes mãos. Pela quinta vez.

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É bem verdade que o Atlético-MG entrou em campo com uma postura bem diferente do jogo de ida. Diogo Giacomini assumiu a equipe no lugar de Marcelo Oliveira e conseguiu dar um mínimo de padrão tático ao Galo. Com Robinho e Luan soltos atrás de Lucas Pratto, o treinador apostou num 4-3-2-1 que distribuiu bem a equipe no campo e levou perigo ao gol defendido por Marcelo Grohe. Rafael Carioca recuava e fazia a popular “saída de três” dando o toque de qualidade no primeiro passe, elemento que faltou no jogo de Belo Horizonte. O Grêmio seguia à risca a cartilha de Renato Gaúcho: Ramiro e Everton (substituto de Pedro Rocha) abertos e voltando com os laterais adversários no 4-2-3-1 que eu e você já conhecemos. Apesar da boa marcação do Galo, Douglas encontrava espaço para acionar os atacantes gremistas, como aconteceu em belo passe de calcanhar para Everton ainda na primeira etapa. De resto, nada do zero sair do placar apesar das chances criadas pelas duas equipes.

O Atlético-MG mostrou muito mais organização e ocupação dos espaços no 4-3-2-1 de Diogo Giacomini. Luan e Robinho jogavam atrás de Lucas Pratto e se movimentavam bastante. Só que isso não foi suficiente para furtar o eficiente bloqueio defensivo do Grêmio. Renato Gaúcho manteve o 4-2-3-1 e explorou bem os contra-ataques.

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O Grêmio manteve a mesma fibra na segunda etapa, se fechando em duas linhas de quatro e buscando os contra-ataques com Douglas acionando Luan (outro que correu muito em campo) e Everton. Diogo Giacomini tentou dar sangue novo à sua equipe com as entradas de Maicosuel, Cazares e Lucas Cândido nas vagas de Júnior Urso, Leandro Donizete e Luan (o Coalhada), arrumando o time numa espécie de 4-2-4. O Atlético-MG tentava chegar na base do toque de bola (e também na base do “abafa”), mas encontrava uma defesa sólida e muito bem postada. Conforme o tempo ia passando, a torcida que lotava a Arena (mais de 55 mil pessoas presentes) sentiam que o título estava cada vez mais próximo. Aos 41 minutos do segundo tempo, Renato Gaúcho sacou um exausto Douglas para a entrada de Miller Bolaños. Três minutos depois, o atacante equatoriano aproveitou cruzamento de Everton pela esquerda e marcou o gol do título.

Diogo Giacomini mandou o Atlético-MG ao ataque num 4-2-4 com Cazares, Robinho, Maicosuel e Pratto tentando (sem sucesso) vencer o bloqueio defensivo do seu adversário. O Grêmio, por sua vez, mantinha o desenho tático básico, compactava as suas linhas e apostava nos contra-ataques. Melhor para Miller “The Killer” Bolaños e para os mais 55 mil torcedores na Arena.

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O Atlético-MG ainda empataria a partida aos 46 minutos, com uma pintura de Cazares, um daqueles gols que merecem menção honrosa do Prêmio Puskás pra ontem. Mas já era tarde para qualquer reação. O Grêmio levantava seu quinto título da Copa do Brasil com toda a justiça. A única coisa a ser lamentada foi a confusão no fim da partida, com os jogadores das duas equipes se atracando num dia em que todos lembravam as vítimas do acidente com o avião da Chapecoense. Tudo bem que os nervos ficam à flor da pele numa final de Copa do Brasil, as provocações acontecem dentro e fora de campo, mas penso que dava pra ter segurado a onda. Ainda mais depois da bela homenagem feita pelos próprios jogadores, trio de arbitragem e jornalistas. Fica mais essa lição para o nosso futebol e para nós também. Se calar diante de uma ofensa e/ou uma provocação também é uma demonstração de grandeza. Não falo daqui da grandeza de um time ou de uma conquista. Me refiro à grandeza de caráter.

Vale destacar aqui a fibra de Renato Gaúcho. Mesmo contestado, mesmo criticado, ele voltou ao Grêmio, aproveitou o que tinha de melhor no trabalho de Roger Machado (aceitar que seu antecessor tinha qualidade e boas ideias é para poucos no futebol brasileiro), acertou os pontos fracos, recuperou a moral dos jogadores e montou um belo time. Como dissemos lá em cima, a Copa do Brasil não poderia estar em melhores mãos. Assim como seu treinador, o Grêmio foi grande e soube superar as dificuldades e adversários do quilate de um Cruzeiro e um Atlético-MG (vencendo as duas partidas disputadas em Belo Horizonte) jogando um futebol eficiente e organizado. Temos muito que aprender com a disciplina tática do Tricolor Gaúcho e muito que aprender com a fibra e a garra de Renato Portaluppi. Parabéns, Grêmio. Parabéns, Torcida Imortal.



Produtor executivo da equipe de esportes da Rádio Nacional do Rio de Janeiro, jornalista e radialista formado pela ECO/UFRJ, operador de áudio, sonoplasta e grande amante de esportes, Rock and Roll e um belo papo de boteco.