OPINIÃO: Festa só na favela – A mudança no perfil do torcedor que frequenta estádios no Brasil

Crédito: Reprodução Gilvan Souza/Flamengo

Como a modernização do futebol brasileiro criou um novo tipo de torcedor – e o que ele representa para os clubes.

A modernização do futebol brasileiro — reformas dos estádios e transformação em arenas, mudança no cronograma das competições nacionais e continentais das quais participa, aumento do preço dos ingressos dos jogos — é um reflexo claro de como o capital passou a ser o agente determinante do esporte. Em tempos de crise econômica no país, quem acaba pagando a conta é o torcedor. Raça, amor e paixão não são mais suficientes para os entusiastas da modalidade incentivarem seu time e em alguns momentos até serem participantes decisivos da partida. O Clube de Regatas do Flamengo é, talvez, o melhor exemplo dessa mudança no perfil do torcedor que frequenta estádios de futebol.

Taxado de “molambento” e “favelado” pelos rivais, o Flamengo tem uma forte tradição popular, e sempre foi uma de suas grandes características ser um time das massas, lotando estádios pelo país todo com seu público apaixonado, que empurrava o time na direção do gol. Recentemente, porém, essa situação se inverteu — uma torcida majoritariamente branca e de classe média agora lota os estádios nos quais o time joga. Isso se deve ao aumento do preço dos ingressos e ao programa sócio-torcedor, no qual os entusiastas pagam uma mensalidade para receber alguns benefícios, principalmente a prioridade e descontos na compra de ingressos para os jogos. Esse programa ajuda a ­­equilibrar as contas dos clubes, mas acaba criando um tipo diferente de público. E grande parte da torcida não está satisfeita.

Em uma pesquisa recente na internet com torcedores de diversos clubes do país, surge um consenso sobre esse novo tipo de público. 85% dos 238 votos revela que o torcedor vê mudança em relação aos frequentadores dos estádios. Das 169 respostas discursivas, a grande maioria ressalta que o comportamento desse novo torcedor está diretamente relacionado ao valor do ingresso, com o termo “elitização” e seus derivados (gourmetização, torcedor “Nutella”) presentes em mais da metade das respostas. E dos 203 torcedores que veem diferença entre frequentar estádios há alguns anos e agora, 170 dizem que prefeririam como era antes. O motivo da ascensão desse novo torcedor de classe média fica claro: a mensalidade mais barata, no Flamengo, para o sócio-torcedor maior de idade é de R$29,90 e o ticket médio (o valor arrecadado no jogo dividido pelo público pagante) nas competições do ano varia entre R$50 e R$79, sendo o mais alto dentre todos os clubes, exceto nos dois campeonatos que o Palmeiras, atual campeão brasileiro, também participava.

A estudante de farmácia Pamella Souza, de 26 anos, conta também sobre os custos extras de uma partida, como o deslocamento e o consumo dentro do estádio. “ muito além do que a gente pode gastar, não só o sócio-torcedor, mas também na realidade do Brasil hoje. É bem absurdo isso, e com isso mudou completamente o panorama do público que frequenta o estádio. Ficou bem mais elitista, com certeza”, Ela falou também sobre o antigo Maracanã, quando ainda havia a arquibancada geral, e não as cadeiras dispostas pelo estádio como vemos hoje, o que reduz consideravelmente a capacidade de lotação. “Eu peguei o Maracanã na época da geral, tava acabando a geral quando eu comecei a frequentar estádio, então, assim, eu sentia mesmo o clima de torcida”, desabafa a estudante

A perda do clima da torcida também foi sentida por Leonel Andrade, um estudante de 21 anos que há 5 é membro da torcida organizada Urubuzada. “É um processo de elitização que já vinha ocorrendo e que se acentuou após as reformas para a copa do mundo. Os programas de sócio torcedor também acentuam o problema. O que se manteve de popular nas arquibancadas é graças às torcidas organizadas”, revela Leonel. Ele também percebe diferença entre o comportamento da torcida em setores diversos dos estádios, principalmente atrás do gol, onde se localizam as torcidas organizadas. Nesses setores, os ingressos são mais baratos (e os primeiros a esgotar, principalmente em jogos decisivos) devido a redução do campo de visão do jogo, mas é onde se concentram os torcedores que, de fato, vão ao estádio para incentivar o time. “Depois da Copa do Mundo estamos sofrendo a imposição de mudar nossa cultura de torcer, se moldando ao padrão europeu. É perceptível que a nova geração é predominantemente de classe média”, revela o estudante.

Essa situação piora quando os jogadores com os contratos milionários que supostamente justificam o alto custo para o clube não dão o retorno esperado. O jornalista João Luís Júnior, de 33 anos, questiona a gestão: “Entendo que o clube precisa de dinheiro para funcionar, entendo que saúde financeira tem ligação com capacidade de obter resultados, mas não adianta nada montar uma equipe forte se o torcedor não tem condições financeiras de ver essa equipe em campo.” O torcedor, em um conhecido hino da torcida, promete apoiar o clube independentemente de onde ele estiver. Ironicamente, esse é o torcedor que está cada vez mais afastado do estádio. Essa mudança do perfil do torcedor indica que a festa do Flamengo, pelo menos por enquanto, vai continuar só na favela.


Em tempo, aqui vai o resultado completo da pesquisa, caso alguém queira dar uma olhada.

As respostas objetivas podem ser encontradas aqui e as discursivas aqui.

 

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