Em meio à crise do esporte brasileiro, FEA-USP busca alternativas na gestão profissional

O choque da Copa do Mundo certamente deixará muitas cicatrizes no futebol brasileiro e expôs de vez a crise na gestão do esporte mais popular do país. Mais do que nunca foi posta na mesa a necessidade urgente de uma reformulação em todos os setores.

E a situação não se restringe apenas ao futebol. No vôlei, escândalos de corrupção na Confederação Brasileira de Vôlei (CBV) envolvendo a empresa do superintendente da geral da entidade e o Banco do Brasil. No basquete, embora recentemente a Liga Nacional (NBB) tenha se desenvolvido consideravelmente, as más gestões eram refletidas também dentro das quadras, onde o Brasil não mostra um alto grau de competitividade há anos. Depois dos acontecimentos relacionados ao vôlei, inclusive, o deputado-federal Romário sugeriu que fosse aberta uma CPI para investigar o Comitê Olímpico Brasileiro (COI).

Diante disso, o momento parece oportuno para o surgimento de empresas com novas ideias para a melhoria do esporte como um todo. É o caso da FEA Sports Business, uma empresa júnior dentro da Faculdade de Economia, Administração e Contabilidade da USP, que tem como intuito tornar-se um elemento de comunicação e difusão do conhecimento do esporte no âmbito profissional.

Criada por Vinícius Morrone, a entidade baseia-se em quatro pilares. O primeiro é o acadêmico, cujo foco se dá em pesquisas científicas e produções acadêmicas, incentivando a busca pelo contato com a gestão profissional do esporte por parte dos alunos. O segundo é o social. Neste há o intuito de considerar o papel de uma universidade, não só em formar profissionais, mas sim fazer dos alunos verdadeiros cidadãos. A partir disso a ideia da FEA Sports Business é usar o esporte para a realização de projetos sociais. O terceiro pilar corresponde aos eventos, através dos quais haverá seminários, concursos e outros eventos acadêmicos como forma de aumentar o contato com as teorias da gestão esportiva, de modo a despertar o interesse de jovens pela área. Por último vem a consultoria, e por meio dela aliar o conhecimento teórico às práticas do mercado.

Morrone diz que a estrutura do esporte brasileiro em geral, está defasada e precisa ser reconstruída e, por fazer parte de um dos maiores núcleos de administração do país, acredita que a ideia poderá render frutos. Confira no depoimento abaixo.

A gestão esportiva no Brasil ainda está em um nível muito inferior ao que se observa em outros países, talvez em razão de influências históricas, talvez por uma incapacidade de admitir os próprios erros, talvez por um déficit de profissionais qualificados ou, e essa é a hipótese que me parece mais a realista, pelo medo que as associações têm em perder o poder. O mercado esportivo ainda é muito restrito, por mais que se observe uma crescente profissionalização, o investimento ainda é incipiente. Por exemplo, o Manchester United possui cerca de 3 milhões de torcedores e fatura, anualmente, 1,3 bilhão de reais, enquanto os clubes brasileiros de maior faturamento gravitam a casa dos 300 milhões, mesmo com uma base muito maior de potenciais consumidores. A diferença é que no Manchester há dezenas de profissionais remunerados trabalhando na geração de receitas, enquanto no Brasil não há sequer um na área.

Um dos problemas é a facilidade de acesso ao financiamento público que o esporte possui. O paternalismo do governo faz com que as entidades de administração do esporte não sejam obrigadas a se profissionalizar, uma vez que o fluxo de capital está garantido. A gestão esportiva no Brasil está defasada e precisa ser reconstruída. Muitos gestores tratam clubes e confederações como seus feudos e, acreditando que uma gestão profissional colocaria em risco seus poderes, preferem manter a situação sob controle, ou seja, fomentando o amadorismo.

Estar dentro da FEA, um dos maiores núcleos de estudos de administração do país, somado ao atual panorama do nosso esporte como um todo, faz com que este seja um momento oportuno para entrarmos nesse meio com novas ideias e colaborar nessa reformulação”.

 



Estudante de jornalismo na Universidade Presbiteriana Mackenzie e alucinado por futebol.