Baú da TV: Relembre como era o futebol no SBT

Se você assistiu futebol nos anos 1990, a chance de se lembrar das transmissões esportivas do SBT é muito grande. A emissora de Silvio Santos investiu muito no conteúdo esportivo de sua programação para se consolidar no segundo lugar de audiência e até incomodar a Rede Globo em certos momentos. Nessa reportagem, você vai recordar essa época.

Allan Simon
Editor do Torcedores.com, está no site desde julho de 2014. Repórter e apresentador da TV Torcedores. Formado pela Universidade Metodista de São Paulo, já passou por UOL, Editora Abril e R7 (Rede Record). Participou da cobertura das Copas do Mundo de 2014 e 2018, de dois Pans, dos Jogos Olímpicos de Londres 2012 e do Rio 2016. Apaixonado por esportes e games, principalmente os antigos.

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O SBT foi fundado em 1981, quando o empresário Silvio Santos recebeu do governo militar a concessão da extinta Rede Tupi. As emissoras afiliadas do antigo canal se uniram à TVS, formada pelo apresentador. Naquela época, Silvio era dono ainda de 50% da TV Record, que só tinha transmissões praticamente em São Paulo. O desejo era de uma emissora de longo alcance.

Os primeiros anos foram marcados por uma programação essencialmente popularesca, que atraía bastante audiência, mas afugentava patrocinadores e anunciantes. Depois de estabelecido o segundo lugar na audiência, bastante expressado no slogan “Liderança absoluta do segundo lugar”, veio uma qualificação maior da grade. Entrava aí o futebol.

O primeiro grande evento de futebol do SBT foi a Copa do Mundo de 1986, em um pool formado com a Record. Para economizar gastos, as duas emissoras montaram uma equipe só e mandaram ao México para a transmissão dos jogos. O narrador Silvio Luiz, da Record, era o principal nome do time.

https://www.youtube.com/watch?v=xy43xCQZEtg

O pool SBT/Record teve ainda como destaque a participação de Marcelo Tas, no personagem Ernesto Varella, um repórter que fazia perguntas muito incômodas e irônicas aos seus entrevistados. Uma espécie de precursor do estilo CQC atual.

https://www.youtube.com/watch?v=XEQYWkVmbJI

No ano seguinte, graças à TV Jornal, de Recife, o SBT acabou transmitindo com exclusividade em rede nacional aquela que foi a final do Campeonato Brasileiro. Graças ao imbróglio entre a CBF e o recém-formado Clube dos 13, o Brasileirão foi disputado em dois módulos. O Verde, com os maiores times do país, e o Amarelo, com os intermediários, organizado pela CBF. O acordo era que os vencedores de ambos se enfrentassem pelo título nacional de 1987.

Como Flamengo e Internacional se recusaram a participar do quadrangular final, coube a Sport e Guarani a decisão do troféu e as vagas na Libertadores. A TV Jornal tinha os direitos dos jogos do Sport e, por isso, transmitiu os dois jogos. O SBT levou para o Brasil inteiro na voz de Ivo Morganti. A equipe tinha ainda o repórter Jorge Kajuru.

Depois de transmitir as Olimpíadas de Seul, o SBT tinha pela frente o desafio de fazer a primeira cobertura de uma Copa do Mundo sozinho. A competição foi disputada na Itália. Meses antes, o canal já exibia uma vinheta especial para o Mundial.

Nessa Copa surgiu o Amarelinho, personagem de desenho animado que aparecia nas vinhetas, chamadas e até durante os jogos da seleção brasileira. Ele virou um símbolo do futebol no SBT durante os anos 1990. Seu sucesso faria com que ele fosse utilizado até nas transmissões da Fórmula Indy.

A equipe de transmissão era chefiada por Roberto Cabrini, hoje apresentador do Conexão Repórter na mesma emissora. Os narradores eram Luiz Alfredo, contratado após um período na Rede Globo, e Ivo Morganti. Os comentaristas eram de peso. Telê Santana, treinador da seleção brasileira nas duas Copas anteriores, além de um dos mais experientes jornalistas de esportes do país, Orlando Duarte. O técnico Emerson Leão também participou e comentou a grande final entre Alemanha e Argentina.

O sucesso da transmissão fez com que o SBT soltasse um anúncio nos jornais exaltando os resultados. “PENA QUE VOCÊ VAI ESQUECER DESTE ANÚNCIO ATÉ 1994 – O SBT foi vice-líder nos índices de audiência dos jogos da Copa do Mundo de 1990. Quer dizer, mais uma vez ficou com a liderança absoluta do 2º lugar. Se você conseguir, lembre-se disso na próxima Copa”, dizia a propaganda.

O esporte seguiu na grade do SBT com competições como a Olimpíada de Barcelona. O projeto era fazer mais uma cobertura de sucesso na Copa do Mundo de 1994, nos EUA. A emissora de Silvio Santos voltou a usar a criatividade nas propagandas em jornais, desta vez para cutucar a Globo usando o jejum de 24 anos sem títulos que a seleção brasileira vivia.

Copa do Mundo SBT

Reprodução/Folha de S.Paulo

O slogan novamente brincava com a condição de segunda colocada da emissora nos índices do Ibope. “Veja o Brasil ser campeão no vice”. Na equipe que foi aos EUA, os narradores eram Luiz Alfredo e Osmar de Oliveira. Orlando Duarte e Telê Santana voltavam a comentar na emissora os jogos e ganhavam a companhia de Carlos Alberto Torres, capitão do tri.

O Amarelinho voltava a ser destaque da emissora, que lançava um jingle que marcaria a história do futebol. “Levante a taça, vibra mais, seleção. Jogando com raça, com ginga e amor. Com jeito, com graça, seja como for. Nós vamos juntos sentir essa emoção, e na galera explode o coração”, dizia a música que embalou o tetra no SBT.

A cobertura da Copa de 1994 teve ainda uma temporada especial do talk show Jô Soares Onze e Meia.

Coube a Luiz Alfredo a missão de narrar o fim do jejum e a conquista do primeiro tetracampeonato da história da Copa do Mundo. Se você só tinha visto até hoje com a narração de Galvão Bueno e seu famoso “É TETRA”, veja como foi no SBT.

Um ano depois, veio a maior cartada de gênio de Silvio Santos no mundo do futebol. O empresário comprou para o SBT os direitos exclusivos de transmissão da Copa do Brasil. A competição, que era muito importante desde o início por causa da vaga na Libertadores, não ganhava espaço suficiente na mídia. Com a popularização da competição continental após os dois títulos do São Paulo, em 1992 e 1993, o interesse pelos torneios que levavam times a ela começou a aumentar também.

O SBT praticamente levantou a Copa do Brasil. Deu espaço para a competição em horário nobre e fez a Globo se arrepender de nunca ter investido no torneio. A emissora de Silvio Santos ainda teve muita sorte. O Corinthians, time de maior torcida do país, chegou à grande final, contra o Grêmio.

O Timão venceu o Tricolor gaúcho, foi campeão, e o SBT marcou 52 pontos de audiência no Ibope em São Paulo. Trata-se da maior audiência da história da emissora até então, só superada seis anos mais tarde pela final do reality show Casa dos Artistas. Anos depois, a Globo abraçou a Copa do Brasil e não largou mais.

A Copa do Brasil seguiu por mais três temporadas na emissora, a última delas com a companhia da TV Globo. O sucesso nunca mais foi o mesmo, mas o SBT deixou uma contribuição histórica para o crescimento da competição. Para aproveitar os períodos de pré-temporada no futebol brasileiro, o SBT organizava torneios amistosos, como a Copa dos Campeões Mundiais e o Festival Brasileiro de Futebol. Destaque também para a transmissão da Taça Maria Quitéria, na Bahia.

Nos últimos anos dessa fase, o SBT ganhou a presença de Silvio Luis como narrador, substituindo Luiz Alfredo, contratado pela Record. A emissora apostou, ainda, em Nivaldo Prieto, revelação da ESPN Brasil. Silvio Luis trouxe toda sua experiência e irreverência na narração para a emissora. Ele ainda participava como apresentador eventual do game Gol Show nas folgas de Silvio Santos.

A Copa do Mundo de 1998 foi a última transmitida pelo SBT. A equipe tinha os narradores próprios e ainda teve o reforço de Paulo Soares, o Amigão, que também fazia a competição pela ESPN Brasil na França.

https://www.youtube.com/watch?v=A9rHDdXJxp8

O futebol no fim da década de 1990 estava cada vez mais nas mãos da Globo, detentora exclusiva dos direitos de transmissão da maioria dos campeonatos. O SBT até havia feito uma tentativa, em 1997, de tirar o Brasileirão da emissora carioca. Silvio Santos investiu pesado e uma proposta quase irrecusável, mas a Globo conseguiu levar a briga e ficar com o campeonato.

A situação desagradou muito à direção do SBT. O cenário era de uma impossibilidade de competição com a Globo, pois mesmo com propostas financeiras superiores, os clubes optariam por ficar com a líder de audiência no país. Esse foi o estopim para a retirada de cena da emissora de Silvio Santos.

Como um último suspiro, o SBT transmitiu a Copa Mercosul de 1998. A final teve o Palmeiras campeão contra o Cruzeiro, assim como a última Copa do Brasil exibida pela emissora, no mesmo ano.

https://www.youtube.com/watch?v=C_kL4YwBmrI

Cinco anos depois, Silvio Santos resolveu fazer uma nova investida no mundo do futebol. Com a realização da Liga Rio-São Paulo em 2002, o Paulistão daquele ano acabou esvaziado, tendo apenas os times pequenos e o Ituano campeão. Uma reviravolta no calendário acabou com aquele cenário e o Estadual voltaria a ter força em 2003.

A Federação Paulista de Futebol, então comandada por Eduardo José Farah, tentou negociar um pacote mais caro com a Rede Globo para a exibição do Paulistão 2003. A competição havia sido exibida pela Record em 2002, já que a emissora carioca não se interessou. Essa situação acabou dificultando a renovação do contrato.

Atento aos movimentos de FPF e Globo, o SBT fez uma proposta de R$ 12 milhões por 22 jogos do Paulistão-2003. A emissora carioca havia recusado o pacote oferecido pela federação, pelo mesmo valor, mas com apenas 12 jogos. Ao saber da negociação, a Globo resolveu exercer o direito de preferência na renovação, previsto no contrato anterior. Mandou um fax à FPF no dia 29 de dezembro, 48h antes do limite do prazo para manifestação.

No entanto, a FPF declarou que só recebeu o fax oficialmente no dia 2 de janeiro de 2003, data em que foi protocolada a chegada da mensagem da emissora carioca. Com isso, a entidade tentava fazer valer o acordo com o SBT. A primeira ação judicial da Globo foi registrada logo nos primeiros dias do ano. A emissora alegava oficialmente “ser a única detentora dos direitos de transmissão do Paulistão de 2003”. O SBT anunciou a exibição do campeonato e botou a equipe esportiva para funcionar.

Contratou os narradores Paulo Andrade, então repórter da RedeTV!, jovem revelação da locução esportiva, hoje consagrado na ESPN Brasil, e Dirceu Maravilha, uma das principais vozes do rádio brasileiro. Para apresentar as jornadas de futebol, chegou ao SBT o jornalista Elia Jr, famoso pelo Show do Esporte na Band. Silvia Vinhas, também dos tempos áureos do esporte na Band, fazia parte da reportagem ao lado de Elias Awad. O trabalho começou a ser testado com a compra dos direitos do Sul-Americano Sub-20.

A ideia do SBT era transmitir uma rodada dupla aos sábados, às 16h e às 18h, um jogo no domingo às 11h (para não atrapalhar a audiência do Domingo Legal, com Gugu, principal produto da grade dominical da emissora), e às 21h das quartas-feiras. Esse horário é uma antiga reivindicação dos torcedores, já que a Globo só começa suas partidas às 22h, atrapalhando a volta para casa de muitos que vão aos estádios.

Mas a Globo queria exercer seus direitos. A briga se arrastou com várias liminares até a véspera da abertura do campeonato. A primeira rodada dupla foi programada para o dia 25 de janeiro, um sábado. Santo André e Santos abririam o Paulistão às 16h, enquanto Marília e Corinthians fariam o jogo de fundo.

A Globo conseguiu um liminar e anunciou o repasse dos direitos de transmissão para sua então parceira, a Record. A emissora de Edir Macedo ficaria com os jogos que a Globo não poderia passar em função do horário, como os jogos de sábado às 18h.

Na noite do dia 24, o SBT reverteu de novo a situação e conseguiu uma liminar para exibir o Paulistão com exclusividade. A Globo alegou não ter sido notificada e mandou uma equipe ao Estádio Bruno José Daniel. A FPF tentou impedir a entrada da equipe global, mas duas câmeras foram colocadas.

A emissora transmitiu mesmo com decisão judicial contrária. E só com essas duas câmeras. Houve, ainda, uma tentativa de forçar a saída da Globo do estádio com o atraso de meia hora no intervalo do jogo. Ao ver que não haveria jeito de retirar a emissora carioca sem estragar o jogo, a FPF liberou a continuação da partida. Resultado no Ibope: Globo 16 x 5 SBT.

A Record preferiu não comprar essa briga e não quis exibir o jogo entre Marília e Corinthians. O SBT passou a partida sozinho, mas não conseguiu superar a novela da seis. Globo 23 x 13 SBT x 11 Record. No dia seguinte, foi a vez de Paulista e São Paulo duelarem com exclusividade no SBT. Nova derrota. Globo 12 x 11 SBT.

A semana seguinte teve uma decisão judicial favorável à Globo. O SBT deveria deixar de transmitir a competição. O próximo jogo da TV seria Ponte Preta e Palmeiras, em Campinas, numa quarta-feira, às 21h. A Globo deixou a partida para a Record, para não atrapalhar sua novela.

O jogo acabou sendo adiado, e o SBT botou mais lenha na fogueira. Exibiu sem autorização o jogo entre Corinthians e Portuguesa, no Pacaembu, partida exclusiva do SporTV. Teve a participação do apresentador Ratinho como comentarista. “Eu vim aqui para comentar o jogo do meu Palmeiras, mas vamos comentar o do Corinthians mesmo”, disse em tom de brincadeira no início da transmissão.

Para ganhar tempo, a FPF adiou mais uma vez o jogo entre Ponte e Palmeiras no dia seguinte, à espera de uma decisão favorável ao SBT. Por duas semanas, o Paulistão ficou na Globo e na Record, o que gerou uma situação bizarra. Obrigada a cumprir os horários e jogos reservados ao SBT, a emissora transmitiu Ituano x Guarani e União São João x Portuguesa, dois jogos impensáveis para os padrões globais.

Depois de várias decisões em instâncias diferentes, SBT e Globo acabaram exibindo juntas o Paulistão. Mas tudo nos termos do contrato com o canal de Silvio Santos.

A semifinal entre Palmeiras e Corinthians marcada para as 21h de uma quarta-feira causou tanto medo na emissora carioca de uma reedição da surra tomada para o SBT na Copa do Brasil de 1995, e também para a Band no Mundial de Clubes da Fifa de 2000, quando ambas registraram com exclusividade vitórias corintianas, que a Globo decidiu mexer na grade e exibir futebol no horário da novela.

A final, entre São Paulo e Corinthians, também mexeu com a grade da Globo. Para não atrapalhar Gugu, o SBT preferiu o jogo às 18h de dois sábados. Resultado: a Globo passou futebol para o Brasil inteiro com seus estaduais às 16h, enquanto SP viu o Paulistão no horário escolhido pela emissora de Silvio Santos. Os horários da novela das seis foram invertidos nesses locais.

O último jogo foi no dia seguinte ao último capítulo do folhetim global. Nesse caso, a Globo preferiu não fazer a tradicional reexibição do capítulo no sábado e transmitiu a decisão para todo o Brasil. Para não ficar sem futebol em SP no dia seguinte, quando o Brasil inteiro veria as finais dos outros estaduais, a Globo transmitiu a decisão do Carioca.

O futebol no SBT ainda deu um último suspiro em 2003 com a transmissão da Copa Ouro, também o último trabalho do Amigão Paulo Soares na emissora. E lá se vão 11 anos sem futebol em uma das emissoras mais queridas do Brasil.

Vinheta clássica do futebol no SBT: