Repórter da Band relembra agressão de torcedor: “Foi um policial de folga”

Nivaldo de Cillo, 49 anos, tem experiência de sobra na área comunicacional. Atualmente repórter esportivo da Band, o jornalista nascido em Campinas-SP iniciou a carreira na TV Globo Vale do Paraíba em 1988 como assistente de produção do jornalismo – que também incluía o esporte. Passou também pela TV Pajuçara, afiliada do SBT, em Alagoas.

Rafael Alaby
Rafael Alaby é jornalista diplomado pela FIAM (Faculdades Integradas Alcântara Machado), com passagens pela Chefia de Reportagem de Esportes, da TV Bandeirantes, em São Paulo e site KiGOL. Pós-graduado em Jornalismo Esportivo e Negócios do Esporte (FMU)

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Aos poucos, o profissional formado pela UNITAU migrou totalmente para o ramo esportivo, onde está completando 27 anos. Após se destacar em cobertura pela TV Cultura no Mundial de Futsal do Taiwan em 2004, recebeu convite para integrar a equipe de reportagem de esportes da TV Bandeirantes, em São Paulo. De Cillo continua na emissora dos Saad onde já cobriu megaeventos esportivos como as Copas do Mundo (2006, 2010 e 2014).

Durante bate-papo com o Torcedores.com, o repórter contou o motivo por ter escolhido o jornalismo como profissão, deu algumas recomendações para quem está iniciando a carreira e relembrou o dia em que foi parar na delegacia após ser agredido por um torcedor.

“Ele era um policial em dia de folga, imaginou uma situação e partiu para cima de mim. Ainda bem que não estava armado”, disse.

Confira a entrevista:

Torcedores.com: Por que escolheu fazer jornalismo?

Nivaldo de Cillo: Creio que cada pessoa nasce “encaminhada” para aquilo que pretende fazer. Comigo foi assim. Já com meus 12 e 13 anos, percebia uma tendência ao jornalismo esportivo. Com irmãos mais novos, no futebol, eu era sempre o repórter, comentarista, locutor. Mais falava do que jogada, embora gostasse muito de jogar.

Torcedores.com: Conte um pouco sobre a carreira. Quais as dificuldades encontradas no início de sua trajetória?

Nivaldo de Cillo: Comecei a carreira em TV em 1988 na TV Globo Vale do Paraíba. O início foi como assistente de produção do jornalismo – que também incluía o esporte. Mas aí, com o passar do tempo, fui migrando para o jornalismo esportivo. O começo sempre é difícil e é preciso que alguém acredite no seu potencial. Eu tive a sorte de trabalhar com pessoas que enxergavam o potencial nos mais jovens. E assim fui lançado para a reportagem.

Torcedores.com:  Qual o momento mais marcante vivido como repórter esportivo?

Nivaldo de Cillo: Com tantos anos no jornalismo – 27 primaveras – difícil citar apenas um momento. Minha primeira viagem internacional, em 2004, foi uma delas. Cobri o mundial de futsal em Taiwan, do outro lado do planeta. Sempre gostei de misturar o esporte com o meio em sua volta. E lá, com uma cultura tão diferente, pude fazer isso com desenvoltura. No entanto, existem outros momentos marcantes. O dia em que Ronaldo Fenômeno oficializou o fim da carreira como jogador; os sete a um da Alemanha contra o Brasil na Copa do Mundo de 2014; a morte do companheiro e amigo Luciano do Valle. Enfim, sempre temos momentos marcantes, sejam eles positivos ou negativos.

Torcedores.com: Qual a sua opinião sobre a blindagem da assessoria de imprensa dos clubes em relação aos jogadores de futebol? O atual formato de entrevistas coletivas está esgotado?

Nivaldo de Cillo: Sou do tempo em que se fazia entrevista com os jogadores dentro do vestiário, depois dos jogos. Mas também sou do tempo da máquina de escrever, do rolo de filme para as equipes de TV. Vivemos outros tempos, somos muito mais profissionais de imprensa e veículos de comunicação do que há quase três décadas passadas. Não há como não blindar os atletas com a dimensão que o esporte tomou em volume de negócios. Qualquer exposição negativa pode significar milhões em prejuízos para a agremiação, atleta e patrocinadores. Internet, rádio, TV, mídias sociais. Mesmo blindando, às vezes algumas “bombas explodem”. Tempos modernos …

Torcedores.com: Nós sabemos que o futebol mexe com a emoção do torcedor, que em alguns casos perde a razão e apela para a grosseria. Você já sofreu violência física nos estádios?

Nivaldo de Cillo: Verbal, todo dia de jogo. Física, poucas vezes. Já fui obrigado a ir a uma delegacia por conta da agressão de um torcedor. Ele era um policial em dia de folga, “imaginou” uma situação e partiu para cima de mim. Ainda bem que não estava armado.

Torcedores.com: Quais recomendações você dá aos futuros jornalistas?

Nivaldo de Cillo: Vou usar uma máxima de um antigo diretor, meu chefe. O gaúcho Carlos Karnas que comandou a TV Globo Vale do Paraíba na época em que eu trabalhei por lá, dizia: o repórter tem que ser neutro, não pode aparecer em hipótese alguma. Ele apenas narra o fato, não faz parte dele. Acho que isso resume bem a principal recomendação. Prudência e isenção. Armas que fazem do seu trabalho uma missão reconhecida para o seu telespectador  (ouvinte ou leitor).

Torcedores.com: Conte como foi a sua sensação em cobrir a Copa do Mundo de 2014 em terras brasileiras?

Nivaldo de Cillo: Um sonho realizado, um marco histórico. Talvez eu não viva para acompanhar outro mundial em terras brasileiras. Talvez nem tenhamos outro, quem sabe? Foi bom ver alguns dos principais atletas do mundo tão perto, a nossa frente. Mas tem o lado político que também ficará marcado. Alguns estádios construídos em locais onde o futebol não é preponderante, os milhões que foram gastos. Enfim. Como tudo, existem os dois lados de uma mesma moeda.

Torcedores.com: Como analisa o momento do futebol brasileiro? Espera que os 7 a 1 sofrido pelo Brasil contra a Alemanha tenham despertado mudanças na gestão do esporte?

Nivaldo de Cillo: Acho que não. Enquanto nossas cabeças ainda pensarem que somos os melhores, não teremos humildade para aceitar de que paramos no tempo. Isso ainda vai demorar. Nossa arrogância administrativa, organizacional, não nos permite mudar ainda, uma pena.

Torcedores.com: E para encerrar, quais as suas expectativas para o futebol paulista em 2015? Dos grandes clubes, qual tem as maiores chances de conquistas?

Nivaldo de Cillo: Quando lia essa pergunta, os três grandes de São Paulo partiam para a parte decisiva da Copa São Paulo de Juniores (o Corinthians acabou sendo campeão pela nona vez). Quer melhor paralelo do futuro do que esse? Tomara que nossos grandes tenham entendido que a base ainda é a melhor solução para o futebol. Sai mais barato do que contratar medalhões por salários astronômicos. A realidade financeira e a lei de responsabilidade fiscal podem estar influenciando as decisões dos cartolas. O bolso é a parte mais sensível do ser humano, alguém dúvida disso ?

Os grandes clubes de São Paulo trabalham e oferecem perspectivas otimistas. Tomara que tenham êxito. Mas nunca se esquecem de que os pequenos também se engrandecem apesar de ser muito mais difícil para eles. O Ituano, campeão paulista do ano passado, não nos deixa esquecer.

crédito foto: Reprodução/Facebook