Copa de 1999 mostrou ao mundo a força e a mídia do futebol feminino

A Copa do Mundo Feminina da Fifa chegava em 1999 a sua terceira edição. Depois de passar pela China e pela Suécia, a competição desembarcava em um dos países onde o futebol feminino era mais difundido, os Estados Unidos. O time da casa tinha força, chance de título, já era campeão uma vez do torneio, e tinha na figura da jogadora Mia Hamm uma estrela.

Allan Simon
Jornalista formado pela Universidade Metodista de São Paulo. Trabalha com esportes desde 2011 e já passou por veículos como R7 (Rede Record), Abril.com, UOL Esporte e Torcedores nas funções de redator, repórter, editor e apresentador de vídeos. Experiências de coberturas em duas Copas, duas Olimpíadas, dois Pans. Atualmente, produz o Blog do Allan Simon, é colunista de Mídia Esportiva do Torcedores e colaborador do UOL.

Crédito: 4 Jul 1999: Cindy Parlow #12 of Team USA heads the ball during the Womens World Cup game against Team Brazil at the Stanford Stadium in Palo Alto, California. Team USA defeated Team Brazil 2-0. Mandatory Credit: Jed Jacobsohn /Allsport

Hamm era a melhor jogadora dos EUA, já havia contracenado em comerciais com ninguém menos do que Michael Jordan, o astro maior do basquete americano e mundial. Sua popularidade ficou tão grande que a Mattel lançou uma boneca Barbie jogadora inspirada nela.

Mas o Mundial Feminino tinha muita história para escrever. O casamento perfeito entre competição e sede fez com que a torcida norte-americana comparecesse em peso aos jogos. A seleção local fez o jogo de abertura contra a Dinamarca, no dia 19 de junho de 1999, em Nova Jersey, no Giants Stadium.

O estádio é um dos mais tradicionais dos Estados Unidos. No mundo do futebol, marcou época ao receber sete jogos da Copa do Mundo masculina, apenas cinco anos antes. Três foram da Itália, que viria a ser vice-campeã ao perder para o Brasil na decisão que rendeu o tetra ao futebol brasileiro comandado por Parreira.

Logo de cara, os EUA colocaram quase 79 mil pessoas para assistir ao duelo de estreia. Nenhum jogo da Copa de 1994 teve um público igual ou maior do esse no Giants Stadium.

Em campo, as meninas responderam ao apoio da torcida. Venceram as dinamarquesas por 3 a 0, com Hamm fazendo o primeiro gol do campeonato. Naquele mesmo dia, a seleção brasileira estreava contra o México, no mesmo estádio. A Fifa fez um sistema de rodadas duplas, onde a torcida via os dois jogos em sequência. 7 a 1 para o Brasil, que era de outra chave.

No dia 24 de junho, 65 mil compareceram ao Soldier Field, em Chicago, para ver a segunda rodada. Os EUA venceram a Nigéria por 7 a 1. Na sequência, as brasileiras passaram pela Itália por 2 a 0. Na rodada final, nova vitória americana, agora sobre a Coreia do Norte, por 3 a 0. O Brasil empatou em 3 a 3 com a Alemanha e também garantiu o primeiro lugar de sua chave.

As duas chaves se cruzaram nas quartas de final. Os Estados Unidos venceram a Alemanha em uma partida emocionante, por 3 a 2. Na sequência, no mesmo estádio, em Maryland, o Brasil empatou com a Nigéria em 3 a 3 no tempo normal. Sissi marcou o gol de ouro na prorrogação e classificou a seleção brasileira.

O duelo esperado entre brasileiras e norte-americanas aconteceu no dia 4 de julho de 1999, no Standford Stadium, em Palo Alto, no estado da Califórnia. Logo aos cinco minutos, os EUA abriram o placar da semifinal com um gol de Parlow. O Brasil tentou, mas não conseguiu empatar. O golpe de misericórdia veio aos 35 minutos do segundo tempo, com um pênalti cobrado por Akers.

Festa dos EUA em pleno feriado nacional do Independence Day. Na sequência, a China goleou a Noruega por 5 a 0 e ficou com a outra vaga. A decisão estava marcada para um sábado, 10 de julho, no Rose Bowl, o mesmo palco da final da Copa de 1994.

O público presente naquela tarde foi de 90.185 pessoas. Apenas quatro mil a menos do que o Brasil x Itália de cinco anos antes. Era o maior público da história de qualquer evento feminino em esportes. Um marco para o futebol mundial.

Mas uma coincidência criou uma espécie de “fantasma”. A final entre EUA e China terminou 0 a 0 no tempo e na prorrogação, assim como a decisão masculina de 1994. Para piorar o cenário, a disputa de terceiro lugar entre Brasil e Noruega havia sido a preliminar, horas antes. Acabou 0 a 0 no tempo normal também, com vitória brasileira nos pênaltis por 5 a 4.

Os mais de 90 mil presentes passaram 210 minutos sem ver um golzinho sequer. As finais de Copa do Mundo da Fifa disputadas ali somaram 240 minutos de seca. Ao todo, 330 minutos sem que ninguém balançasse as redes. A decisão ia para os pênaltis de novo. As norte-americanas fizeram a festa ao bater as chinesas por 5 a 4 nas cobranças. EUA bicampeão mundial.

Foto: Getty Images