Campeã do taekwondo universitário treina com olímpicos de olho em 2020

foto: Edilene Mendonça

Entre as inúmeras histórias de sonho e superação que costumam nortear a vida dos atletas brasileiros, Raíssa Valentin, 20, lutadora de taekwondo, categoria 67 kg, tem o seu dia a dia dividido entre treino e estudo. Ouro no Campeonato Brasileiro Universitário, após se recuperar de uma cirurgia, a atleta se prepara para a conquista de uma vaga em Tóquio 2020 (próxima sede dos Jogos Olímpicos), e por uma cadeira de delegada de polícia. Indecisão em que carreira seguir? Bem longe disso. Determinada, focada, responsável, a estudante de Direito da Universidade São Judas Tadeu (USJT – SP) sabe muito bem aonde quer chegar.

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“Já parei em frente ao espelho pensando nas respostas, no hino, se eu vou cantar junto. É um dos meus maiores sonhos”, releva Raíssa se referindo ao seu investimento para entrar no Time Brasil (marca da delegação brasileira para competições internacionais), criando assim, condições para convocação nos Jogos Olímpicos Tóquio 2020. Devido a uma lesão no joelho esquerdo, problema de nascença, a atleta passou por um procedimento cirúrgico em 2014, o que a deixou fora dos campeonatos classificatórios para o megaevento Rio 2016. “Precisei operar porque não aguentava mais de dor”, diz.

Passados 11 meses em recuperação, a pentacampeã paulista, 1ª e 2ª etapas em 2011, 2ª, 3ª e 5ª etapas em 2012, campeã 3º Brasileiro Interclubes 2012, voltou com tudo e acaba de conquistar o ouro no Brasileiro Universitário. “Eu vinha bem, até que o joelho começou a atrapalhar”. Além de sua parada em 2014 ter comprometido uma provável participação em 2016, também poderá atrapalhar sua convocação oficial para a Universíade 2015, a ser realizada em Gwangju/ Coréia do Sul.

A oportunidade surgiu após sua atual conquista no evento organizado pela Confederação Brasileira de Desporto Universitário (CBDU), ocorrido no Centro de Práticas Esportivas da Universidade de SP (CEPEUSP), dia 17 de maio passado. “Estou pré-convocada, a expectativa é muito grande, mas a classificação final depende de uma boa posição no ranking nacional. Como no ano passado eu operei o joelho, não obtive a pontuação, porque não pude participar de competições. Então eles ainda estão decidindo”, esclarece.

Segundo a CBDU o resultado dos classificados para a Universíade será divulgado apenas depois de análise do perfil de cada atleta campeão. E deve estar de acordo com os critérios definidos pela Federação Internacional de Esporte Universitário (FISU) e a própria CBDU. “Os vices- campeões da Liga de Desportos Universitários (LDU) também estão na reserva caso os primeiros colocados não cumpram com as exigências para confirmar a convocação”, ressalta a CBDU.

Sem patrocínio, atleta sobrevive de “paitrocínio”
Em virtude do recente retorno aos treinos e competições, Raíssa deixou de receber o Bolsa Atleta, programa do governo brasileiro que investe nos atletas de alto rendimento que obtêm resultados em competições nacionais e internacionais. Sendo assim, a lutadora começa tudo de novo. Já que precisa de bons resultados, em resumo, de medalhas, para voltar a receber o incentivo do governo. Até lá, conta com o “paitrocínio”, seu maior incentivador, em ação Romi Valentin da Silva e Regina Valkovics Valentim.

Treinada por Carlos Negrão, profissional com 22 anos de atuação no esporte, à frente da Seleção Brasileira durante doze anos (dois Jogos Olímpicos) entre outros, ao lado de Diogo Silva e outras grandes feras e promessas do taekwondo, Raíssa compactua da opinião de Diego Hypolito. Em entrevista recente à TV Folha, o ginasta disse que “no Brasil só se incentiva o atleta que ganha”, conforme destacado aqui no Torcedores.com na última quinta-feira (28).

“Nos Estados Unidos, eles pagam tudo pra você ser atleta de ponta, depois que você conquista uma medalha, segue sozinho. Aqui no Brasil é ao contrário, você precisa fazer de tudo, virar de ponta cabeça pra conseguir uma medalha para depois eles começarem a reconhecer o seu trabalho”, desabafa a atleta.

Moradora no bairro da Mooca, em São Paulo, Raíssa utiliza de transporte público (ônibus, metrô e trem) para se deslocar até o Núcleo de Alto Rendimento Esportivo de São Paulo (NAR), localizado no bairro de Santo Amaro. O espaço, inaugurado em janeiro, é resultado de uma parceria entre o Instituto Península (braço de investimento social da família Abílio Diniz) e a Secretaria de Esportes de São Paulo. Após o treino, Raissa volta pra casa, troca o uniforme de atleta pelo de estudante e segue para a São Judas.

Lutadora desde os 12 anos, Raíssa entrou para o esporte por questões de saúde, era gordinha e precisava perder peso, e para o taekwondo meio que por acaso. “Pensei no vôlei, mas achei que ia ficar muito alta; no judô, mas o professor era maior que eu, então meu pai me levou pra ver o taekwondo. Assim que cheguei à academia vi duas moças lutando, achei lindo, maravilhoso, e decidi. É isso que eu quero”, lembra.

Desde então, o que começou como um hobby foi se transformando em carreira, com a presença da atleta nos principais campeonatos do Brasil. “Foi dando certo. Talvez se eu não tivesse visto aquelas duas moças lutando eu não estaria no taekwondo”, ressalta. Os nomes das atletas inspiradoras? “Bruna e Kátia, se não me engano, da academia Mestre Kiyoshi, na Vila Ema”, recorda.

Tendo como ídolo o saudoso Ayrton Senna, Raíssa explica o motivo de sua escolha. “O Ayrton acreditava. Quando todo mundo parava de treinar ele continuava. Sabia que lá na frente conseguiria resultado pelo seu esforço. E assim precisa ser a vida. É preciso acreditar. Eu acredito”, ressalta emocionada. “Acredito também que a principal coisa é nunca deixar de sonhar. Porque a partir do momento que você deixa de sonhar, nada acontece. Você sonhando, ultrapassa o seu limite e algum dia ele se torna realidade. Tem que acreditar, e quando a gente tem Deus no coração, então, aí pode tudo”, completa.

Diogo Silva, campeão na Universíade 2009 e treinador por um dia
Devido ausência do treinador Carlos Negrão, acompanhando a mãe em uma cirurgia, o treino da última manhã de quinta-feira (28) no NAR foi comandado pelo campeão Diogo Silva, simpatia de pessoa. “É um hábito nosso, sempre que o treinador não pode vir, o atleta mais velho assume”, revela

Para Diogo, se Raíssa for confirmada para a Universíade terá um grande ganho em sua carreira. “É uma competição extremamente difícil, jovens talentos sempre passam por essa competição, exemplos de Michel Phelps (nadador), Usain Bolt (velocista), Michael Jordan (jogador de basquete)”, destaca.

Presente em duas edições da Universíade, Turquia (2005) e Sérvia (2009 – ano que conquistou o ouro na modalidade, 67kg ) Diogo recorda que o evento é o mais próximo de uma competição olímpica. “É uma cópia dos Jogos Olímpicos porque você dorme em vila, igual à vila olímpica, treina em centros, compete no mesmo formato dos jogos olímpicos, tem as cerimônias, entradas dos atletas, todos os países. É uma experiência incrível e o atleta que consegue uma medalha na Universíade é muito valorizado fora do Brasil”.

Para Raíssa, Diogo é uma referência para todos que treinam taekwondo, assim como para o Brasil. “A experiência do Diogo, em técnica, e vida no taekwondo, que ele traz pra gente aqui nos treinos é o máximo”, conclui.



Edilene Mendonça é jornalista diplomada pela UNISA (Universidade de Santo Amaro). Sua trajetória profissional inclui atuações em produtora de vídeo, tevê, campanha política, assessoria de imprensa, site infantil e esporte. Pós-graduada em Jornalismo Esportivo e Negócios do Esporte (FMU).