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Fernando Diniz conta ‘segredo’ de seus times em curso de tática

Para Fernando Diniz, atual treinador do Paraná Clube, a tática é muito discutida nos dias de hoje, mas lidar com pessoas é o mais importante, aspecto que praticamente não é trabalhado no Brasil. “O jogador precisa se sentir amado”.

Rogério Lagos
Colaborador do Torcedores.com e palmeirense.

Crédito: Rogério Lagos / Torcedores.com

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Posse de bola, triangulação perfeita, transição muito bem executada e passes mais curtos, objetivos e certeiros. Essa poderia ser a “fórmula mágica” do esquema de jogo de Fernando Diniz, ex-jogador de clubes como Palmeiras, Corinthians, Cruzeiro, Flamengo, Fluminense e Santos. Mas não. O “segredo” do treinador está na formação de seus atletas.

“Procuro ter esse lado humano e promover um ambiente favorável como a base do meu trabalho. Não tenho modelo prático de jogo, todos tem que jogar, participar. Meu foco é tirar o melhor do cara. Me dá prazer e satisfação tirar o melhor do cara. Meu foco é no jogador”, revelou Diniz, em entrevista exclusiva ao Torcedores.com.

Professor convidado do curso “Tática Total”, promovido pela THE 360, em São Paulo, o atual treinador do Paraná Clube, que também é formado em Psicologia, deixou claro que toda tática é boa desde que o treinador possua bons atores para executá-la. “A dimensão humana tem primazia sobre a parte tática. Não que ela [tática] não seja importante – ela vem logo em seguida -, mas precisa ser desenvolvida para contemplar os humanos, para que eles consigam se sentir bem com aquilo e com prazer de jogar futebol”, explicou.

O desenvolvimento humano do jogador de futebol é tão importante na visão de Fernando Diniz que pode até mesmo prevenir lesões em campo. “Jogador bem da cabeça não se machuca à toa. Esse jogador sabe o que quer, tem prazer no que faz, além de crescer muito como pessoa”, disse Diniz. “Se um exame é realizado em jogadores que estão bem emocionalmente é possível notar significativas melhoras biológicas no atleta”, destacou o treinador. “A tática é muito discutida nos dias de hoje, mas lidar com gente é mais importante e não é trabalhado no Brasil”, completou.

Dentro de campo, o “tiki-taka” de Fernando Diniz nada mais é do que uma alternativa aplicada pelo treinador no futebol atual. “Com o desenvolvimento físico e tático do futebol moderno, os espaços ficaram muito encurtados. Faz-se necessário alternativas para que o jogo aconteça e o talento possa aparecer”, explicou Diniz, antes de rechaçar a ideia de que um time treinado por ele não pode dar chutão. “Nosso jogo prevê bastante superioridade numérica onde está a bola para que o adversário não jogue, mas se for necessário o chutão, os atletas podem e devem usar este recurso”, cravou o treinador.

Para Diniz, o jogador de futebol não precisa ser muito bom para jogar no esquema de jogo proposto por ele, basta ser inteligente e ter personalidade. “O trabalho coletivo favorece o talento individual e vice-versa. Não são características dissociadas. Uma alimenta a outra o tempo todo”.

Durante a palestra, Fernando Diniz brincou dizendo que seus jogadores podem treinar até 1000 vezes por dia uma determinada ação tática para que seja aperfeiçoada. Questionado se tais treinamentos são bem aceitos pelos atletas, mais uma vez o treinador recorreu ao lado humano para responder:

“Se o treinador não tiver uma boa relação com os jogadores e eles não compartilharem a ideia proposta, o treino pode se tornar enfadonho, mas a gente não deixa que isso aconteça. Os resultados positivos dos jogos acabam alimentando os treinos que, por sua vez, alimentam os jogos. O jogador passa a jogar bem e entende que aquilo não acontece de uma hora pra outra no jogo, pois sabe que existe um trabalho forte de treino que antecede as partidas. Com isso as coisas vão acontecendo: treino intenso, os resultados aparecem nos jogos e tudo vai melhorando. O treino tático precisa acontecer sistematicamente”, explicou Diniz.

O treinador mistura o passado e o presente como inspiração no dia a dia. Para Fernando Diniz, os grandes jogadores que ele viu jogar, somado à exploração de talentos atuais é o que o motiva diariamente no exercício da profissão.

“A minha maior inspiração são os grandes jogadores que vi jogar no passado. O que eu tento fazer, embora eu pregue muito o jogo coletivo, é fazer com que os jogadores consigam reproduzir de alguma forma aquele sentimento que eles tiveram quando sonharam em se tornar jogador de futebol. Isso é o que me inspira: fazer com que cada um consiga ser o Pelé, o Maradona que pode ser dentro dele – cada um com a sua limitação, claro -, mas que a gente consiga explorar o máximo do talento de cada um. Os próprios jogadores me inspiram em fazer melhorá-los a cada dia”, finalizou o treinador.

Foto: Rogério Lagos / Torcedores.com