Entrevista com Rafael Lopes, produtor de Automobilismo da Rede Globo

Tentei conseguir um tempinho na agenda apertada do Rafael Lopes, produtor de automobilismo da Rede Globo. Ele, gentilmente, me atendeu em um momento de descanso, e passamos 40 minutos em uma entrevista telefônica sobre sua trajetória, seus atuais projetos e suas expectativas relacionadas à Fórmula 1.
Agradeço muito ao Rafael pela disponibilidade e pela gentileza. Aproveitem a entrevista!

 

Como você começou a se interessar por automobilismo?
Rafael – Começou quando eu era criança, quando minha mãe, que era fã do Senna, me colocava pra assistir as corridas de manhã. Eu assistia do lado dela e comecei a pegar gosto por isso. E quando a gente anda pela primeira vez de kart, aí o bichinho pica de uma vez mesmo e a gente não consegue se livrar mais disso (risos). Eu era muito pequeno, foi meu primeiro esporte, antes mesmo de assistir futebol, já que o mais natural pra criança aqui no Brasil é ver futebol na televisão e ir ao estádio. Com 5 anos de idade, eu fui ao GP Brasil aqui no último do Rio [de Janeiro] e aí também terminou de apaixonar. Depois foi evoluindo, né? Queria ser piloto, não deu certo porque não tinha dinheiro. Eu escrevia bem, então fui fazer jornalismo.

Você tem o blog “Voando Baixo” já há alguns anos e é um blog bastante conhecido, que acaba sendo referência para muitos fãs de automobilismo. Pode nos falar um pouco sobre ele e como surgiu?
R –
Comecei a trabalhar no globoesporte.com em 2006. Criei um blog normal – daqueles blogs de esporte da vida – e quando meu chefe viu ele falou “Pô, você escreve direito, por que você não faz aqui pro site pra dar audiência e ter mais visibilidade?” Criei o “Voando Baixo” lá, foi um parto pra criar. O nome do blog que eu tinha era em inglês “Flying Lap”, demorou uns dois dias pra achar um nome. O “Voando Baixo” foi o que mais agradou. Graças a Deus tem tido uma boa aceitação do público, então fico feliz de ter gente que acha que o blog é referência.

Além do blog, você tem também o programa “Voando Baixo”, que começou em março deste ano e possui o diferencial de ser transmitido pela internet, tem também convidados do meio do automobilismo e participação do público. Como é participar de um projeto inovador como esse?
R –
A gente fez um embrião disso em 2014, quando fizemos 3 transmissões de lançamento de carros da Fórmula 1. A gente conseguiu o sinal pela internet dos lançamentos e fez [a transmissão] ao vivo da Ferrari e McLaren e ainda um terceiro programa com um apanhado de todos os lançamentos, com transmissão ao vivo na internet, interação do público, perguntas. Aí ficou essa ideia. Conversando com o pessoal do site, pintou a ideia de fazer um programa sempre antes das corridas pra esquentar a cobertura e trazer o público pra participar e, como a televisão brasileira, se não me engano, hoje só tem um programa especializado no assunto desde o fim do “Linha de Chegada” do SporTV e dos programas em outros canais, então surgiu de fazer um pra internet. Não um programa de tv para a internet, mas um programa de internet mesmo, com interação do público, com convidados. A parte legal do programa é que a gente não tem tempo pra fazer, não tem aquela grade apertada que você não pode passar de 50 minutos. Se o programa render, você pode ficar 1h30 no ar, sem problema, não tem intervalo e tem feito bastante sucesso, o pessoal tem gostado. Participar desse projeto é bem legal.

Atualmente você é produtor de automobilismo da Globo, mas como você começou sua carreira no automobilismo?
R –
Eu sempre curti automobilismo e no meu penúltimo período da faculdade arrumei estágio no Lance!, em 2005, pra trabalhar na revista. A gente resolveu entrevistar o Bruno Senna, que tava começando na época. Fiz a entrevista e apresentei pro meu editor na época, que era o Ferdinando Casagrande, e ele falou “Pô, essa entrevista é legal pra caramba, vamos transformar numa matéria”. Comecei a correr atrás de outros personagens, consegui falar com o Gerhard Berger, com a mãe do Bruno que é a Viviane. A matéria teve 6 páginas. Essa matéria meio que chamou a atenção do pessoal do globoesporte.com e me convidaram pra ser setorista de automobilismo lá. Fui pra lá, fiquei 6 anos no site, fiz algumas coberturas legais de GPs do Brasil, principalmente. Mas a mais legal foi em 2010, a decisão do título em Abu Dhabi em que o Vettel foi campeão pela primeira vez. Foi a primeira corrida de F1 que eu cobri fora. Depois, com o trabalho do site, o pessoal da tv me chamou para ser produtor do núcleo motor em 2012 e eu fui. Fora as matérias especiais que eu já fiz. Até mesmo produzindo o Reginaldo Leme… A gente foi a Indianápolis fazer entrevista com o Nelson Piquet, ele tava acompanhando o Nelsinho e eu pensei: “to produzindo uma matéria com o Reginaldo Leme, meu ídolo!” (risos). Ano passado a gente fez [a matéria] dos 40 anos do bi do Emerson [Fittipaldi]; esse ano a gente tá produzindo uma matéria especial sobre o GP do Brasil, vai ser bem legal: “Os 40 anos da Copersucar”, que vai ao ar no dia do GP Brasil, na pré-hora. O automobilismo não surgiu por acaso, foi uma escolha de carreira mesmo.

Muitos fãs têm essa curiosidade: Como é viajar acompanhando as corridas?
R –
Trabalhar com corrida in loco é muito legal. Você tem contato com os pilotos não só na pista, mas contato fora também, encontra os pilotos no hotel às vezes. O fã olhando assim de fora, é bem legal, o cara faz o que a gente queria fazer que é acompanhar todas as corridas. É muito cansativo, mas também muito prazeroso. Todo mês você tá fazendo uma coisa diferente, em um lugar diferente, lidando com pessoas diferentes e tendo que fazer coisas diferentes também. Quando você faz internet é muito mais tranquilo, porque é um trabalho basicamente individual; no caso da televisão, é muito mais trabalho em equipe e você viaja com uma equipe maior. A função de produtor também é gerenciar essa equipe. Tem deadlines muito mais rígidos e você tem que produzir a matéria, passar o texto com o repórter, ver as imagens do cinegrafista, falar com o editor de imagens pra “empacotar” isso tudo e transformar numa matéria de televisão, tudo dentro de um cronograma apertado. É cansativo mas é muito gratificante você ver um material que você produziu no dia anterior no ar, na televisão. É legal pra caramba.

Nesse trajeto você acompanhou o desenvolvimento de alguns pilotos, como por exemplo, a Bia Figueiredo, que estava na Fórmula Renault na época em que você estava começando a cobrir a categoria. Qual a sensação de ver algumas dessas apostas dando certo? Quais mais te chamaram a atenção?
R –
Agora eu acho que o Pedro Piquet. As vezes que eu vi o Pedrinho correndo ele teve desempenhos absurdamente sensacionais. É legal acompanhar a carreira de alguém desde o início. A Bia tava na minha primeira cobertura em Jacarepaguá, legal ter visto ela indo pra Indy e depois voltar. Agora tá na Stock Car tentando o espaço dela. Mas o piloto que eu vi no início e que hoje tá bem, tá na F1, é o Felipe Nasr. Em 2008, o Reginaldo me convidou pra fazer um “Linha de Chegada” e em um dos programas que eu fiz, o convidado era o Felipe Nasr, ele era novinho. A entrevista dele foi um negócio de louco, parecia um piloto veterano de tão bem que falava. Aí comecei a acompanhar mais de perto a carreira dele. A gente, no ano passado, deu a notícia exclusiva de ele indo pra Fórmula 1, fechando com a Sauber. É legal ver um cara que começou praticamente junto com você, vencendo e tendo sucesso, dá uma sensação legal.

Por outro lado, houve pilotos nos quais você apostava pelo talento que demonstravam e ficaram pelo caminho por falta de patrocínio?
R –
Vários. Aliás, essa é a realidade do automobilismo. O cara tem muito talento, mas não tem o apoio certo ou a quantidade de dinheiro necessária e aí acaba não vingando por causa disso. No Brasil tem vários casos: tem o Felipe Guimarães, teve o Luiz Razia que chegou até a assinar com a Marussia (na época) e por causa de dinheiro não conseguiu seguir a carreira. Vários casos de pilotos de GP2 que poderiam ter ido bem mais a frente e não conseguiram. Um caso emblemático que chegou à F1, mas só durou uma temporada, foi o Lucas di Grassi, que tinha apoio, mas não tinha o nível de apoio necessário pra se manter lá. Em um esporte de alto nível você depende muito também da sorte e, às vezes, você tá no lugar errado na hora errada e um piloto que não tem tanto talento quanto você, mas tá no lugar certo e na hora certa, consegue chegar e se manter por anos na F1. Um caso especial que eu não acompanhei trabalhando, mas que eu lembro, é o Max Wilson – que poderia ter chegado à Fórmula 1. Chegou a ser piloto de testes da Williams mas não conseguiu uma vaga de titular. Outro que foi vencer nos EUA foi o Gil de Ferran que teve o azar de, no dia que ele foi fazer um teste na F1, bater a cabeça no caminhão da equipe e não conseguir fazer o teste. Então, infelizmente, isso é uma coisa natural no automobilismo. F1 ainda é o topo. Ano que vem serão 22 vagas, então é muito seletivo, sendo que tem muita gente que faz carreira lá. Você vê o caso do Button, que tem mais de 10 anos de F1, o próprio Alonso. O Rubens Barrichello, que foi o piloto que mais correu na F1, nunca venceu um campeonato. Então, não necessariamente não ser campeão da Fórmula 1 é um fracasso. Chegar na Fórmula 1 já é uma vitória. E se conseguir se manter, aí você realmente comprova que tem um nível legal de talento e conseguiu o apoio certo nos momentos corretos. É muito mais do que uma questão de talento.

Qual piloto você considera o melhor de todos os tempos na Fórmula 1?
R –
Ayrton Senna, com certeza.

E da atualidade?
R –
Da atualidade, o mais completo é o Fernando Alonso, o mais rápido é o Lewis Hamilton, e o que alia essas duas coisas, tanto talento quanto inteligência, é o Sebastian Vettel. Então acho que hoje na F1 não dá pra “bancar” o melhor piloto, acho que tem qualidades diferentes em cada um. O Vettel já fez história, o Hamilton e o Fernando Alonso também já. O Alonso deu o azar de ter uma personalidade complicada e não ter ganhado mais títulos. Mas se eu tiver que escolher um, é o Alonso, apesar de que ele já esteve mais alto nesse patamar. Essa história do relacionamento dele com as equipes, de ser um cara complicado, de ter brigado com quase todo mundo com quem correu… Ele perde alguns pontos nessa lista. Ainda assim tá na frente, mas agora, eu diria, a diferença está “por um pescoço”. O Hamilton e o Vettel chegaram muito perto dele.

Qual a sua expectativa para a temporada 2016 da Fórmula 1?
R –
A gente tá nesse impasse na Red Bull e Toro Rosso. Acho, pessoalmente, que as duas vão ficar. Tudo na F1 termina em acordo. Bernie Ecclestone é mestre nessa construção de relações políticas. Até lá [a resolução], tanto o Toto Wolff quanto o Arrivabene vão tentar tirar o máximo de dinheiro do Bernie pra fornecer os motores pra essas equipes.
Acho que a temporada de 2016 tende a ser melhor que a desse ano e que a de 2014, porque eu acho que a Ferrari vai crescer e ser uma adversária real pra Mercedes. O que é uma coisa natural, quando você muda o regulamento muito radicalmente, que uma equipe e uma fabricante de motor acertem a mão. E quando a fabricante e a equipe são a mesma coisa, facilita a vida. Por ser um regulamento complicado de evoluir o carro durante o ano ou evoluir esse motor híbrido, que é uma tecnologia nova, leva tempo mesmo pra chegar no nível top. Ao mesmo tempo, a Mercedes tem menos janela pra crescer, porque já está no topo. Se ela crescer, será menos do que a Ferrari cresceu esse ano, porque ano passado era um motor péssimo, um chassi péssimo e esse ano contratou as pessoas certas e fez um chassi e um motor muito melhores do que no ano passado. E a tendência é que continue a evoluir pro ano que vem. Acho que a gente vai ter uma briga muito maior entre Mercedes e Ferrari.
A Williams precisa, urgentemente, ajustar a equipe técnica dela, principalmente a parte de estratégia e pit stop e ter uma preocupação um pouco maior com a aerodinâmica do carro. Mas acho que continua como a terceira força do campeonato. A Sauber depende muito da grana, a Red Bull e a Toro Rosso já estão com o desenvolvimento do carro pro ano que vem atrasado por causa desse problema de motor, então vai depender muito do que eles conseguirem fazer no inverno europeu. Neste ano o campeonato já foi melhor que no ano passado, a gente teve mais variação, a Ferrari ganhando corridas, a Williams chegando perto em algumas provas, a Mercedes tendo problemas mecânicos, principalmente nessa segunda metade do ano. O Vettel esse ano, com um carro inferior ao da Mercedes, já ganhou 3 provas e tem mostrado que ele realmente faz a diferença. Então a gente não vai ficar dependendo de o Rosberg acertar a mão, acho que a gente vai ver Vettel e Hamilton brigando em alto nível e vai ser muito legal pra quem gosta do esporte. O nível dos estreantes desse ano foi melhor que em outros anos também. A Haas tem todo o potencial de ser uma equipe média já a curto prazo. Vale lembrar que ela tem apoio financeiro e tecnológico da Ferrari. O Gene Haas tem uma equipe grande na Nascar, montou uma base na Europa, o que é importante, e contratou pessoas que já tinham experiência com a F1. Acertando a mão no carro, já que chassi é a principal coisa que eles vão construir… Motor, câmbio, sistema de recuperação de energia vão ser Ferrari, acho que eles vão incomodar a Toro Rosso, a Sauber, e a McLaren, dependendo do quanto o motor Honda vai evoluir pro ano que vem.

Imagem: Reprodução/Facebook oficial Rafael Lopes



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