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Conheça histórias do zagueiro Pepe, contadas por seu pai

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Jornalista, com passagens por Globoesporte.com, Lance! (Craque do Futuro) e Jornal Gazeta de Alagoas. Apaixonado por futebol e boas histórias.

Foto: O zagueiro Pepe hoje defende a seleção de Portugal, mas é brasileiro e foi jogar em Portugal bastante jovem - o suficiente para virar ídolo e se naturalizar

Crédito: Getty Images

Hoje em dia, jogar na Europa é o sonho de grande parte dos jogadores do futebol brasileiro, e para os alagoanos não é diferente. Alguns, como o zagueiro do Real Madrid Pepe, que deixou Alagoas com 17 anos, saem anônimos e cedo do Brasil para buscar o sucesso e estabilidade no continente. O Alagoano, que agora tem 32 anos e também defende a seleção portuguesa, é considerado uns dos principais zagueiros do mundo. Nascido em Maceió e revelado pelas categorias de base de Corinthians-AL e do CRB, Pepe deixou Alagoas desconhecido, para conquistar seu espaço no futebol mundial, tendo início em Portugal. Mas, para isso acontecer, enfrentou muitas dificuldades e contou com o apoio da família, que dividiu o sonho com ele, principalmente o seu pai, Anael Ferreira.

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Seu nome de registro é Képler Laveran Lima Ferreira, não tão comum no Brasil, mas criação do pai. Anael Ferreira contou que desde criança era incentivado pela mãe a ler muito, e uma enciclopédia falava sobre dois cientistas chamados Képler e Laveran. “Eu achei muito bonito, o nome Képler, e sempre quis colocar o nome no primeiro filho que tivesse. E pensava: ‘Meu filho vai ser um cientista. Com esse nome, vai ser’. Eu gostava muito de astronomia na época”, contou Anael.

Já o apelido de Pepe também foi dado por Anael, que era fã incondicional do ponta esquerda do Santos e da Seleção Brasileira entre 1957 e 1965, Pepe. “Esse cara tinha um chute tão forte, que muitos goleiros tinham medo. Era um craque, fez muitos gols. Eu queria que meu filho chutasse como ele, mas na época era fraco, mas fui insistindo”, disse o pai.

“Queria que ele fosse atacante ou meia, fazedor de gols, mas com o tempo percebi que ele era melhor lá atrás, e coloquei ele como lateral direito. Mas depois, já na escolinha do Napoli, lá no bairro do Benedito Bentes, percebemos que ele era melhor como zagueiro”, recorda.

Sair do Napoli foi uma decisão complicada para a família, pois teve que escolher entre os rivais CRB e CSA. O bom momento vivido pelo Galo na época e o fanatismo da mãe, Rosilene, fizeram com que o CRB fosse o escolhido.

“Na época, o Corinthians-AL não tinha estrutura e nem time, eles financiavam as divisões de base do CRB, e, quando a parceria fosse desfeita, o time teria direito a escolher cinco jogadores do Galo, e o Pepe foi um deles”, contou o pai do zagueiro.

Na base, Pepe disputou duas Copas São Paulo de Futebol Júnior, uma pelo CRB e outra pelo Corinthians-AL, e a Copa Carnevalle, disputada na cidade italiana de Viareggio, pelo tricolor. Em seguida, iniciou sua rápida passagem no time profissional.

“O Pepe era o mais jovem jogador do time e era titular absoluto já no primeiro Campeonato Alagoano disputado. O presidente do Marítimo da Ilha da Madeira e o técnico Nelo Vingada vieram para o Brasil observar outros jogadores do João Feijó (presidente do clube alagoano). A princípio, iriam assistir apenas a um jogo do Corinthians-AL, mas adiaram a volta à Europa para assistir a mais duas partidas, pois gostaram do Pepe. Assinamos um pré-contrato para que, quando acabasse o Estadual, ele fosse para Portugal”, contou o pai, orgulhoso.

Com tudo acertado e data marcada para se apresentar em Portugal, Pepe levou uma pancada e quebrou o tornozelo no último jogo do Estadual e por pouco perdeu a oportunidade de realizar o sonho de chegar à Europa.

“Faltando menos de cinco minutos para acabar o jogo, aconteceu esse acidente, era um jogador experiente, que prefiro não falar o nome, mas a maldade dele foi muito grande. Tenho muito a agradecer ao doutor Adalberon (já falecido), médico do time na época, que deu todo apoio e cuidado a meu filho. No dia da viagem para Portugal, o Corinthians-AL não queria que ele fosse, mas contaram a situação ao presidente do Marítimo, que bancou a ida dele para fazer a recuperação lá”, relatou.

Com a lesão do filho, ‘seu’ Anael revelou que tiveram que convencer à mãe do zagueiro para liberar a viagem. “Ele queria ir de qualquer jeito, dizendo que iria vencer e que a lesão não era nada. Eu já tinha aceitado a viagem desde o início, mas a mãe demorou a ceder”, disse.

Dedicação e vitória na Europa

Pepe viajou para a Europa com 17 anos de idade, se recuperou da lesão, e, como um guerreiro alagoano em busca de alcançar o sonho de vencer no futebol, foi conquistando seu espaço no Marítimo, atuando pelo time B, e, em seguida, pelo principal. No time da Ilha da Madeira, foram três anos.

O bom trabalho feito no Marítimo despertou o interesse dos grandes clubes portugueses. Pepe foi cedido por um período de avaliação ao Sporting; lá, conheceu um jovem atacante, que, com o passar dos anos, se tornaria um dos maiores jogadores do mundo, e seu amigo e companheiro de seleção portuguesa e do Real Madrid, Cristiano Ronaldo. “Ele ficou mais ou menos um mês no Sporting, mas, quando fizeram a proposta, o Porto já havia feito uma maior ao Marítimo, que não pôde ser superada pelo Sporting. Ele também foi contratado pelo empresário Jorge Mendes, que também trabalha com Cristiano Ronaldo e o técnico José Mourinho, treinador do Porto na época”, informou o pai do zagueiro.

No Porto, Pepe ficou entre 2004 e 2007; conquistou uma Taça Intercontinental (2004), dois Campeonatos Portugueses (2006 e 2007), duas Supertaças de Portugal (2004 e 2006) e uma Taça de Portugal (2006). Não demorou para chegar a um dos maiores clubes do mundo.

“O Porto foi à Espanha enfrentar o Real Madrid em um jogo no Estádio Santiago Bernabéu, e, no final do jogo, o empresário Jorge Mendes chegou ao lado do Pepe e falou: ‘Gostou daqui? Esta será sua nova casa’, depois o levou para conversar com os dirigentes do clube e o presidente perguntou: ‘Você é o Pepe?’. ‘Sim, senhor’. ‘Então você é o novo contratado do Real Madrid’”, contou Anael, que, aos risos, completou: “O Pepe disse que quase caiu de lado, era seu sonho sendo realizado”.

No clube merengue ele já venceu dois Campeonatos Espanhóis (2007-08 e 2011-12), duas Copas do Rei (2010-11 e 2013-14), duas Supercopas da Espanha (2008 e 2012), uma Liga dos Campeões da UEFA (2013-14), uma Taça de Mundial de Clubes da FIFA (2014) e uma Supertaça Europeia (2014).

“Um jogador com personalidade, comprometido com o clube e com os meus companheiros”, é como Pepe se considera, em seu perfil no site do Real Madrid. Que fala ainda: “O F.C. Porto é uma escala na minha carreira, porque o meu sonho é jogar no Real Madrid”, e tem como referências: Fernando Hierro e os brasileiros Antônio Carlos e Ricardo Gomes.

De Alagoas para a seleção Lusa

Mesmo tendo nascido em Maceió, Pepe agarrou a oportunidade dada por Felipão de defender a seleção portuguesa. Após obter a cidadania, Pepe atuou pela primeira vez na seleção de Portugal contra a Finlândia, em 2007, nas Eliminatórias da Eurocopa de 2008.

Segundo o pai de Pepe, o zagueiro recebeu uma ligação de dirigentes da CBF pedindo para que organizasse sua documentação, pois estaria pré-convocado para a Seleção Brasileira sub-20, quando ainda defendia o Marítimo. Mas, quando saiu o anúncio dos convocados, outro zagueiro entrou no lugar dele.

“Já depois, no Porto, membros da Seleção Brasileira principal foram observar alguns jogos e treinos dele na equipe. Ele esperou mais uma vez a convocação, e não aconteceu. Foi quando Felipão assumiu a seleção de Portugal, conversou com o Pepe e avisou que tinha interesse em tê-lo na sua equipe. Por estar atuando há mais de quatro anos em Portugal, a dupla nacionalidade foi feita. Ele ainda esperou a chance de defender o Brasil, mas não houve interesse e foi convocado para a seleção portuguesa”, contou.

Além de amistosos e jogos eliminatórios, o alagoano já disputou duas Eurocopas (2008 e 2012) e duas Copas do Mundo (2010 e 2014), pela seleção portuguesa.

“O sonho de qualquer jogador é jogar numa seleção, e com o Pepe não foi diferente. Eu cresci jurando amor à pátria brasileira, mas, com meu filho defendendo outro país, tenho que torcer para ele também. Nos jogos entre Brasil e Portugal é ruim, fico muito dividido. Fica aquela coisa: ‘Eu quero que meu filho vença, mas não quero que meu País seja derrotado’, é uma emoção inexplicável”, relata o pai-coruja.

Matéria publicada também no jornal Gazeta de Alagoas.

Crédito da foto: Getty Images