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Opinião: Ricardo Oliveira, Prass e as contradições do futebol

O futebol é mesmo um microcosmo da nossa sociedade que reproduz todas as contradições das relações humanas. No clássico do último domingo entre Santos e Palmeiras, Ricardo Oliveira e Fernando Prass voltaram a protagonizar mais um capítulo da famigerada rivalidade que envolve os dois jogadores nessa temporada. No âmbito extra-campo, torcedores e mídia opinam sobre o episódio e expõem o caráter dualista da provocação, ora como componente do jogo e elemento essencial do espetáculo, ora como ação de risco e oposta ao fair play. 

Janaína Santista
Colaborador do Torcedores

Crédito: Crédito da Foto: Reprodução/Facebook Oficial do Santos FC

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Não muito tempo atrás, Valdívia e Rogério Ceni protagonizaram um duelo parecido nas partidas disputadas entre Palmeiras e São Paulo, na qual, à época, o meia alviverde abusava das provocações ao adversário. Valdívia irritou o goleiro são paulino fazendo menção ao “choro” do adversário, colocando o dedo indicador em riste sobre a boca em sinal de pedido de silêncio, interpretando dancinhas, realizando o “famoso chute no vácuo”, distribuindo empurrões e  fomentando  bate-bocas. Àquela época, a maioria dos palmeirenses, em um tradicional fórum de debates entre torcedores, aprovavam o comportamento do chileno e viam os gracejos e as provocações como algo inerente ao futebol.

Após o jogo de domingo, os palmeirenses criticaram uma suposta provocação realizada por Ricardo Oliveira durante a comemoração do gol marcado na vitória por 2 a 1 sobre o alviverde paulistano,  a qual foi negada pelo artilheiro do Campeonato Brasileiro logo após a partida. O camisa 9 santista teria feito uma “cara feia” direcionada ao goleiro Fernando Prass, com o qual viveria um duelo à parte nos últimos confrontos entre Santos e Palmeiras. O que se destacou nesse episódio é que, para os torcedores, a provocação é válida quando o foco não é o seu próprio clube ou o elenco a ele vinculado.

Uma partida de futebol envolve os componentes relacionados diretamente à prática do futebol como os últimos resultados, a preparação da equipe para a partida, o entrosamento entre os jogadores, a capacidade técnica e física dos atletas, mas também aspectos psicossociais como a motivação, a confiança, o grau de apoio da torcida, o relacionamento com a imprensa e a estrutura familiar. No ambiente de jogo todos esses elementos emergem, se inter-relacionam e interferem no modo como o jogador responderá à pressão da partida.

No futebol as provocações em jogo costumam ser uma constante, em uma tentativa de desestabilizar emocionalmente o adversário. Um jogador que demonstra insegurança não só estará mais propenso à falhas, como motivará o oponente a pressioná-lo. O controle emocional passa a ser, dessa forma, um componente que qualifica o atleta e fortalece uma equipe, na medida em que os jogadores que conseguem controlar suas emoções estarão mais aptos à resistirem à pressão em situações de grande tensão.

Assim, a competência emocional é um elemento essencial no esporte, tal qual a competência física e a competência técnica. Equilíbrio emocional pode ser uma vantagem competitiva, assim como o desequilíbrio se traduz em uma desvantagem. As provocações de jogo tem o intuito de fazer com que o adversário ceda à pressão, ou seja, trata-se de focar uma fragilidade do adversário, assim como se faria no caso de uma deficiência técnica ou de um baixo rendimento físico.

Há de se lembrar que a provocação pode romper a barreira do preconceito e, fora dos limites de jogo, pode até mesmo deflagrar uma reação violenta. Não parece ser o caso do episódio do último domingo. Pelo contrário, Ricardo Oliveira até negou a ação. E mesmo se houvesse acontecido, que bom seria se uma provocação lúdica, como uma careta, fosse respondida com controle emocional e futebol refinado.

Fora do espaço do fair play, a provocação é um risco ao futebol, na medida em que pode ser propulsora de ações preconceituosas e  de manifestações de violência. De forma lúdica, engrandece o futebol, angariando audiência e estimulando a paixão pelo esporte.

*Fair play é a designação relacionada à ética no esporte, de forma a promover atitudes que não prejudiquem intencionalmente o adversário.

Crédito da foto: Reprodução/Facebook