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Opinião: com competitividade, futebol brasileiro pode reascender

A competitividade equilibrada pode ser o caminho para a reestruturação do futebol brasileiro. A publicação inglesa The Economist desvendou o que está por trás da ascensão do  Leicester e da queda do Chelsea na Premier League, indicando como o equilíbrio competitivo no futebol pode contribuir para a melhoria do futebol enquanto produto. Em tempos de discussão sobre formatos ideais para organização do futebol brasileiro, a experiência inglesa pode dar pistas de boas práticas que podem ser aplicadas ao nosso contexto. Entenda.

Janaína Santista
Colaborador do Torcedores

Crédito: (Foto: Divulgação/CBF)

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A competitividade é o que diferencia os esportes de outros jogos e um elemento essencial na busca pela melhoria do desempenho e, em última instância, para o aperfeiçoamento do ser humano. Nos últimos dias  publicamos uma série de matérias sobre o que ouso chamar de um primeiro momento de manifestação dos clubes, ainda que de forma mais tímida que o necessário, contra a “espanholização” do futebol brasileiro, cada vez mais reforçada pela desigualdade na distribuição das cotas de TV e de patrocínio público. Em todas essas ocasiões evidenciamos que, sem a segurança de uma liga genuinamente constituída, seria essencial aos clubes negociar em bloco, tentando menorizar essas distorções, valorizando as competições enquanto produto e, por consequência, o próprio futebol brasileiro.

No último mês, a publicação inglesa The Economist explorou os benefícios de um movimento contrário à “espanholização”, o que podemos considerar como  a busca pelo equilíbrio competitivo no futebol. Na primeira parte da temporada 2015-2016 da Premier League, o inesperado Leicester figurou nas primeiras posições, enquanto o atual campeão, o poderoso Chelsea amargava a parte de baixo da tabela.  O texto publicado no The Economist fala sobre a distribuição e esse é um aspecto interessante, mas também evidencia  como o equilíbrio competitivo no futebol pode contribuir para a melhoria do próprio futebol enquanto produto. O texto exemplifica que, com um trabalho bem feito, favorecendo suas especialidades e explorando a vulnerabilidade de seus adversários, o Leicester pode diminuir a diferança para as melhores equipes “no papel” da competição. Em suma, o acerto tático do Leicester pode colocá-lo em condições de disputar em boas condições partidas contra equipes formadas por jogadores mais técnicos.

Uma coisa é óbvia, isso não aconteceria sem dinheiro. O The Economist destaca que em fevereiro de 2015 a Premier League assinou um novo contrato de televisão no valor de £ 5 bilhões (R$22,1 bilhões) por ano, receitas que são distribuídas de forma relativamente equilibrada. A Premier League distribui o dinheiro da televisão em três fatias:  50% de forma igualitária, 25% de acordo com a classificação no campeonato e 25% considerando o número de jogos transmitidos, com um detalhe importante, existe uma garantia contratual de um mínimo de jogos transmitidos por equipe. Na última temporada, o clube com menor cota recebeu 65% do campeão em receitas. Para efeito de comparação, até a última temporada, Barcelona e Real Madrid ficavam com cerca de metade das receitas da La Liga, a partir da atual temporada devem manter 1/3 da fatia. Outro ponto importante no desenho inglês, citado pelo The Economist, é o Financial Fair Play (FFP), uma série de medidas que visa reduzir a influência de bilionários que injetam valores em clubes deficitários e desequilibram o campeonato, com a redução dos orçamentos de equipes que sejam de propriedade de bilionários.

Essas ações extra-campo contribuíram para evitar abismos em campo, como acontece no campeonato espanhol de forma mais evidente, e permitiram que episódios como o que podemos observar envolvendo Chelsea e Leicester pudessem acontecer. Essa imprevisibilidade trouxe ganhos interessantes ao futebol inglês, enquanto produto,  como a aceleração do ciclo de inovação, visto que o maior equilíbrio exige a elaboração contínua e com rapidez de novas estratégias para superar os adversários, a diversificação dos esquemas táticos de jogo, e a melhoria no processo de recrutamento de talentos. Por sua vez, um campeonato mais competitivo desperta mais atenção das casas de apostas e da audiência como um todo.

O futebol brasileiro vive um momento de reflexão, em meio aos escândalos envolvendo sua entidade máxima, à crise política envolvendo todo o seu arranjo institucional  e ao descontentamento expresso pelos torcedores, sobretudo pela desvalorização das competições do país enquanto produto. Não há momento melhor para se discutir a necessidade de reestruturação do futebol brasileiro do que no olho da atual crise, que pode representar uma oportunidade para uma mudança estrutural. As boas práticas, como as observadas no futebol inglês devem ser consideradas. Uma obviedade é que a “espanholização” não é o caminho a ser seguido, a própria Espanha se obrigou a repensar o modelo. A oportunidade está posta e os torcedores tem o papel fundamental de pressionar seus dirigentes e se mobilizarem pela melhoria do futebol brasileiro.

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