Assessor do Grêmio relembra a Batalha dos Aflitos: “Eu duvidei”

Grêmio Oficial

Não é piegas dizer que em 50, 100 anos, ainda relembraremos a “Batalha dos Aflitos“, protagonizada por Náutico e Grêmio na última rodada do Campeonato Brasileiro da Série B de 2005. Os gremistas, é claro, relembrarão com um pouco mais de alegria e orgulho por terem presenciado um dos capítulos mais emocionantes da história do clube, em que a disputa de um título da segunda divisão do futebol brasileiro tornou-se mero detalhe.

Encarar a “Batalha dos Aflitos”, como apenas uma partida que devolveu ao Grêmio o acesso à elite do futebol nacional, é tratá-lo com frieza demais. Em quase 11 anos da “imortalidade” do Grêmio em sua prova mais cabal, muitos personagens da batalha se pronunciaram à respeito, mas talvez sejam àqueles que estiveram fora do campo de jogo que façam o gremista reviver cada segundo angustiante daquela partida.

Márcio Neves, assessor de imprensa do Grêmio Foot-Ball Porto Alegrense, desde aquela época, é um deles:

Nenhum gremista vivo é capaz de falar com sobriedade sobre o que foi a inesquecível “Batalha dos Aflitos”. Basta mencionar o tema para que a avalanche de emoções daquele 26 de novembro de 2005 desabe sobre nossos corações. Taquicardia, risos nervosos e lágrimas se misturam, como se aquele dia ainda não tivesse acabado.

Quem viveu de perto aquele momento, jamais esquece.
Tudo já foi dito.
Livros foram escritos, DVDs foram editados, teses foram criadas, mas insuficientes para descrever o que realmente se passou naquela tarde quente de sábado.

Se foi o jogo mais tenso da minha vida?
Acredito que sim.
Como funcionário do Clube e por conhecer os bastidores da instituição, eu sabia que o futuro do Grêmio dependia daquele retorno imediato à elite do futebol brasileiro. Passávamos por uma crise sem precedentes, dentro e fora de campo. Era o futuro do Grêmio em jogo e o meu futuro também.

Eu estava na sala da assessoria de imprensa, no saudoso Estádio Olímpico. Naquela época, o site oficial do Clube fazia o tradicional “Minuto a Minuto” descrevendo o que ocorria na partida.
Era eu o responsável.
Aliás, provavelmente o único funcionário trabalhando neste jogo que não estava em Recife. O que tornava o meu quadro ainda mais dramático e solitário.

Com 20 minutos de bola rolando, chegou o estagiário. Eu nem lembrava que ele também estava escalado para trabalhar naquele dia.
Logo veio a marcação do primeiro pênalti contra nós.
Irado, dei um soco na mesa e cortei a mão num grampeador.
Enquanto tentava estancar o sangue, a cobrança explodia no poste.
Naquele momento, eu não tinha mais nenhuma condição emocional de fazer o “Minuto a Minuto”. Deixei a incumbência com o estagiário e me dediquei apenas a ver o jogo.

O tempo foi passando e nada do Grêmio levar perigo ao gol do Náutico.
Volta e meia eu deixava minha sala e dava uma caminhada pelo deserto pátio de estacionamento do Olímpico para respirar.

Então vieram o segundo pênalti e as expulsões.

Sim.
Naquele momento eu duvidei da imortalidade do Grêmio.
Eu me arrependo, é verdade, mas como acreditar?
Pra mim, estava tudo acabado.
O Grêmio não conseguiria o acesso.
Mais do que ver escapar pelo ralo um ano de trabalho árduo, me apavorava a iminência de um futuro nebuloso no ano seguinte.

Peguei meu carro e fui pra casa.
Queria estar ao lado dos meus filhos e da minha esposa.
Talvez as únicas pessoas capazes de amenizar a minha dor naquele momento.
O trajeto não foi longo.
A cidade estava fazia.
Ninguém nas ruas.
Tudo o que ocorria nos Aflitos, eu acompanhava pelo rádio.
Quando cheguei em casa, Ademar ajeitava a bola para, finalmente, fazer a cobrança.

O que aconteceu depois disso, ainda é meio nebuloso na minha cabeça.
Lembro dos berros da minha esposa dizendo: “ELE DEFENDEU! ELE DEFENDEU!”.
De repente, o grito mudou para: “FOI GOL! FOI GOL! FOI GOL!”. Ela me sacudia os ombros e me dava tapas pra eu acordar do transe.
Recordo de olhar pela janela de casa e ver meus vizinhos gremistas correndo pela rua em ziguezague, desnorteados, como sem saber pra onde ir. Outros dois estavam abraçados rolando pelo asfalto.
Devo ter pensado: “Alguma coisa muito séria acabara de acontecer”.
Isso parecia óbvio.

Acompanhei os minutos finais ainda apavorado.
Com apenas sete jogadores em campo, me passava pela cabeça o Grêmio não conseguir evitar uma virada dos pernambucanos.

Após o apito final, entrei no carro e voltei ao Olímpico.
Não lembro como cheguei lá.
No pátio de estacionamento, encontrei o estagiário bêbado agarrado num fardo de cerveja.
Nos abraçamos, chorando.
Bebi muito.

Até hoje, não faço ideia de como ficou o “Minuto a Minuto” daquele jogo no site oficial. Provavelmente, deva ser o melhor texto já feito para descrever aquela loucura.

 

 



Jornalista | Escritora Há 10 anos dedicando-se ao meio esportivo, com enfoque em mídias sociais e produções audiovisuais. Autora do site Guia dos Esportes - Conhecendo o mundo através do esporte, especialista de conteúdo da Seconds Entretenimento Esportivo, colunista dos sites Autoracing (F1), repórter e colunista do Portal Rackets (tênis).