Opinião: Não é de camisa 10 que o Palmeiras precisa

Palmeiras
Crédito: Cesar Greco/Ag Palmeiras/Divulgação

Muito vem se dizendo sobre o Palmeiras recentemente, e não é para menos. A gestão Paulo Nobre deu benefícios financeiros que jamais foram vistos na história do clube, com exceção da época Parmalat (vale lembrar que a época da Academia de Futebol o futebol não era tão valorizado, mesmo com correção monetária). A espera da torcida para os resultados parecia ter dado liga: contratações bombásticas, chapéus em rivais, e um dos melhores elencos do Brasil.

LEIA MAIS:
VEJA QUEM PERMITIU O ACESSO DA ORGANIZADA DO PALMEIRAS AO CT

Isso tudo dá visibilidade e causa expectativa, nos torcedores e na imprensa esportiva. Com o grande elenco, o time tem diversas opções táticas, pode confundir os rivais, fazer mistério. É um leque de opções que qualquer treinador gostaria de ter. Mas não vem dado certo, e a alta expectativa causa decepção – é um princípio de marketing – nos torcedores, e pior, na imprensa, que começa a buscar soluções. Parece que chegamos ao consenso: falta ao Palmeiras um camisa 10.

O camisa 10 que falta ao Palmeiras é o armador clássico. Jogador sul-americano que consiga ditar o ritmo de jogo. Ótima visão de jogo, controle de bola, domínio dos passes. Acha espaço onde ninguém mais vê. Para todos, falta o camisa 10. Ele não pode ser Robinho, nem Cleiton Xavier que vive machucado, logo, o Palmeiras que contrata de montes, esquece de contratar quem mais precisa. É isso mesmo? Falta um camisa 10? Ou melhor, ainda existe camisa 10 no futebol?

Vamos responder as perguntas aos poucos e com exemplos. Vamos analisar o futebol da Alemanha da Copa de 2014, do Barcelona, do Real Madrid, do Bayern de Munique, da Juventus. Todos esses times jogaram o fino da bola nos anos e são extremamente dominantes. Criam facilmente diversas chances de gol durante a partida e conseguem dominar seu adversário com passes curtos e envolventes.

A Alemanha de 2014 por exemplo, jogava em um 4-3-3, segundo o site WhoScored. Isso consiste em 4 defensores, 3 meio campistas e 3 atacantes, onde dois deles são alas. Os meio campistas eram: Schweinsteiger, Kroos e Khedira. Não são camisas 10 clássicos. Os pontas eram: Müller e Özil, o último, que apesar de possuir essas características de camisa 10, jogava na ponta direita. O time conseguiu fazer 7×1 na seleção brasileira e ganhar o tetracampeonato. Não havia ninguém armando jogadas, e sim um padrão tático, onde todo o time é responsável pela transição da defesa para o ataque, com passes curtos e rápidos, envolvendo a marcação e muita movimentação. O movimento coletivo dos jogadores sim, cria espaços e lances de gol.

O Bayern de Munique do Guardiola também é outro time que cria diversas chances de gol ao longo dos 90 minutos de uma partida. Ele é mais difícil de ser analisado pois o time não tem uma formação fixa, mas é isso que mais surpreende: o padrão de jogo é o mesmo independente da formação escolhida por Guardiola. Normalmente o time terá laterais e pontas, com uma excelente saída de bola. Mais uma vez: que é o camisa 10 do Bayern? Ninguém! Veja o meio campo da última partida contra o Colônia: Thiago, Douglas Costa, Rode, Coman e Xabi Alonso! Nenhum desses jogadores são os que acham espaços. Eles, em conjunto, os criam!

O mesmo efeito ocorre para o Barcelona, Real Madrid e Juventus! Não há UM jogador responsável pela criação da jogada, e sim o CONJUNTO. No Real Madrid, pode-se dizer que é Cristiano Ronaldo, Bale, Modric, Kroos, Isco, James, enfim, diversos jogadores. Mas não existe um jogador responsável pela criação das jogadas sozinho. Existe muita troca de passes entre eles, que acaba por envolver o adversário. Prova disso é que o número de assistências é muito bem distribuído entre os jogadores. Não há um que se destaca. No Barcelona também chega-se a dizer que é Iniesta. Mas quem mais da assitência é Luis Suárez! Fora o trio MSN, quem mais distribui passes a gol é Sergi Roberto, um VOLANTE. É todo o movimento coletivo que cria as jogadas do time, os passes curtos são responsáveis pela criação progressiva.

Então vamos o que falta ao Palmeiras, como explicar? É simples, falta um bom padrão tático ao time, que explore as características dos seus jogadores, falta um movimento coletivo ofensivo e defensivo, falta organização na criação das jogadas. Tem individualismo demais e coletivo de menos. Era isso que Oswaldo tentava fazer quando foi interrompido para dar vez ao Marcelo Oliveira, que não se esforçava para criar isso. Agora é a vez de Cuca e já se fala de reforços. Esse é um dos maiores erros do Paulo Nobre: imediatismo. Cuca tem que trabalhar as opções que tem. Não falta jogador. Falta tática. É difícil de conseguir e vai exigir paciência. Mas é isso que falta, um movimento coletivo ofensivo, sem camisa 10 e sem reforços. Pedir o camisa 10 é tomar um 7×1.