Opinião: A decepcionante gestão de Paulo Nobre no Palmeiras

Foto: Cesar Greco / Fotoarena/ Agência Palmeiras/ Divulgação

 

No começo de 2013, em meio a mais uma eleição conturbada no Palmeiras, muita expectativa rondava a candidatura de um novo aspirante a presidente, o empresário Paulo Nobre, então com 44 anos. Com ideias e perspectivas novas, Nobre era a esperança de uma parcela grande de torcedores que almejava um maior profissionalismo no clube, respeito à instituição e, acima de tudo, o retorno do clube à disputa de títulos importantes. Três anos e uma reeleição depois, a decepção com a gestão de Nobre vem engordando como uma bola de neve, e até mesmo seus fieis eleitores questionam sua qualidade como presidente.

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Quando encontrei Paulo Nobre pela primeira e única vez, em um almoço em frente ao antigo Palestra Itália em 2008, antes da semi-final do Campeonato Paulista contra o São Paulo, meus olhos brilharam com suas posições e seu repertório para lidar com os mais diversos problemas do Palmeiras. Quando um amigo o apresentou como o “futuro presidente do Palmeiras”, senti certa arrogância em suas ideias, mas concordei que elas eram muito promissoras. Falava de profissionalização, de um clube com instituições concretizadas e departamentos próprios, todos focados em garantir o melhor para o clube. Talvez pela minha idade, 16 anos, fui ingênuo ao acreditar que ele se tratava de um dirigente novo, proveniente da arquibancada, uma pessoa que alinhava as melhores qualidades de um torcedor com as de um profissional empreendedor.

Eleito pela primeira vez em 2013, senti que esse era o momento da virada palmeirense. Pensava: “agora o Nobre vai assumir, ele vai inovar”. Porém, logo na primeira cartada, Nobre mostrou a que veio e decidiu por manter Gilson Kleina, contestado pela diretoria e claramente inapto a dirigir um clube da imensidão do Palmeiras. Foi um ano de péssimas contratações, de negligência por parte da diretoria, de uma legião de dirigentes inúteis encabeçados pelo inútil-mor José Carlos Brunoro.

“Série B”, pensei com meus botões. Tudo isso vai passar, é apenas uma fase em que o presidente teve de tomar algumas atitudes para reconstruir o clube financeiramente. Vamos para 2014 com a cabeça levantada. Ano começa, ano passa, e mais um time medíocre. Uma equipe desalmada, que durante as 38 rodadas do Campeonato Brasileiro mereceu ser rebaixada. Mais uma temporada que começa com Gilson Kleina a frente do clube, uma insistência de Nobre no erro. Jogos se passam, poucos pontos são conquistados, e a máxima repetida pela torcida desde 2013 é atendida: Kleina não serve para ser treinador do Palmeiras. Demorou mais de um ano para Nobre perceber o erro, ou admiti-lo para si mesmo.

Vem Gareca, e com ele alguns (bons) jogadores argentinos. Os melhores do elenco de 2014. Caríssimos, pagos em dólar por um clube que até então estava a beira da falência. Um técnico inovador, com uma visão de futebol diferente dos tradicionais treinadores brasileiros. Não era o momento, todos sabiam, para tentar construir um novo trabalho no Palmeiras. Era hora de resultados, e Nobre ignorou isso completamente. Passados menos de 90 dias, aconteceu o que todos já esperavam desde a contratação do argentino: Gareca foi demitido com resultados calamitosos, deixando o clube a beira do rebaixamento. Dorival Júnior chegou em setembro de 2014, e pouco conseguiu fazer. Sem qualquer mérito, o Palmeiras conseguiu se livrar de mais um ano na Série B por causa da ineficiência de outros clubes. Quem não se lembra da comemoração de um gol do Santos no Vitória, na última rodada do Brasileirão de 2014, em pleno Allianz Parque?

O último ano começou como todos os da Era Nobre: “agora vai”. A contratação de Oswaldo de Oliveira e Alexandre Mattos, prometendo uma grande equipe, colocou panos quentes na relação conflituosa com a torcida. A contratação de 26 jogadores mostrou que Nobre estava disposto a reformular todo o elenco. Nota: todo o elenco que ele mesmo construiu durante os anos do primeiro mandato, com algumas exceções. Contudo, mais uma vez a decepção tomou conta dos arredores do Palestra Itália. Desta barca de jogadores, pouquíssimos surtiram efeitos e conquistaram a titularidade, muitos foram emprestados, vendidos ou fatiados com empresários e colocados em outros clubes. Outros ainda dão pesadelos na torcida, como Alecsandro e Cleiton Xavier.

Em meio a essa quantidade imensa de erros, começando pela própria gestão do clube, passando pelas contratações e culminando em uma campanha pífia em 2016, Nobre cometeu seu principal equívoco quando deu carta branca ao diretor de futebol Alexandre Mattos. Com status de profissional renomado e grande negociador, Mattos inundou o Palmeiras com contratações inúteis, aquelas que, no futebol, são chamadas de “oportunas”. É o caso de Marcelo Oliveira, contratado após uma demissão muito contestada de Oswaldo de Oliveira. Foi a “oportunidade”. Rodrigo, do Goiás, Régis, do Sport, além do próprio Jean, ex-Fluminense, são outros exemplos destas “oportunidades” que Mattos não deixou passar. É uma lógica de mercado, uma perspectiva neoliberal de apostar em um futuro nebuloso, como se fosse uma ação na Bolsa de Valores.

Ora, um clube não é uma empresa. A dupla Nobre e Mattos enxerga uma instituição com 16 milhões de aficionados como uma grande multinacional ávida por lucro. É essa a cereja do bolo de decepção que foi e é a gestão do atual presidente.  Além das contratações contestáveis e da gestão do clube marcada por uma negligência ímpar, Nobre trata com descaso o torcedor, a quem chama de cliente. Cobra ingressos caríssimos (os mais caros do Brasil, em média), preços exorbitantes dentro do estádio Allianz Parque (uma singela pipoca custa R$10; uma água, R$5), segrega os torcedores com o Avanti, defende clássicos com torcida única, compra briga com as torcidas adversárias colocando ingressos para visitantes a R$ 200, compra briga com as torcidas organizadas do clube, criminalizando-as etc.

Tudo isso sem contar a inabilidade/incompetência/má vontade de Nobre para com os outros esportes do Palmeiras. Qualquer torcedor de São Paulo sabe da tradição que os grandes clubes possuem em outros esportes, principalmente aqueles considerados olímpicos. Paulo Nobre está conseguindo destruir isso no alviverde. Acabou com o Basquete profissional por causa de R$ 3 milhões de reais por ano, valor que a Meltex desembolsava para manter o time. Isso equivale a, no máximo, duas bilheterias do Allianz Parque. O Palmeiras também não tem times profissionais de futebol fora o principal, já que modalidades como o fustal foram suprimidas. Também não temos futebol feminino. Isso tudo por causa da política de Nobre, a famosa “andar com as próprias pernas”. Para ele os esportes do clube não devem ser respaldados financeiramente pelo futebol. Ou seja, o dinheiro do futebol é para o futebol, e não para o clube como um todo. Uma visão sectária e antiga, além de um desserviço ao esporte olímpico do País em pleno ano que o Rio de Janeiro recebe os jogos pela primeira vez na história.

Não, caro amigo, aqui não estou renegando as conquistas dessa diretoria, que passam principalmente pela construção de um sócio-torcedor forte e uma estrutura financeira ajeitada. Me parece óbvio que Nobre conseguiu feitos positivos para o Palmeiras. Mas, a cada dia que passa, os aspetos negativos de sua gestão superam cada vez mais os positivos, e, na medida em que o clube vai se tornando a grande piada de 2016, mesmo com uma folha salarial de 12 milhões, uma das maiores do País e a maior do Campeonato Paulista, seu futuro como dirigente vai sendo mais questionado. Difícil concordar com o ex-jogador e atual comentarista da Bandeirantes Neto, mas, na transmissão do jogo do Palmeiras contra o Água Santa, durante a melancólica goleada, o ídolo corintiano foi enfático: “Paulo Nobre não entende absolutamente nada de futebol.”



Jornalista