OPINIÃO: Por que Neymar não é o líder que a Seleção Brasileira precisa

Crédito da foto: Divulgação/ Rafael Ribeiro / CBF

O empate da Seleção Brasileira contra um Uruguai aguerrido na noite de ontem, em Pernambuco, nos mostraram duas coisas. A primeira (e mais óbvia) é que David Luiz e Miranda foram os responsáveis pela atuação mais desastrosa de uma dupla de zaga na história do escrete canarinho (talvez só perdendo para o fatídico 7 a 1). E a segunda delas (e mais importante e urgente na visão deste que vos escreve) é a falta de um líder dentro de campo. Um cara que chame a responsabilidade, que saiba a controlar os nervos dos companheiros e que tenha calma e firmeza até mesmo para discutir com o árbitro. E pelo que tenho acompanhado nos últimos anos, esse líder não pode ser Neymar.

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Desde o final da Copa do Mundo de 2006, quando o Brasil foi eliminado melancolicamente pela França de Zidane, Henry e Viera, o escrete canarinho não possui um “líder” dentro de campo. Lúcio e Emerson faziam esse papel na Alemanha. Quatro anos antes, o próprio camisa três e Cafu cumpriram esse papel na conquista do penta na Coreia do Sul e no Japão. E em 1994, nos Estados Unidos, Dunga e Romário foram os líderes do tetra comandando uma geração mais “cascuda” do que na Copa da Itália. Depois das confusões em Weggis e das fracas atuações em terras germânicas, houve uma ruptura. Era como se a geração anterior não fosse capaz de passar o bastão para os jogadores mais novos.

Esse cenário se mantém até os dias atuais. Falta um jogador mais “cascudo” na Seleção Brasileira. Alguém com um perfil de liderança, que comande o time dentro de campo e cobre comprometimento dos mais desatentos e garra dos mais preguiçosos. Alguém que una o grupo no vestiário e se transforme no representante da comissão técnica dentro de campo. Guardadas as devidas proporções, alguém como o próprio Dunga foi nos Mundiais dos Estados Unidos e da França.

Diante dos fatos relatados acima, chego à conclusão de que Neymar, camisa dez da Seleção Brasileira, não é o líder que o escrete canarinho precisa. Não é perseguição ou “recalque” (palavra da moda nas redes sociais). É pura constatação dos acontecimentos dos últimos anos.

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Não que o atacante do Barcelona não tenha qualidade. Muito pelo contrário. Ele é hoje um dos três melhores jogadores do planeta. Mas a grande questão é que falta nele o principal: o perfil de líder. Já cansamos de assistir o camisa dez da Seleção Brasileira destruindo os adversários quando ele atuava pelo Santos e, mais recentemente, pelo Barcelona. Qualidade com a bola nos pés ele tem (e muita). Mas Neymar nunca poderia ter sido o escolhido do técnico Dunga para ser o capitão e líder da Seleção Brasileira. Pelo menos não agora…

Neymar tem apenas 24 anos e é o protagonista de uma das gerações mais criticadas da história do futebol brasileiro. Não quero entrar na discussão do peso que a camisa amarelinha possui e da responsabilidade que ela traz consigo. Como disse lá em cima, o atacante do Barcelona sabe fazer mágica com a bola nos pés. Mas daí a ter perfil de líder vai uma distância bem grande…

Lembremos das atuações de Neymar na Copa América do Chile, no ano passado. Ele, que deveria ser o primeiro a levantar a bandeira branca diante da catimba e das botinadas dos adversários justamente por carregar a braçadeira de capitão, foi o primeiro a perder as estribeiras. E mais: acabou sendo suspenso da competição num episódio lamentável com o árbitro chileno Enrique Osses. Veja bem, caro leitor. Não estou falando de qualidade com a bola nos pés. Estou falando de POSTURA DE LÍDER. E no jogo de ontem, contra o Uruguai, vimos Neymar sucumbir com o restante da Seleção Brasileira e levar um cartão amarelo bobo numa entrada feia (e desnecessária) no lateral Álvaro Pereira. Resultado: suspensão automática e ausência no jogo complicado contra o Paraguai em Assunção…

Há quem diga que Neymar parece um menino egocêntrico e mimado nos bastidores da Seleção Brasileira e que Dunga não tem coragem para coibir essas atitudes, com receio de perder o apoio do seu principal jogador. Como não estou lá para comprovar isso, prefiro me concentrar no que vejo dentro de campo. E sigo acreditando que Neymar ainda não reúne as condições necessárias para ser esse “líder” que o escrete canarinho tanto necessita.

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É muito provável que ele seja mantido como capitão da Seleção Brasileira mesmo depois da sua suspensão contra o Paraguai e na disputa dos Jogos Olímpicos no Rio de Janeiro. Ao mesmo tempo em que Neymar perde o controle dentro de campo, o técnico Dunga erra (e feio) ao insistir nessa e em outras decisões. Que o nosso camisa dez faça o que sabe, mas sem carregar o fardo de uma tarefa cujo perfil ele não possui. Ser treinador também é ter discernimento para encontrar as melhores funções e tarefas para os jogadores da sua equipe. E esse é um dos grandes equívocos de Dunga.

E quem seria esse líder? Não consigo ver ninguém com essas características no grupo convocado por Dunga. Kaká é o mais experiente, mas também nunca teve esse perfil. Nem quando foi eleito o melhor jogador do mundo em 2007. Thiago Silva? O zagueiro do Paris Saint-Germain seria esse jogador, mas acabou queimado com a torcida (e com a comissão técnica) pelo descontrole na Copa do Mundo e pelas atuações fracas na Copa América. Nenê? O meia vascaíno pode ajudar (e muito), mas também não o vejo como um “líder” de fato. A grande verdade, meus amigos, é que a Seleção não tem esse jogador…

Ainda há tempo para corrigir as questões táticas do time até a disputa dos Jogos Olímpicos. Só não sei dizer se resta tempo para Neymar adquirir a maturidade suficiente para ser o líder da Seleção Brasileira e para Dunga finalmente rever seus conceitos sobre o seu camisa dez.

Grande abraço…



Produtor executivo da equipe de esportes da Rádio Nacional do Rio de Janeiro, jornalista e radialista formado pela ECO/UFRJ, operador de áudio, sonoplasta e grande amante de esportes, Rock and Roll e um belo papo de boteco.