Torcedores | Notícias sobre Futebol, Games e outros esportes

Ex-Flamengo, brasileiro poliglota conta como estragou estreia de Del Piero na Austrália

Gjergj Kastrioti Skënderbeu é um dos maiores nomes da história de um pequeno país localizado na península balcânica e que faz fronteira com a Grécia. Foi lá, na Albânia, que o meia brasileiro Bernardo Ribeiro praticamente fez sua estreia como profissional, depois de passar pela base de Flamengo e Catania. Natural de Nova Friburgo, Bernardo fez parte da geração rubro-negra que tinha Diego Maurício (Drogbinha) e Galhardo, hoje na Bélgica. Na Gávea, chegou a treinar com Ronaldo Fenômeno, mas não teve oportunidade.

Redação Torcedores
Textos publicados pela Redação do Torcedores.com.Contato: redacao@torcedores.com

Crédito: Arquivo Pessoal

Bernardo na base do Flamengo

Bernardo na base do Flamengo

“Deixei o Flamengo e fui para a Itália. No Catania, fiquei seis meses e como não era conhecido, o técnico Mihajlovic, que acaba de ser demitido do Milan, preferia escalar o Máxi López e outros mais famosos”, afirma Bernardo.

Albânia e a ‘sacanagem’ do amigo Marcelinho Leite

Na época, parte da comissão técnica do Catania mudou-se para a Albânia e o brasileiro foi chamado, com mais dois jogadores, para fazer parte da nova equipe que seria formada no Skenderbeu para tentar ganhar a liga depois de aproximadamente 70 anos.

“Fui para lá com o Henrique Miguel, preparador do Catania e que trabalhou com Zidane, Guardiola e Baggio. Na Abânia, o futebol é muito corrido, de marcação, mas eles são técnicos, bons jogadores e que são da seleção. A torcida colocava pressão por ganhar, não ganhava havia 80 anos, não dava para sair na rua”, diz Bernardo.

O título fez com que a torcida idolatrasse o brasileiro, mas nem sempre foi assim. Ele jamais vai se esquecer do constrangimento que passou quando chegou ao país. A proximidade com a Grécia faz com que muitos jogadores do país mudem-se para o país, onde jogava Marcelinho Leite, amigo de Bernardo, que fez recomendações sobre o costume dos albaneses.

“Ele me sacaneou, me disse para chegar ao país e falar algo como ‘xipxamotra’, que , segundo ele, era ‘boa noite’, pois eles iriam gostar e me aceitariam bem. Cheguei e falei no hotel para a recepcionista, que me olhou com ódio, saiu de perto braba. Não entendi, Fui para o quarto e aí repeti aquilo para meu companheiro de quarto, que tinha acabado de conhecer, e ele me olhou torto. Resumindo, eu falei para eles o xingamento mais terrível possível. Para se ter uma ideia, quando a torcida quer ofender e canta isso, o juiz interrompe a partida”, diz Bernardo.

Bernardo em ação pelo Newcastle Jets, da Austrália

Bernardo em ação pelo Newcastle Jets, da Austrália

Parceria com inglês Heskey na Austrália e mau humor de Del Piero

Dois anos depois, o meia deixou a Europa para tentar a sorte na Austrália. Isso mesmo, Austrália. Lá, Bernardo jogou ao lado de Heskey, ex-atacante de Liverpool e seleção inglesa, e foi adversário de Del Piero, ídolo italiano. “Eu não conhecia o campeonato e me falaram que o Heskey iria para lá também. Falei com o Cássio, ex-Flamengo, e as informações que tive foram as melhores. É um pais maravilhoso, a liga tinha mais de 30 mil pessoas por jogo, os estádios impecáveis, as estrelas foram para lá, vários japoneses e ainda conheci minha esposa lá”.

A principal estrela da liga australiana era, sem dúvidas, o campeão do mundo Del Piero, ex-Juventus. A estreia do craque pelo Sydney FC em casa foi justamente contra o time de Bernardo, o Newcastle Jets. “Ganhamos o jogo por 3 a 2, o estádio estava lotado, mais de 70 mil pessoas, transmissão para centenas de países. No último lance, ele cobrou escanteio e salvei a bola na linha, tirei de cabeça. Aí pedi para trocar a camisa com ele, mas me ignorou, ficou com raiva. Depois, de cabeça fria, ele me mandou camisa”.

A fase de calor, praias e clima tropical na Austrália durou pouco. Com o fim do campeonato, Newcastle entendeu que a meta, o título, não foi alcançada e o elenco precisava mudar. Bernardo resolveu tentar voltar à Europa, mas desta vez para a gelada Finlândia.

Bernardo em ação pelo IFK, da Finlândia

Bernardo em ação pelo IFK, da Finlândia

Frio e macarrão com leite na Finlândia

“Fui para o outro extremo, escolhi a Finlândia. Pensei, vou voltar para a Europa, posso tentar e depois dar um passo maior, aparecer. Lá faz frio dez meses por ano, é muito escuro. Fui o melhor meia, recordista de assistências, nos classificamos para os playoffs da Liga dos Campeões. Eu achava que o nível seria ruim, mas todos da seleção estão lá, são jogadores canadenses, jamaicanos, americanos. Eles batem muito, abusam da bola longa, bolas aéreas. É um jogo bem truncado”, diz o meia que jogava no IFK Mariehamn.

Mariehamn, a capital de Aland, arquipélago entre a Finlândia e a Suécia, é uma pequena e pacata cidade de apenas 11 mil habitantes. Por lá, vivia nos cafés da cidade. “Eu e minha esposa saíamos para tomar café, chá e fazíamos planos. Eles têm costumes diferentes dos nossos, tomam muito leite, com tudo. Por exemplo, no jantar eles comem macarrão, carne moída e leite. Outra coisa é que salmão, caviar e frutos do mar são mais baratos do que as carnes”.

Bernardo em ação pelo IFK

Bernardo em ação pelo IFK

Dois anos no país da Escandinávia foram suficientes para o meia, que sentia que precisava voltar ao país natal e tentar ser reconhecido. E a volta foi para o Friburguense, clube de sua cidade natal. “Eu sempre quis voltar e jogar profissionalmente no Brasil, fazer história no meu país”, diz o meia que, na bagagem, além de experiências internacionais, trouxe quatro idiomas.

Torcedor do clube de Nova Friburgo, o poliglota Bernardo, no entanto, não conseguiu evitar o rebaixamento do clube na última rodada do Campeonato Carioca. “Não sentei para conversar, mas quero ficar. Claro que também tenho de pensar na família e carreira”, afirma o meia.