Bruno admite que pode regressar aos gramados em 2018

Foto: Acervo do Clube de Regatas do Flamengo

Bruno Fernandes de Souza é um nome que marcou na história do futebol brasileiro e também das páginas policiais. O ex-camisa 1 do Flamengo, que tem atualmente 31 anos, cumpre pena de 22 anos e três meses pelo sequestro e morte da modelo Eliza Samudio, em junho de 2010. De acordo com suas expectativas, ele deve progredir para o regime semiaberto em 2018 e sonha em voltar ao futebol.

O jogador conversou com o site Globoesporte e a publicação mostrou como é a rotina de detento. Ele acorda as 6h e cuida da limpeza da capela e da prova de soldador. Faz suas refeições e orações e após as 18h tem seus momentos de lazer, além de acompanhar jogos do Flamengo e do Atlético-MG, seu time de coração.

Ao ser perguntado sobre sua vida no cárcere, ele admite que tem pendências a serem resolvidas com a sociedade.

“Reconheço que eu tenho que pagar a minha dívida com a Justiça. Tudo que aconteceu vai servir de experiência. Eu vou voltar. Chega de sofrer, sabe? Eu sofri muito e fiz muitas pessoas sofrerem.
Do sistema de presídio comum, onde passou cinco anos entre as penitenciárias Nelson Hungria e Francisco Sá, sobraram traumas e lembranças ruins. Tentativa de suicídio, uma facada que deixou marca e depressão tratada com remédios”, disse.

“Agora, foco no trabalho, nos cursos e nos treinamentos na Apac (Associação de Proteção e Assistência ao Condenado), uma ONG que administra prisões e trabalha em conjunto com diversos estados e os respectivos tribunais de justiça buscando “a humanização no cumprimento das penas privativas de liberdade”. O método tem inúmeros elementos, mas principalmente a confiança no detento, que passa a ser tratado pelo nome, usa crachá, não enverga uniformes da secretaria penitenciária e não passa pelas privações e lotações do sistema comum”, acrescentou.

No momento, o jogador encontra-se sem advogado de defesa e ele já recuperou o peso que tinha quando jogava, 90kg. O emagrecimento se deveu a uma depressão que teve no período que está preso.

“Com um erro cometido, eu fiz pessoas sofrerem. Uma decisão meio que inconsequente, eu fiz pessoas chorarem. Eu vou lutar e vou dar a volta por cima. São cinco anos e nove meses recluso de liberdade. Um tempo muito grande. Uma vida, uma história. Mas já me serve de aprendizado. Se a pessoa pegar isso aqui como punição, é bem pior. A pessoa tem que aceitar para sobreviver nesse lugar”, contou o jogador, que assumiu ter tentado o suicídio.

“Quando você vai para uma cadeia de segurança máxima, vai para um lugar chamado COC (Centro de Observação Criminalística). Um lugar de observação durante 15 dias. Mas eu fiquei 10 meses nesse lugar. Na Nelson Hungria, eu sempre fui muito perseguido e maltratado. Os agentes penitenciários faziam muita covardia. A pressão era muito grande. Eu cheguei ao ponto de perder o equilíbrio, acabei tentando o suicídio amarrando um lençol na grade e me joguei. Acabou que Deus botou a mão naquele momento ali e não permitiu que eu tirasse a minha própria vida. Quando eu saltei da ventana, o lençol partiu. Impressionante. Foi um dos momentos mais difíceis da minha caminhada”, falou.

“Eu tive a infelicidade de me deparar com a depressão. Eu tentava dormir, virava para um lado, para o outro, o sono não vinha. Eu tentei procurar uma saída nos remédios. Isso é muito comum nos presídios. Me fez muito mal. Quando a minha família chegava era nítido como eu estava abatido. Minha mãe se deparava com aquela situação e chorava muito”, contou.

Bruno continua interessado em futebol, a ponto de acompanhar jogos de Flamengo e do seu Galo de coração.

“Eu vejo jogos. Sou atleticano. Mas acompanho pouco. Na Nelson Hungria, não assistia. Quando via o Flamengo sofrendo, naquela cela escura e fria, eu pensava “poxa, poderia estar ajudando os companheiros e por causa de um deslize meu eu me encontro aqui afastado dos gramados”. Aquilo me doía muito, sofria muito. Só fui voltar a ver jogos com mais frequência aqui na Apac”, comentou.

Quanto a Seleção Brasileira, ele admite que o episódio acabou afastando de seu sonho de disputar uma Copa do Mundo.

“Seleção brasileira eu também não acompanho desde 2010 porque todo mundo sabe que em 2010 eu poderia estar lá. Se falava muito dentro da CBF que meu nome estava na pré-lista. E devido a uma irresponsabilidade minha, o Dunga estava assistindo ao jogo contra o Avaí. Eu tinha autoconfiança, fui tentar driblar o rapaz e o cara quase tomou a bola. Tive que chutar para fora. E por causa daquele lance me custou muito caro e eu acabei não indo para a Copa de 2010. E a meta era chegar na de 2014 aqui no Brasil. Mas devido ao que aconteceu comigo fiquei fora. Vejo os jogos do Atlético Mineiro, acompanho. Mas não consigo ver jogos do Flamengo porque eu poderia estar ali. É até difícil de falar porque é muito forte, mas devido ao que aconteceu comigo não posso estar presente”, lamentou.

O profissional precisa muitas vezes ser mais tranquilo, porém, como torcedor, Bruno admite que é bastante corneteiro.

“Vejo os jogos do Atlético Mineiro, acompanho. Mas não consigo ver jogos do Flamengo porque eu poderia estar ali. É até difícil de falar porque é muito forte, mas devido ao que aconteceu comigo não posso estar presente. Agora eu posso cornetar, né? A vantagem é essa. Mas quando alguém falha, fura, eu tento explicar pros caras aqui que é o cansaço, que é psicológico, que são frações de segundos, mas os caras não perdoam. O Bruno torcedor é bem mais tranquilo”, contou.

Embora tenha deixado incompleta sua história com o rubro-negro, Bruno não cansa de mostrar gratidão com o clube da Gávea.

“Não guardo mágoa do Flamengo, pelo contrário, agradeço muito ao Flamengo por ter me ajudado a chegar além. Eu achava que só de ter me profissionalizado eu já tinha alcançado meu objetivo. A torcida do Flamengo é diferenciada. Quando entrei no Maracanã pela primeira vez… aquele frio na barriga de jogar em time grande eu senti do primeiro ao último jogo. Eu sinto muita saudade de entrar no Maracanã e ver aquele mar de pessoas. Até das cobranças eu sinto falta. Eu vivi um momento muito marcante”, concluiu.