(Coluna) Quando descobri que a vida tem fim

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O final de semana do GP de Ímola da Fórmula 1 sem dúvida marcou a vida de incontáveis pessoas ao redor do mundo. Aqui, a visão de um menino que descobriu o que era a Morte.

Puxando pela minha memória, a lembrança mais antiga que eu tenho de esporte a motor, foi de estar lamentando o abandono de Ayrton no GP do Japão de 1992, em exibição durante o dia na GLOBO. Eu já tinha na cabeça a ideia de que ele não era invencível, visto os dias penosos que passou nesta temporada, mas eu, como todo brasileiro que o acompanhava, nutria esperanças de dias melhores.

Nasci em 1987, dia 23 de Julho, logo, eu era bem menino, uma criança que gostava de carros e que sentava para ver as corridas junto de minha saudosa mãe, que foi a culpada de hoje eu estar assistindo corridas antigas, ir atrás da programação da tv para as atuais e que quando a corrida é boa, assiste de novo.

Mas vamos ao foco, que é o horroroso final de semana de Ímola, onde, claro, não guardo lembranças igual de quem na época, no mínimo já era adolescente exalando hormônios e apaixonado pelos riscos de correr em carros de corrida com médias acima dos 200Km/h, menos ainda de quem estava lá, seja trabalhando, seja como fã nas arquibancadas, mas foi a primeira vez em que pude ver o que significa a Morte, esta entidade que temos a certeza de que um dia vem nos visitar, e que nos leva para o que chamamos de “fim da vida”.

Puxando pela memória(2), não lembro do acidente de Rubens na época, lembro de ter visto depois e de até hoje me perguntar como saiu vivo desse acidente(a foto com o carro no ar com os braços soltos me assusta até hoje) e principalmente inteiro. Lembro-me de Sábado após o treino estar acompanhando o Jornal Nacional e ver aquela sequência horrorosa do acidente de Ratzemberger, onde a cabeça do piloto já cai para o lado, onde não restava dúvidas que o piloto não tinha a menor chance de sobreviver.

Pobre Roland, naquele cadeirão que parecia mal andar em linha reta direito, com as dificuldades inglórias e injustas de um piloto que não era dos piores, ter que guiar aquilo que tentava ser um carro de corrida, acabou sendo vítima de um regulamento porco e completamente ridículo onde por sorte, outros pilotos não tiveram o mesmo destino que ele em outras ocasiões, sem esquecer de Karl Wendlinger que por muito pouco não foi a terceira vítima fatal em 94, em Monaco.

Para o menino que acompanhava, a perda de Roland foi trágica, difícil, mas ao mesmo tempo, por ser um menino, a vida seguiu. Pela falta de compreensão da vida, mal sabia que as coisas estavam “fervendo” em Ímola, no mundo do esporte já se tinha uma comoção grande. Minha lembrança foi de estar na casa de uma pessoa que morava na rua onde eu morava, jantando, e o assunto veio, onde falamos do treino em si e da morte de Ratzemberger, lembro que eu disse “Ele foi reto e ali bateu” e mais nada.

Ratzemberger não pode jamais ser esquecido, pois era um amante da velocidade. Economizou tudo que podia para comprar a vaga na Simtek. Seu sonho de correr na Formula 1 era muito grande, segundo o colega brasileiro e ex piloto Maurizio Sala, que em 2014, falou para o UOL sobre a convivência e a ambição do austríaco para chegar na categoria.

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Confira também o pai, Rudolf, falando sobre Imola e o que mudou na sua vida, em entrevista para o Estadão clicando aqui

Como as corridas na Europa tem o abençoado dom de cair aqui no belo horário das 09hs da manhã, nunca me preocupei em acordar com despertador, mas esse dia, eu acordei por volta de 09h20, ou seja, eu não vi o acidente inicial, entre J.J Letho(que largava em quinto) e Pedro Lamy(largava em vigésimo segundo), também não vi o acidente de Senna, pois quando liguei a TV da Semp Toshiba de tubo, já tinha acontecido. A imagem é muito clara na minha cabeça, do helicóptero, com a equipe médica efetuando os primeiros socorros e aquele silêncio que, mesmo para um menino de seis anos, já o deixou assustado.

Não lembro se vi a corrida dali em diante, também não lembro como recebi a notícia, se vi pelo Cabrini ou se alguém me deu. Lembro-me de ter ficado sem chão, arrasado quando eu soube que meu primeiro ídolo tinha partido, de que aquele que eu tinha pego como primeiro herói não ia mais correr ao redor do mundo, de que aquele que estava me fazendo amar mais e mais este esporte(tanto que eu estava começando a descobrir outras categorias) não ia estar mais ali. Resumindo, fui apresentado a Morte neste final de semana.

Lembro que, claro, chorei muito, de verdade, assim como milhões ao redor do mundo, assim como os japoneses choraram ao vivo na tv de seu país quando deram a notícia.Mas eu não convivia, não o conhecia pessoalmente, não sabia como ele era em termos de caráter.

Como eu era menino, não fazia ideia do tamanho e a dimensão que se formou ao redor do planeta com sua partida. Lembro-me de ter assistido a todo aquele cortejo exibido pela TV GLOBO por completo, desde sua chegada antes do amanhecer em solo brasileiro, até o fim do enterro. Aquele dia me fez entender a comoção que foi e o tamanho de seu nome.

Hoje, 2016, com o advento da Internet, é bem fácil achar corridas do passado e assistí-las. Eu por exemplo, estou assistindo desde 1983 pra cá, para ser mais exato, estou em 1989, no GP da Alemanha, vendo a briga de foice que foi de Ayrton com Prost, e saboreando cada momento que a Formula 1 proporcionou aos fãs da época. Não me incluo nessa, pois eu tinha de um a dois anos.

Nesse primeiro de Maio de 2016, agradeço tanto a Senna, tanto a Ratzemberger, por terem me ajudado, assim como a tantos outros pilotos que vi e vejo, a dedicar meu tempo assistir suas corridas, seja do passado, ou do presente.

Aos dois agradeço ao amor que colocaram em sua profissão, a paixão impregnada para alcançar seus objetivos, aos sacrifícios feitos em pról de suas metas! Jamais serão esquecidos. Nem Senna, nem Ratzemberger!

PS: Dizem que no dia 01/05/1994, o Edgard de Mello Filho ficou praticamente doze horas no ar ao vivo na rádio, falando sobre, trazendo informações. Alguém tem isso? Eu sempre tive muita vontade de ter em mãos este documento e poder ouvir o que o mestre Edgard fez nesse dia.



Cara simples, amante do esporte a motor e que curte outros esportes. Dono do canal Tio Duh no youtube, voltado para gameplay de clássicos de 8,16 e 32 bits. Amante do esporte a motor, considera escrever uma forma de estar mais próximo das pistas!