OPINIÃO: Uma mulher na secretaria-geral da FIFA (E o que você tem a ver com isso?)

Crédito da foto: Reprodução / Twitter Oficial da FIFA

“Fatma é uma mulher de experiência internacional e visão que trabalhou em alguns dos problemas mais desafiantes que passamos. Ela é experiente em criar e liderar equipes e melhorar o modo como organizações trabalham. E, o mais importante para a FIFA, ela entende que a transparência está no coração de qualquer entidade que está funcionando bem.” Foi com essas palavras que o presidente Gianni Infantino anunciou a senegalesa Fatma Samba Diouf Samoura como a nova secretária-geral da FIFA, posto que era ocupado até bem pouco tempo atrás pelo francês Jerôme “chute no traseiro” Valcke, afastado após os escândalos de corrupção na entidade. É a primeira vez que uma mulher ocupa um cargo com tamanha importância na FIFA.

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Fatma Samoura tem 54 anos e um currículo de respeito. Ela é ex-funcionária da Organização das Nações Unidas (a ONU) e foi gestora de logística do Programa Mundial de Alimentação da entidade em 1995. Fatma trabalhou em seis países africanos: Djibouti, Camarões, Chade, Guiné, Madagascar e Nigéria e fala francês, inglês, espanhol e italiano. Antes da ONU, Fatma trabalhou no setor privado, para as Indústrias Químicas do Senegal, especializando-se nas áreas de comércio exterior e distribuição. Ela é graduada na Universidade de Lyon e tem mestrado e doutorado em Relações Internacionais e Comércio Exterior no Institut d’Etudes Supérieures Spécialisées, em Estrasburgo.

“Hoje é um lindo dia para mim. Estou honrada em ser a secretária-geral da FIFA. Eu acredito que esse cargo é um lugar perfeito para as minhas habilidades e experiências, que vou usar para ajudar no crescimento do futebol para todo o mundo”, afirmou Fatma Samoura. Ela ainda vai passar por testes de elegibilidade coordenados por um comitê independente. Se tudo estiver de acordo com as regras da entidade, a tendência é que ela assuma a função de secretária-geral da FIFA no mês de junho.

Bom, temos uma mulher ocupando um dos postos mais importantes da entidade que comanda o futebol mundial, esporte ainda tido por muitos como um espaço predominantemente masculino. E a pergunta que faço é a seguinte: o que você, torcedor, corneteiro e metido a treinador, tem a ver com isso?

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Vamos pensar juntos… É cada vez mais comum vermos mulheres nos estádios de futebol, torcendo, cornetando, xingando e vibrando com os gols e a vitória dos seus clubes preferidos. O número de mulheres jogando, comandando e dirigindo equipes e escrevendo sobre o “velho e rude esporte bretão” também aumentou muito nos últimos anos (apesar do desdém e da desconfiança dos homens, que sempre se viram como “donos” do futebol). E, ao mesmo tempo em que a figura feminina ingressa no futebol (seja na arquibancada, no gramado ou através das redações), a necessidade de ouvir o que ela tem a dizer sobre a maneira com que o esporte é jogado e retratado aumenta consideravelmente.

Estamos em 2016, amigos. Não há mais espaço para aquele velho discurso que diz que “mulher não entende de futebol”. Não há mais espaço para discursos machistas e preconceituosos. Isso fere o próprio princípio básico da prática desportiva. É preciso que nós homens aceitemos que a figura feminina vai conquistar o seu espaço no esporte assim como já conseguiu ocupar outros setores da nossa sociedade. Falamos tanto em renovação, em novas ideias, em diversidade de opiniões e no fim dos desmandos na FIFA, na CBF e no futebol como um todo, e ainda teimamos em repetir velhos “bordões” e velhas atitudes do passado como isso fizesse com que tempos bem mais intolerante do que o que vivemos atualmente fossem voltar.

Infelizmente, ainda vemos torcedores e colegas de imprensa promovendo discursos desse tipo e diminuindo as profissionais que cortam um dobrado para praticar e falar de esporte. Importa menos se ela se preparou, se estudou, se passou por dificuldades para chegar onde chegou. Importa mesmo (para alguns) é se ela é bonita o suficiente para aparecer na telinha da TV e ainda assim, apenas para ser “assistente de palco” ou “garota-propaganda do patrocinador”. Importa mesmo é saber a preferência sexual da mulher que joga futebol ao invés de entender a modalidade e procurar promovê-la. E parece que estes mesmos pensam que a chegada de uma mulher (e uma mulher negra) na secretaria-geral da FIFA não passa de mais uma atitude demagoga dos dirigentes da entidade.

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Não, amigos. É muito mais do que isso. O que acontece na FIFA é histórico. Estamos vendo uma instituição que foi considerada por anos como o retrato do atraso e da corrupção tomando uma atitude e querendo mudar a maneira como ela cuida do seu principal produto: o futebol.

Todos nós que amamos o velho e rude esporte bretão temos muito a ver com a escolha de Fatma Samoura para o cargo de secretária-geral da FIFA. Não apenas por se tratar de uma mulher, mas por reconhecer que elas têm plena capacidade de gerir e comandar qualquer setor da nossa sociedade. E é preciso aproveitar essa oportunidade para dividir os espaços com a figura feminina e ouvir o que cada uma delas tem a dizer sobre o futebol, seja nos gramados ou nas redações pelo mundo a fora. Temos a chance perfeita para promover uma verdadeira revolução no esporte mundial, tornando-o mais tolerante e mais humano. E o fato de se tratar de uma mulher negra só aumenta a importância desse momento.

Toda a sorte do mundo para Fatma Samba Diouf Samoura na secretaria-geral da FIFA. E que os próximos dias só nos tragam boas notícias. Dentro e fora do velho e rude esporte bretão.

Aquele abraço…



Produtor executivo da equipe de esportes da Rádio Nacional do Rio de Janeiro, jornalista e radialista formado pela ECO/UFRJ, operador de áudio, sonoplasta e grande amante de esportes, Rock and Roll e um belo papo de boteco.