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PAPO TÁTICO: Leicester City, o incrível campeão da Premier League 2015/16

Talvez nenhum título tenha sido tão especial quanto esse do Leicester City. Os “Foxes” (raposas, em inglês) passaram de clube candidato ao rebaixamento na Premier League (mais conhecido como Campeonato Inglês) para campeão da temporada 2015/16 em apenas um ano. O titulo não veio em campo, no empate com o Manchester United no domingo passado, mas com uma “ajudinha” do Chelsea, que arrancou um empate com o Tottenham em Stanford Bridge nesta segunda-feira. Muito mais do que uma simples zebra, os comandados do italiano Claudio Ranieri mostraram um futebol bastante eficiente e uma estratégia de jogo muito bem definida. Mesmo tachado por alguns jornalistas de “equipe pragmática ao extremo”, as Raposas mostraram que merecem (e muito) levantar o primeiro campeonato inglês dos seus 132 anos de história.

Luiz Ferreira
Produtor executivo da equipe de esportes da Rádio Nacional do Rio de Janeiro, jornalista e radialista formado pela ECO/UFRJ, operador de áudio, sonoplasta e grande amante de esportes, Rock and Roll e um belo papo de boteco.

Crédito: Crédito da foto: Reprodução/ Facebook / Premier League

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É bem verdade que o estilo de jogo do Leicester City está bem longe de um Barcelona, um Real Madrid ou um Bayern de Munique. Os números da equipe, no entanto, são incontestáveis. Os “Foxes” foram campeões nacionais com duas rodadas de antecedência. São vinte e duas vitórias, onze empates e apenas três derrotas num total de 36 partidas. A equipe de Claudio Ranieri marcou 64 gols e sofreu apenas 34 (média de menos de um gol sofrido por jogo), fato que comprova a eficácia do esquema tático proposto pelo italiano. O 4-4-2 (ou 4-4-1-1 para quem gosta de dividir o esquema em quatro linhas) ataca em bloco com muita velocidade e se fecha em duas linhas de quatro quando o adversário tem a bola.

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No gol, Kasper Schmeichel (filho daquele mesmo Schmeichel que brilhou pelo Manchester United) foi um dos grandes responsáveis pela baixa média de gols sofridos. O jamaicano Wes Morgan comanda a equipe dentro de campo com fibra e experiência, auxiliado pelo alemão Robert Huth. mais à frente, vale destacar a fibra do francês N’Golo Kanté e do britânico Danny Drinkwater na proteção da dupla de zaga e na qualificação da saída de bola. O setor ofensivo conta com os gols de Jamie Vardy (o “atacante-operário”), a velocidade do japonês Shinji Okazaki e a categoria do argelino Riyad Mahrez. Uma equipe equilibrada e com uma proposta bem clara (e incrivelmente eficiente) de jogo. Palmas para as “Raposas”.

O 4-4-1-1 de Claudio Ranieri tem força pelos lados do campo com os “wingers” Mahrez e Albrighton, solidez defensiva com Kasper Schmeichel, Wes Brown e Robert Huth, e gols com Jamie Vardy. Título mais do que merecido. Campinho feito no Tactical Pad.

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De todos os jogadores do elenco campeão da Premier League 2015/16, um nome merece destaque. Chamado de “mágico” pelos companheiros de equipe, o argelino Riyad Mahrez é hoje um dos atletas que melhor cumpre a função de “winger” em todo o mundo. Não foi à toa que o camisa 26 foi eleito o melhor jogador do Campeonato Inglês, feito que nenhum outro africano (nem mesmo Didier Drogba) conseguiu. Mahrez não faz apenas o famoso “vai e vem” pelo lado direito. Ele ataca como ponta à moda antiga, entrando em diagonal e buscando a tabela com o artilheiro Vardy (vinte e dois gols na Premier League), e marca com a mesma qualidade. Foram 17 gols e 11 assistências nessa temporada.

A jogada pelo lado direito foi uma das marcas registradas do Leicester City nessa campanha do seu primeiro título nacional. Mahrez recebe a bola pelo lado direito e, além de buscar a linha de fundo ou a tabela com Vardy, ele também busca o meio para armar as jogadas com o ótimo Okazaki e abre o corredor para a descida do bom lateral Danny Simpson. Também era comum ver Mahrez chegando na frente quase como mais um atacante enquanto Albrighton faz o contraponto defensivo pela esquerda, mas sem deixar de aparecer no setor ofensivo. Com jogadores talentosos e disciplinados taticamente, o Leicester City conseguiu superar os “figurões” da Premier League e conquistar o tão sonhado título.

A movimentação de Riyad Mahrez pelo lado direito, tanto na marcação como no ataque, é uam das marcas registadas do Leicester City. Campinho feito no Tactical Pad.

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Além de Mahrez e Vardy, o francês Kanté é outro jogador que merece destaque na equipe inglesa, por exercer com perfeição o papel de “box-to-box”, o segundo homem de meio-campo no 4-4-2 tipicamente britânico. Outros, como o lateral Fuchs, o volante Drinkwater e o argentino Ulloa (titular em algumas partidas) também merecem ser lembrados. De fato, não há nada de revolucionário nesse esquema tático de Claudio Ranieri. Por outro lado, as “Raposas” trazem consigo todos os elementos de uma equipe vencedora: união, coletividade, disciplina tática, determinação, foco e superação. Não é somente uma equipe que executa muito bem um esquema tático simples. É uma equipe dedicada e lutadora.

O futebol tem dessas coisas. Nem sempre o revolucionário ou o genial serão os vencedores (vide a Hungria em 1954 e a Holanda vinte anos depois). O “velho e rude esporte bretão” nos mostra que os premiados são aqueles que persistem e que acreditam em si mesmos, os que perseveram diante das adversidades e os que buscam ser resilientes e tirar de cada problema a motivação para cada dia. O Leicester City será mais uma equipe que “subverteu a lógica dos fatos”. Assim como tantas outras. No entanto, é preciso enxergar nos “Foxes” algo além da “sorte” ou do “pragmatismo”. Existe tática, trabalho sério, organização, planejamento, disciplina, cumplicidade e, é claro, muito coração.

O título da Premier League 2015/16 está em ótimas mãos.