PAPO TÁTICO: A fibra chilena na grande final da Copa América Centenário

Parecia filme repetido, mas não era. Argentina e Chile faziam mais uma final de Copa América (a segunda seguida) e, assim como no ano passado, o título só foi decidido na disputa por penalidades depois de cento e vinte minutos sem gols no MetLife Stadium, em Nova Jersey. Nervosismo, angústia, dor, pranto e ranger de dentes nas arquibancadas. Mas sobretudo um grande jogo. E quiseram os deuses do futebol que “La Roja” ficasse com o bicampeonato da competição e que a Albiceleste ficasse com o seu terceiro vice consecutivo em três anos. E para deixar essa final ainda mais marcante, Lionel Messi, o melhor jogador do mundo, isolou a sua cobrança. O Chile merece o título pela fibra, pela garra e pelo jogo coletivo apresentado durante toda a Copa América. Já a Argentina fica com o peso de ter uma geração brilhante, porém sem títulos.

Luiz Ferreira
Produtor executivo da equipe de esportes da Rádio Nacional do Rio de Janeiro, jornalista e radialista formado pela ECO/UFRJ, operador de áudio, sonoplasta e grande amante de esportes, Rock and Roll e um belo papo de boteco.

Crédito: Crédito da foto: Reprodução / Site oficial da Conmebol

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Antes de falar da partida em si, é importante lembrar que vimos uma demostração daquilo que o futebol sul-americano tem de melhor. Tanto argentinos como chilenos apresentaram propostas de jogo modernas e bem executadas pelas duas equipes. Se Gerardo “Tata” Martino baseava seu esquema tático no talento de Messi e na polivalência de jogadores como Banega, Di María e Mascherano, o técnico Juan Antonio Pizzi resgatava elementos de seu antecessor (o também argentino Jorge Sampaoli) mas dava seu toque pessoal ao explorar o jogo coletivo e a inteligência tática de atletas como Vidal, Sánchez, Vargas e Aránguiz. É por essas e outras que não é difícil concordar com Tite, técnico da Seleção Brasileira, quando este afirmou que “La Roja” joga o melhor futebol do continente na atualidade.

É bom que se diga que o jogo foi franco, com chances de gols para os dois lados. Por ter mais qualidade individual (leia-se: Messi), a Argentina teve um pouco mais de volume ofensivo do que o Chile nos primeiros minutos da primeira etapa. “Tata” Martino mantinha o 4-3-3 com variação para o 4-4-1-1 com Messi circulando por todo o campo e armando as jogadas para as chegadas de Banega (mais uma ótima atuação), Biglia (substituto do excelente Fernández, lesionado) e Di María. Já Juan Antonio Pizzi mantinha o seu 4-1-4-1 usual, com Fuenzalida fechando o lado direito da linha de quatro meias, permitindo que Aránguiz e Vidal para se juntassem a Sánchez e Vargas no ataque. Nesse duelo tático, a equipe portenha levava a melhor por fechar melhor os espaços e dar mais velocidade nas tramas ofensivas.

Messi se movimentou por todo o campo de ataque no 4-3-3 / 4-4-1-1 de “Tata” Martino. Já o Chile se segurava na defesa jogando no 4-1-4-1 usual de Juan Antonio Pizzi, mas sem abrir mão das jogadas de ataque. Bom duelo tático no MetLife Stadium.

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Nos minutos finais da primeira etapa, o árbitro Héber Roberto Lopes mostrou o segundo cartão amarelo para o volante chileno Marcelo Díaz (justo, na minha visão) e o vermelho para o lateral argentino Marcos Rojo (um tanto exagerado, na minha humilde opinião). Com dez jogadores de cada lado, as duas se reorganizaram numa espécie de 4-3-2, sendo que Aránguiz e Fuenzalida se revezavam na proteção da zaga no lado chileno e o zagueiro Funes Mori foi para a lateral esquerda com Mascherano recompondo a defesa no lado argentino. E quem pensava que a partida fosse perder emoção, se enganou redondamente. As duas equipes seguiam se lançando ao ataque e criando boas chances de ampliar. No entanto, o zero cismava em não sair do placar nem mesmo com as mudanças promovidas pelos dois treinadores.

Mesmo com a prorrogação e o desgaste físico e mental, tanto Argentina como Chile seguiam criando oportunidades; Prova disso são as defesas cinematográficas de Sergio Romero e Claudio Bravo em jogadas cabeçadas de Vargas e Agüero, respectivamente, ainda no primeiro tempo da prorrogação. Messi seguia comandando as ações ofensivas no lado portenho, assim como Vidal o fazia no lado chileno. Ao mesmo tempo, os treinadores tentavam dar sangue novo às suas equipes. “Tata” Martino apostava na velocidade do meia-atacante Lamela e Juan Antonio Pizzi apostava na presença de área e na força física do atacante Castillo. O jogo seguia emocionante, apesar das poucas chances de gol e do natural cansaço das duas seleções, evidenciado pelos toques de lado nos cinco minutos finais na segunda etapa do tempo extra.

Com as expulsões de Marcelo Díaz e Marcos Rojo, Argentina e Chile se reorganizaram numa espécie de 4-3-2 com Messi e Vidal comandando a criação das jogadas. Apesar das boas chances, o zero não saiu do placar até o final da prorrogação.

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Vale lembrar que decisão por pênaltis não é loteria. É treino, técnica e controle dos nervos. Coisa que Arturo Vidal e Lionel Messi não tiveram nas primeiras cobranças. Aliás, quem poderia dizer que justo o melhor jogador do mundo fosse isolar a sua cobrança hein? Coisas do velho e rude esporte bretão. Se a Argentina teve mais técnica com a bola rolando, o Chile teve mais fibra e mais garra, fato demostrado por Claudio Bravo na defesaça realizada no pênalti cobrado por Biglia. A vitória por quatro a dois saiu dos pés do volante Francisco Silva, que entrou em campo para reforçar a marcação à frente da zaga e marcar… Messi. O Chile comemorava mais um título de Copa América (o segundo na história) e coroava a melhor geração da história do país. Já a Argentina carregava o peso de um jejum de títulos que vai durar 25 anos.

Difícil dizer o que se passa com Messi quando ele veste a camisa albiceleste. Ao contrário do que se fala nas redes sociais, não o vejo como “pipoqueiro” ou como “jogador de clube”. A Argentina teve a melhor campanha da competição e apresentou um futebol vibrante e ofensivo, mostrando que é possível jogar no ataque sem se descuidar da defesa. Assim como a geração de Zico, Sócrates, Falcão, Toninho Cerezo, Júnior e vários outros craques, parece que a sua geração não nasceu para conquistar títulos, mesmo sendo a mais brilhante desde o início dos anos 1990. Lionel Messi é o melhor jogador do mundo na atualidade. Mas a falta de um título de expressão com a Albiceleste é algo que será lembrado por muito tempo. Assim como aconteceu com vários outros jogadores.

A Copa América Centenário está em ótimas mãos. O Chile de Juan Antonio Pizzi mostrou fibra e jogou um futebol moderno. E o bicampeonato da competição é a prova de que “La Roja” está preparada para alçar vôos mais altos a partir de agora. Se em 2014, o escrete chileno parou na trave (e no goleiro Júlio César), toda essa geração de jogadores pode fazer bonito em 2018, em terras russas.