Primeiro medalhista olímpico do boxe brasileiro relembra ‘noitada’ com Ali

Responsável pela primeira medalha olímpica do boxe brasileiro, o bronze na Cidade do México, em 1968, Servílio de Oliveira esteve em ação ao mesmo tempo em que a lenda Muhammad Ali brilhava nos ringues. Em entrevista publicada pelo Diário do Grande ABC, domingo (5), o paulistano relembrou o único dia em que se encontrou com o estadunidense, que morreu no último sábado (4).

Márcio Donizete
Jornalista desde 2012, com passagens pelos jornais ABCD Maior e Diário do Grande ABC, além do canal NET Cidade de TV. Foi repórter colaborador, líder de colaboradores e editor no Torcedores.com. Apresenta o Lente Esportiva ABC em lives no Facebook e Youtube.

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Aconteceu em 1971, durante uma “noitada de boxe” no Ginásio do Ibirapuera. “Após a volta aos ringues (banimento do boxe por três anos depois de recusa à Guerra do Vietnã), uma das lutas dele foi no Brasil. E tive a honra de participar da noitada junto a ele”, contou Servílio. Na época, Ali enfrentou e superou o argentino Alberto Loveli Junior, em um combate exibição que antecedeu ao confronto do brasileiro, que mediu forças com o mexicano Josep Garcia e também triunfou.

“Por causa da televisão, trocaram as lutas. A minha passou a ser a principal e a dele foi antecipada. O ginásio estava cheio e minha luta salvou o programa (da TV Tupi e da TV Cultura, que transmitiram aos duelos ao vivo). Foram dez rounds de cacete puro”, recordou. “O público que ia assistir ao Ali torceu por mim”, emendou.

Nos vestiários, ele teve um rápido contato com o lendário boxeador e foi elogiado pelo ídolo, que pediu para o paulista dar golpes em suas palmas das mãos. Após isso, recebeu um sinal positivo que indicava aprovação para ser um grande atleta, algo que acabou se confirmando com o passar dos anos.

Legado dentro e fora dos ringues

Conhecedor da carreira de Muhammad Ali, por ser de sua mesma geração, Servílio de Oliveira exaltou a passagem da lenda do boxe pelo esporte – e fora dele também –, em trecho inédito da entrevista.

“Eu penso que ele deixou um legado no marketing. Sabia provocar, desdenhava os adversários. Falava: ‘Você é feio’, tentava desmoralizar. Ele dizia o round em que iria ganhar a luta, antecipava o resultado”, declarou Servílio, dizendo que o estadunidense foi um dos propulsores da provocação nas pré-lutas, algo usado até hoje na modalidade.

Servílio lembrou que o companheiro foi um dos principais nomes mundiais em engajamentos sociais e civis. “Ele é um ícone do esporte, era uma pessoa multiplicadora (de opinião). Procurava orientar seus iguais nos Estados Unidos em batalhas contra o racismo. Sabia resolver os problemas na conversa e também no enfrentamento”, elogiou o ex-pugilista brasileiro, hoje com 68 anos e comentarista da “nobre arte” pela ESPN Brasil nos Jogos Olímpicos.