O perigo dos lobos solitários durante os Jogos Olímpicos do Rio

As últimas semanas têm revelado uma face bastante brutal do terrorismo: ele não está restrito a fronteiras e está longe de ser exclusividade de países em conflito. Na verdade, o que temos visto é que os países que estão se tornando alvos são aqueles com participação na coalizão que tenta acabar com o poder e o alcance do Estado Islâmico (EI), o grupo terrorista que se aproveita do caos, do vácuo de poder ou da guerra civil na Síria e no Iraque para espalhar sua ideologia de medo.

Redação Torcedores
Colaborador do Torcedores

Crédito: Crédito da foto: Fernando Soutello/Rio 2016

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O próprio EI divulgou, nesta semana, nas redes sociais— espaço que tem usado habilmente como ferramenta de recrutamento e de propaganda— um infográfico mostrando o número de vítimas em ataques recentes nos EUA, França, Bélgica, Alemanha, entre outros. Em muitos desses ataques, como na boate gay em Orlando ou em Nice, quando um caminhão ziguezagueou ao longo de 2 km de um calçadão, matando quase 90 pessoas, os autores são lobos solitários, pessoas não necessariamente filiadas a grupos terroristas mas que os seguem ideologicamente, podendo decidir agir de forma autônoma.

A recorrência de ataques desse tipo, cuja responsabilidade geralmente é reconhecida pelo EI, deveria assustar de verdade os organizadores e aqueles que pretendem assistir aos Jogos Olímpicos no Rio de Janeiro: atos assim são relativamente fáceis de realizar, embora exijam certo nível de organização e de preparo. Nesses dois casos— Orlando e Nice— os ataques foram feitos em locais e momentos de grande concentração de civis, de grande simbolismo — assim como o WTC no Onze de Setembro— e em que as câmeras de TV já estão prontas e apontadas (embora hoje, com celulares e redes sociais, as primeiras imagens circulem bem mais rápido do que as das redes de TV).

Quando o contrabando de armas e explosivos para atentados ficou difícil, terroristas em Israel passaram a usar veículos (como ocorreu em Nice) como armas para matar pessoas. Mesmo o Onze de Setembro foi feito assim: era substancialmente mais fácil sequestrar aviões e atirá-los contra alvos de grande visibilidade do que entrar em um aeroporto ou no World Trade Center com uma bomba ou um cinturão explosivo sem ser “neutralizado” antes de apertar o botão. O desfecho foi o que já conhecemos.

Precisou acontecer Nice, com a morte de ao menos 84 pessoas e outra centena de feridos, metade dos quais “entre a vida e a morte”, segundo autoridades locais, para que o governo brasileiro anunciasse a decisão de revisar todo o plano de segurança da Rio2016. O tema, mesmo entre tantos problemas visíveis na organização dos Jogos, ainda é o que mais chama a atenção – ou que pelo menos deveria.

É natural que a organização de um evento com as proporções e o alcance das Olimpíadas esteja atenta aos acontecimentos ao redor do mundo. Assim se espera. Mais ainda em um país que já apareceu no radar do Estado Islâmico como alvo declarado específico — o que foi confirmado pela agência brasileira de inteligência, a Abin.

Munique, 1972
Em se tratando de Jogos Olímpicos, há precedentes. O mais grave ocorreu em 1972, durante os jogos em Munique. Na segunda semana de competições, terroristas do Setembro Negro sequestraram atletas da delegação israelense em uma ofensiva que foi transmitida ao vivo pelas redes de TV que já estavam posicionadas para cobrir o evento — e que fizeram o mundo segurar o fôlego, aflito (assim funciona o terrorismo, afinal).

O desfecho do que ficou conhecido como Massacre de Munique foi a morte de todos os 11 atletas depois de uma intervenção mal planejada e executada de forma ainda pior pelas forças alemãs de segurança. Olimpíadas após Olimpíadas, parentes de parte dos atletas vão ao país-sede para reivindicar uma homenagem aos mortos. Nunca tiveram sucesso.

França e Brasil falam sobre terem desconversado a respeito de uma informação segundo a qual a delegação do país europeu no Rio poderia ser alvo de um ataque do EI durante a Olimpíada. Será a repetição de Munique 1972, dessa vez com o papel das redes sociais? Não seria à toa. O papel recente da França na coalizão que tenta desestruturar o EI deixa o país em clara evidência. Os ataques coordenados de novembro do ano passado em Paris, que mataram 130 pessoas, 89 delas em um importante teatro da capital, não deixam negar isso.

O Rio de Janeiro não precisa entrar na lista das cidades que serviram de palco do terrorismo. Mas a crise institucional generalizada no Brasil, os problemas estruturais (do surto de zika às obras inacabadas na cidade ou na Vila dos Atletas), as greves anunciadas das forças de segurança, entre outros problemas, dão a amarga sensação de que a primeira Olimpíada no hemisfério sul poderá terminar com um saldo além de medalhas e histórias de superação.

Ironicamente, quem ri de tudo isso é justamente o povo brasileiro, tão distante e desacostumado com a realidade da ameaça terrorista. Quando a Abin foi às redes sociais para ensinar a população a identificar pessoas suspeitas (o que pode significar a diferença entre uns poucos — ou nenhum — e dezenas de mortos e feridos), virou piada. O brasileiro, muito criativo, gosta de rir de tudo e de achar que, em casa, nunca vai acontecer. Tomara esteja certo. Até lá, entretanto, melhor ficar atento e levar o assunto a sério.

(*) Gabriel Toueg é jornalista, com experiência em coberturas internacionais no Oriente Médio e na América Latina. É também analista internacional.