Especial Corinthians 106 anos: o ressurgimento de um ídolo

O dia 8 de março de 2009 nunca mais será o mesmo na história do futebol. Este foi o dia em que Ronaldo, o Fenômeno, dava mais uma volta por cima em sua carreira ao marcar seu primeiro gol com a camisa do Corinthians, justamente contra o meu Palmeiras. Sim, este que vos escreve é palmeirense doente, esteve em Presidente Prudente no dia e, mesmo com dor no coração, se rendeu à maestria do camisa 9 alvinegro.

Rogério Lagos
Colaborador do Torcedores.com e palmeirense.

Crédito: Reprodução/Youtube

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Como falar de Corinthians e não falar de Palmeiras? É praticamente impossível falar sobre a história de um desses clubes sem citar o rival em algum momento. Dizem os sábios do futebol, inclusive, que um só existe por conta da existência do outro. Filosofias à parte, no entanto, este especial sobre os 106 anos do Timão precisa do Verdão. Até porque o foco desde texto aconteceu justamente em um dérbi paulista.

Poucas foram as vezes que eu assisti a um jogo do Palmeiras fora do Palestra Itália ou do Pacaembu. Dá pra contar nos dedos. Mas esse clássico contra o Corinthians eu queria ir de qualquer jeito. O motivo? Não sabia bem ao certo. Confesso que tive preguiça de encarar as primeiras seis horas de ônibus para Presidente Prudente, mas o jogo – em seu final, valeu a pena. E daí eu entendi o motivo de eu querer tanto assisti-lo “in loco”.

Deixo bem claro aos leitores corintianos: sou Verdão. Sempre fui e sempre vou ser. O Corinthians sempre será o grande rival. Mas que culpa tenho eu por Ronaldo resolver jogar justo no time de vocês? O cara sempre foi o melhor jogador brasileiro que eu vi jogar. Eu precisava assistir a um jogo dele, então que fosse em uma partida do Verdão!

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O JOGO

O Palmeiras vencia por 1-0, mantinha a liderança e a freguesia da época sobre o rival. O técnico Mano Menezes olhava a todo momento para o banco de reservas e eu, no fundo, torcia pela entrada de Ronaldo. Não queria que ele marcasse, apenas queria vê-lo jogando. E aconteceu: aos 18′ do 2º tempo, o camisa 9 entrou na vaga de Escudero.

Daquele momento até o fim do jogo, não prestei mais a atenção em nada, apenas na movimentação de Ronaldo dentro de campo. Seu posicionamento, domínio de bola, orientação dentro de campo… mas ao mesmo tempo torcia por uma chegada mais dura de Pierre nele, de Danilo, Maurício Ramos, Marcão… vai entender, né? A minha vontade de ver o fenômeno em campo contrastava a todo segundo com a camisa que ele vestia.

Defini na minha cabeça que ter ido até Presidente Prudente tinha sido uma burrada. Pela viagem cansativa, pelo perigo do clássico (infelizmente, entre torcidas) e pelo perigo iminente de sentir, por menor que fosse, uma “alegria” se Ronaldo fizesse um gol.

Não deu nem tempo de tirar esse pensamento da cabeça.

Quem chega e quem sai dos clubes?

 

Cruzamento da direita em cobrança de escanteio de Douglas, o zagueiro Marcão falha, Bruno sai mal do gol e lá estava ele, Ronaldo, o Fenômeno, escorando para o fundo do gol de cabeça.

Vocês sabem quando um personagem do cinema fica atônito a ponto do filme tirar o som exterior e só mostrar o olhar fixo da pessoa em um determinado lugar? Pois foi o que aconteceu comigo. Eu não escutei os resmungos alviverdes, tampouco a comemoração corintiana. Eu só enxergava Ronaldo. Eu só lembrava de suas lesões, suas recuperações e suas conquistas.

No fundo do meu coração eu estava feliz com aquele gol, mas ao mesmo tempo desmoronei mentalmente, fisicamente e emocionalmente na mesma velocidade que o alambrado do estádio cedeu no momento em que o camisa 9 foi comemorar com a galera. Era o pior e melhor sentimento do mundo. Parecia que eu estava traindo o Palmeiras, mas na verdade eu estava comemorando o Ronaldo, o ídolo do futebol brasileiro.

Claro que tudo isso demorou uma fração de segundos e, ainda mais óbvio, que tudo em silêncio. Caso contrário eu não estaria aqui escrevendo esse texto neste momento… (risos)

Xinguei muito o Bruno por sair mal do gol. O zagueiro Marcão por ter falhado. O sistema defensivo alviverde como um todo por ter levado o gol de empate aos 47′ do segundo tempo. O Ronaldo de “gordo”, “acabado”. E, claro, me xinguei muito por ter sido falso com as minhas próprias emoções naquele momento.

No longo caminho de volta para São Paulo fiquei remoendo tudo o que aconteceu. O Palmeiras seguia sendo líder do Paulistão na época, mantinha sua invencibilidade desde 2006 frente ao rival e tudo estava, digamos, numa boa. Mas o que me incomodava tanto? O fato de, indiretamente, ter comemorado um gol do Corinthians contra o meu time do coração.

RESOLUÇÃO

Hoje, sete anos depois, entendo esse jogo não como um Palmeiras e Corinthians qualquer. Não me importo com o empate na partida, muito menos com o título estadual alvinegro que viria rodadas depois. O que ficou marcado na minha memória foi um momento histórico: aquele que em um ídolo do futebol brasileiro ressurgia, como uma fênix.

E hoje também falo de coração aberto: ainda bem que foi contra o Palestra. Como dizem os filósofos do futebol citados acima, o que seria do Verdão se não existisse o Timão? E o que seria do Corinthians se não existisse o Palmeiras? A história de um se dá pela grandeza do outro. Neste capítulo específico da história do dérbi, tive o privilégio de testemunhar mais uma etapa marcante desta história tão linda e rica do futebol brasileiro.

Obrigado Palmeiras por me fazer o torcedor mais feliz do mundo!
Obrigado Ronaldo, por ter me dado o prazer de vê-lo jogar!
Obrigado Corinthians, por ter trazido o Fenômeno de volta ao futebol brasileiro. E parabéns pelos 106 anos!

Foto: Reprodução / YouTube