Atleta vê evolução da esgrima do Brasil em Olimpíadas, mas teme corte de investimentos

A esgrima do Brasil teve um papel de destaque nas Olimpíadas do Rio 2016. Mesmo sem a conquista de medalhas nas disputas individuais e por equipe, o país teve seu melhor desempenho da história nos Jogos. Dois atletas chegaram às quartas de final, algo que jamais havia acontecido: Nathalie Moellhausen, na espada feminina, e Guilherme Toldo, no florete masculino. Dez vezes campeã nacional no florete, Tais Rochel, 32 anos, caiu na segunda fase, mas aprovou seu desempenho em solo carioca.

Márcio Donizete
Jornalista desde 2012, com passagens pelos jornais ABCD Maior e Diário do Grande ABC, além do canal NET Cidade de TV. Foi repórter colaborador, líder de colaboradores e editor no Torcedores.com. Apresenta o Lente Esportiva ABC em lives no Facebook e Youtube.

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“Fiz bons assaltos. Na primeira luta fiz 15 a 0 na saudita (Lubna Alomair), e isso me deixou bem otimista, porque em uma Olimpíada a gente não pode menosprezar ninguém. Depois, joguei de igual para igual com a (Aida) Shanaeva, a quarta melhor do mundo, e bem respeitada”, conta Tais em entrevista ao Torcedores.com. Diante da russa Aida Shanaeva, quarta colocada no Rio, ela perdeu por apenas dois pontos de diferença: 15 a 13, ficando próxima da vaga nas oitavas. “Consegui atingir o nível, de igual para igual”, comemora.

A esgrimista, do EC Pinheiros, vê que a modalidade evoluiu bastante nos últimos anos, algo reconhecido pela torcida, que fez até uma espécie de “La Bombonera” no Riocentro para apoiar os brasileiros. “Há alguns anos, esse (bom) nível não acontecia. A gente enfrentava atletas desse nível e tomava uma ‘lavada’ logo de cara. O legal foi que a galera sentiu isso e ficou torcendo, isso motivou bastante os atletas, inclusive eu. Me senti bem motivada. Alguns veículos até classificavam como ‘caldeirão da esgrima’, porque tinha uma torcida muito forte. A galera curtiu mesmo”, diz.

Parte desse trabalho se deve aos investimentos que a modalidade recebeu para esse ciclo olímpico, e que devem ser revistos com o fim dos Jogos Olímpicos devido à crise financeira que atinge o Brasil. Para Tais, caso isso aconteça, será a interrupção de um desenvolvimento do esporte. “O que a gente tem falado bastante e eu tenho reforçado, é que esse nível que a gente chegou foi positivo. Mas para a gente ir melhor, a gente precisa continuar com os investimentos que tivemos até hoje, porque se a gente não continuar, vamos perder todo esse trabalho que foi feito”, avisa.

Confira abaixo a entrevista, na íntegra, com Tais Rochel:

Torcedores.com –  Como foi a repercussão da esgrima brasileira nas Olimpíadas?

Tais Rochel – O legal da esgrima não foi só o fato de a gente ter participado das Olimpíadas, o legal foi os resultados. Apesar de não termos chegado a medalhas, a gente teve resultados históricos, como a Nathalie Moellhausen (quartas de final da espada individual feminina) e Guilherme Toldo (quartas de final do florete individual masculino).

Tais Rochel chegou entre as 32 melhores esgrimistas do mundo no Rio 2016 - Crédito da foto: Getty Images

Tais Rochel chegou entre as 32 melhores esgrimistas do mundo no Rio 2016 – Crédito da foto: Getty Images

T.com – E o seu desempenho?

TR – Eu fiquei feliz, na verdade, é que eu fiz bons assaltos. Na primeira luta fiz 15 a 0 na saudita (Lubna Alomair), e isso me deixou bem otimista, porque em uma Olimpíada a gente não pode menosprezar ninguém. Depois, joguei de igual para igual com a (Aida) Shanaeva, a quarta melhor do mundo, e bem respeitada. Na verdade eu não respeito, né (risos). Eu não queria respeitar, mas não posso tirar o mérito da minha rival, ela é bem forte. Consegui atingir o nível, de igual para igual.

T.com – A visibilidade do esporte foi boa nos Jogos, ajudou o Brasil?

TR – A gente teve uma visibilidade muito boa, até porque foi bem no começo das Olimpíadas. Na esgrima não tem favorito. A Ariana (Errigo, da Itália), que é a melhor do mundo, caiu quase na mesma fase que eu. Todo mundo pode ganhar. O nível que os atletas tem em uma Olimpíada é o mesmo. E o Brasil conseguiu atingir esse nível.

T.com – E agora, o que esperar da modalidade no país para os próximos anos? 

TR – O que a gente tem falado bastante e eu tenho reforçado, é que esse nível que a gente chegou foi positivo. Mas para a gente ir melhor, a gente precisa continuar com os investimentos que tivemos até hoje, porque se a gente não continuar, vamos perder todo esse trabalho que foi feito.

E não adianta, para ser campeão olímpico não vai ser em quatro, oito anos. Vamos ser a partir de 12, 20 anos. A gente tem de aproveitar essa cultura que adquirimos nos Jogos Olímpicos, essa cultura de assistir outros esportes, fora vôlei e futebol. Aproveitar esse gancho e todo mundo se ajudar, desde governo a empresas privadas, que precisam acreditar que o investimento em outros esportes vale a pena; da mídia divulgar e dar abertura na divulgação de outros esportes, e até mesmo do público assistir. Eu acho que a Olimpíada despertou um interesse muito novo, e esse é um dos grandes legados que a Olimpíada deixa para a população.

Um exemplo disso é a Grã-Bretanha, que depois de Londres mantiveram o investimento e terminaram em segundo lugar no quadro de medalhas. Isso foi um grande feito que uma Olimpíada em casa faz e que a gente tem de aproveitar essa deixa. Todo mundo está na expectativa de como vai ser esse pós-Olimpíada, eu estou esperando uma resposta de alguns patrocinadores, se vão continuar, porque quero manter esse ciclo olímpico. Só com investimento a gente vai ter continuidade nesse ciclo, e, obviamente, após esse resultado, que foi expressivo, mesmo sem medalha, quero buscar mais em Tóquio, caso me classifique.

Crédito da foto: Reprodução/Youtube/Time Brasil

Tais Rochel tem 32 anos e possui dez títulos brasileiros do florete – Crédito da foto: Reprodução/Youtube/Time Brasil

T.com – Você treinou na Itália antes de competir no Rio 2016. Qual a diferença da estrutura na Europa do que aqui?

TR – A Itália é uma das grandes potências da esgrima e tem as melhores esgrimistas do mundo. Resolvi ir para lá treinar junto com meu técnico. Apesar daqui estar aumentando o nível, esse nível foi atingido porque fizemos esse intercâmbio fora do país. Se não fosse isso a gente não conseguiria se desenvolver e trazer essa esgrima internacional para o Brasil.

A gente ainda depende muito desse intercâmbio e de investimento e, consequentemente, dependemos de investimento para a gente continuar morando fora. Quem sabe no futuro, em longo prazo, a gente consiga não depender desse intercâmbio, com um nível tão alto da nossa esgrima que faça a gente não precise treinar fora. Os Estados Unidos conseguiram atingir esse patamar, mas a gente ainda precisa se desenvolver mais para adquirir essa independência futuramente.

T.com – O que você tirou de lição do Rio e que pode levar para Tóquio?

TR – Independentemente do que as pessoas falem, a gente tem de acreditar em si mesmo, porque uma das lições que tirei, é que se a gente escutar os outros, a gente não sai do lugar. O que importa é você fazer de tudo para chegar no objetivo. Se chegará ou não, não tem como saber, o importante é você fazer da melhor forma o que você acredita.

Tive muita lesão recentemente, mas não desisti. Algumas pessoas chegaram a me descartar, porque caí de primeiro para terceiro no ranking nacional, foi um ano difícil. O último ano (2015) começou super mal para mim e terminei em primeiro no ranking, algo que as pessoas desacreditavam. Não me deixo me abater pelas opiniões alheias. Claro que procuro ouvir o que é bom, o que não é bom a gente descarta, releva.

Tais Rochel em ação nas Olimpíadas Rio 2016 - Crédito da foto: Reprodução/Twitter/Time Brasil

Tais Rochel em ação nas Olimpíadas Rio 2016 – Crédito da foto: Reprodução/Twitter/Time Brasil

É fácil desistir do que persistir. Para persistir você tem de trabalhar, e trabalho é você abrir mão de muitas coisas, de se sacrificar. Tirei isso de lição e consegui atingir onde eu queria, apesar das dificuldades. No final estava bem convicta de que ia me classificar, e fiquei feliz com a classificação e de ter jogado uma esgrima de alto nível nos Jogos. O resultado não foi bem o que eu queria, mas atingi o alto nível.

Isso me deixou animada para mais um ciclo. As pessoas podem falar que eu estou velha, que estou experiente, que eu não vou aguentar, mas eu realmente não ligo. Eu aprendi a não ligar pelo o que os outros falam, e sim para o que eu realmente acredito.

T.com – O que fazer agora, depois dos Jogos? Vai descansar? Quando volta a competir?

TR – Irei viajar (viajou para Fortaleza). Estou muito feliz de poder ir viajar sem a mala da esgrima. Já faz alguns anos que não me dou esse direito (risos). Mas em setembro volto aos treinos, pois final do mês tem torneio nacional em São Paulo e não quero e não posso chegar sem ter feito nada (de treinamento).