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PAPO TÁTICO: Alguns fatores que explicam o inédito (e vexatório) rebaixamento do Internacional

O rebaixamento do Internacional para a Série B do Brasileirão pode ser explicado de diversas maneiras. Uns preferem apontar os erros cometidos dentro de campo e a atuação pífia de determinados nomes do caro e inchado elenco colorado. Outros apontam dedos para a diretoria, que optou por se agarrar a conceitos completamente arcaicos na escolha dos treinadores do time. E ainda existem aqueles que colocam tudo no bolo e observam um processo que se iniciou ainda no ano passado, depois da saída de Diego Aguirre depois da eliminação na Copa Libertadores da América e da histórica goleada sofrida no jogo contra o Grêmio, antes da chegada de Argel Fucks. Diante do que se viu em 2016, fica muito difícil apontar apenas um fator ou apenas um culpado. A página mais triste da história do Internacional foi escrita com a soma dos elementos apontados acima e outros que ainda serão identificados. Uma coisa é certa: ninguém comanda um clube baseado no “achismo de torcedor” e sai impune. A diretoria colorada acabou entendendo isso da pior maneira possível.

Luiz Ferreira
Produtor executivo da equipe de esportes da Rádio Nacional do Rio de Janeiro, jornalista e radialista formado pela ECO/UFRJ, operador de áudio, sonoplasta e grande amante de esportes, Rock and Roll e um belo papo de boteco.

Crédito: Crédito da foto: Ricardo Duarte / SC Internacional

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É bom lembrar que a confiança dos torcedores colorados estava lá em cima no início do Brasileirão. O time vinha da conquista do Campeonato Gaúcho e fazia um bom início na competição nacional. Inclusive este que vos escreve dizia que “era preciso ficar de olho no Internacional”. No entanto, a ilusão sumindo aos poucos. Com um elenco inchado e com um treinador péssimo na gestão de grupo, o Inter começou a sucumbir ainda no primeiro turno, com um jejum de seis vitórias e atuações pífias tanto na parte técnica como na parte tática. A demissão de Argel Fucks veio depois da derrota para o Santa Cruz no Arruda, em Recife, e com uma atuação que já preocupava os torcedores. Vitinho e Eduardo Sasha não se entendiam jogando pelos lados do campo, o garoto Gustavo Ferrareis não conseguia criar jogadas e o argentino Ariel só brigava com a bola. O Santinha (que também seria rebaixado para a Segundona) não teve muitos problemas para vencer o jogo diante da sua torcida e acabar com o seu jejum de vitórias no Brasileirão.

A última partida de Argel Fucks no comando do Internacional foi marcada pela desorganização tática e pelo início do longo jejum de vitórias. O usual 4-2-3-1 (tônica no Inter em 2016) era espaçado e sem criatividade no meio-campo. Melhor para o Santa Cruz.

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Depois da saída de Argel Fucks, a diretoria colorada correu atrás de outro técnico identificado com o clube. E o escolhido acabou sendo Paulo Roberto Falcão, o maior jogador da história do clube. O “Rei de Roma” assumia o Internacional pela terceira vez e tinha a missão de tirar o clube da má fase. Só que os problemas da equipe continuavam. O desenho tático básico seguia sendo o 4-2-3-1, mas sem qualquer jogada, sem qualquer elemento que pudesse indicar um mínimo de organização tática ou uma proposta de jogo clara. No último jogo do primeiro turno, o time sofreu para arrancar um empate do Fluminense (que vinha em ascensão com Levir Culpi) dentro do Beira-Rio. Mais uma vez, o Inter teve que contar com os lampejos dos seus jogadores mais talentosos. E mais uma vez a defesa seguia dando dores de cabeça horrorosas no torcedor. Nesse momento já ficava mais do que claro que a aposta em Falcão vinha muito mais no desejo de encontrar alguém para ser o “bode expiatório” da crise do que propriamente uma opção num técnico que pudesse arrumar a equipe.

A aposta em Paulo Roberto Falcão (e no tal planejamento a longo prazo) terminou na quinta partida do ídolo colorado à frente da equipe. O time chegava a onze partidas sem vitória contra o Fluminense e sem qualquer perspectiva de melhora.

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Após cinco partidas, Falcão acertou a sua saída do Inter e um velho conhecido assumiu a cadeira: Celso Roth. O técnico campeão da Libertadores da América em 2010 voltava para “relembrar os feitos do passado”, como se os últimos trabalhos ruins do treinador não fossem um aviso claro de que a escolha havia sido péssima para o momento. O Internacional até conquistou alguns pontos, mas seguia com os mesmos problemas na proposta de jogo. O 4-2-3-1 (sempre ele) seguia com espaços enormes entre a defesa e o meio-campo e a postura mais pragmática da equipe colorada deixavam o time à mercê dos seus adversários. Depois de vencer o Flamengo de virada em casa (com uma bela atuação de Vitinho), o Inter tinha no jogo contra a Ponte Preta a oportunidade perfeita para ganhar fôlego na briga contra a degola. O gol de Valdívia ainda na primeira etapa deu a impressão de que a má fase tinha ido embora, mas Eduardo Baptista mudou sua equipe no segundo tempo e a Macaca conseguiu o empate. Além dos conceitos arcaicos, a insistência em escalar Valdívia centralizado e a barração de Seijas foram outros fatores que derrubaram Celso Roth.

O Inter até começou bem o jogo contra a Ponte Preta, mas o time sucumbiu no segundo tempo com as boas mexidas de Eduardo Baptista. Depois do empate em casa, Celso Roth era mais um que perdia o emprego.

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A demissão de Celso Roth e o anúncio de Lisca Doido veio logo depois do do jogo contra a Ponte Preta. Enquanto a diretoria colorada escancarava seu desespero com decisões estapafúrdias dentro e fora de campo (como a declaração infeliz de Fernando Carvalho sobre o acidente com a delegação da Chapecoense e a denúncia no STJD contra o Vitória), o time tentava juntar os caquinhos em busca de um milagre que acabou não vindo. A apatia dos jogadores no empate diante do Fluminense na última rodada do Campeonato Brasileiro era o retrato fiel de um elenco caro que não se encontrou durante boa parte da competição. Mesmo com a formação mais ofensiva (que trazia Valdívia e Vitinho abertos, Nico López jogando no comando do ataque e Alex jogando na lateral-esquerda), a equipe colorada não conseguiu superar uma equipe que já havia dispensado boa parte dos seus jogadores e que já estava em clima de férias. Nem mesmo o gol de Gustavo Ferrareis em chute de fora da área deu a injeção de moral e de vontade que o Inter precisava. A vitória do Sport sobre o Figueirense já foi suficiente para decretar o inédito rebaixamento.

O jogo que marcou o inédito rebaixamento do Internacional foi marcado pela apatia e pela desorganização tática da equipe. Lisca Doido pouco pôde fazer em apenas três jogos.

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Acredito que o caso do Internacional em 2016 deva servir de exemplo para todos os dirigentes do futebol brasileiro. Vitório Piffero e Fernando Carvalho deram aulas impressionantes de como NÃO SE DEVE gerir um clube. Desde as escolhas infelizes para técnico do time, passando pelas declarações infelizes e chegando ao desespero de se tentar o chamado “fato novo” com três rodadas para o fim do Brasileirão, tudo que a diretoria fez nesse ano foi infeliz. E o mais interessante nessa história é o fato do elenco colorado contar com jogadores que seriam titulares em boa parte dos times brasileiros, como Danilo Fernandes (um dos melhores goleiros do Brasil na humilde opinião deste que vos escreve), William, Vitinho, Rodrigo Dourado, Seijas, Nico López e Eduardo Sasha, além dos garotos Gustavo Ferrareis, Aylon e Andrigo. É bem verdade que as lesões dos principais atletas o elenco foram outro ponto crucial nesse rebaixamento. Mas também faltou um líder dentro de campo. Líder que poderia ser D’Alessandro se a diretoria colorada não tivesse entrado em choque com o argentino e forçado a sua saída do clube no final do ano passado. O mundo gira…

Qualquer rebaixamento é muito difícil de ser digerido. O primeiro da história de um clube do tamanho do Internacional é mais difícil ainda. Ainda vai doer bastante e os torcedores rivais (sobretudo os do Grêmio que viram o Inter cair no aniversário de 33 anos do título mundial) vão pegar no pé dos colorados por um bom tempo. Outros times estiveram lá e voltaram para a elite do Brasileirão conquistando títulos. Como esquecer o Corinthians campeão da Copa do Brasil em 2008? Ou o próprio Botafogo que saiu da Série B em 2015 para a quinta posição e a vaga na Libertadores em 2017? Exemplos de superação não faltam no futebol brasileiro. Resta ao Internacional se reestruturar, analisar os jogadores que tem à disposição e montar um time para as competições do próximo ano. Que as trapalhadas da diretoria sirvam de lição para a que vai assumir o clube na próxima temporada e que o Inter volte logo para a primeira divisão. A torcida não merecia isso. Mas como o próprio Danilo Fernandes disse, a queda foi “justíssima”.