Por sonho de jogar na NBA, pivô fez caminho oposto ao de Oscar e deixou seleção para trás

Nesta sexta-feira (17), o mundo do basquete vai acompanhar a “estreia” de Oscar Schmidt na NBA. Isso porque o principal nome do basquete brasileiro vai participar do Jogo das Celebridades da liga norte-americana de basquete, partida que faz parte do fim de semana do “All-Star Game”. Escolhido para jogar pelo New Jersey Nets (hoje Brooklyn Nets) em 1984, o eterno camisa 14 declinou do convite. O motivo? Não querer ficar de fora da seleção brasileira já que, pelas regras da época, a FIBA (Federação Internacional de Basquetebol) vetava que atletas da liga norte-americana fossem chamados para as suas seleções. Um brasileiro, no entanto, fez o caminho oposto ao de Oscar. Trata-se do ex-pivô Rolando Ferreira.

Matheus Adami
Jornalista, editor do Torcedores. Passagens pelos jornais Metro, O Estado de S. Paulo, Jornal da Tarde, Marca Brasil, Agora São Paulo, Diário de S. Paulo e Diário do Grande ABC.

Crédito: Acervo pessoal/Rolando Ferreira

Quatro anos após Oscar recusar o chamado da liga mais forte do mundo em termos de basquete, Rolando abriu os caminhos do Brasil na NBA. O curitibano foi selecionado pelo Portland Trail Blazers no draft da temporada 1988/1989. E, garante: em nenhum momento se arrependeu de deixar a seleção brasileira para trás.

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“Foi tranquilo para mim porque era um sonho jogar na NBA. Eu nem pensei na seleção, porque era uma coisa que eu queria alcançar, queria provar para mim e para os outros que eu era capaz. Serviu para calar a boca de muita gente”, disse Rolando em entrevista concedia ao Torcedores.com por telefone.

“Fui o primeiro a acreditar, na verdade, que poderia jogar na NBA. Eu que tive a coragem de arriscar tudo o que eu tinha em busca de um sonho. O Oscar não quis arriscar. Eu quis, fui atrás de um sonho. Muita gente falava para mim, quando saí de Curitiba e fui para São Paulo, que eu tinha condições de ir para a NBA. Eu falava ‘você tá louco?’. Mas muita gente falava, inclusive jogadores estrangeiros. E falavam tanto que comecei a acreditar. Até que universidade me convidou, fui e deu certo.”

A história de Rolando com a NBA começa em 1986, quando ele foi convidado para jogar pela Universidade de Houston, nos Estados Unidos. Lá, estudou Educação Física e jogou basquete. “Lógico que eu tinha de estudar, mas meu objetivo não era me formar, meu objetivo era chegar na NBA. Mas estudei mesmo, lá tinha até sociologia. Fui até o melhor aluno atleta da universidade no segundo ano. Me formei no Brasil quando voltei”, contou.

O dia em que o telefone tocou, com a confirmação de que tinha sido escolhido pelo Portland Trail Blazers guarda uma história curiosa para o primeiro brasileiro a jogar na NBA. “Eu estava em Curitiba. E quando desliguei o telefone, não tinha noção do que era e precisava desabafar, contar para alguém. Estava sozinho na casa da minha mãe. Liguei para minha namorada, em São Paulo, mas ela não estava. Então tive de conversar com o porteiro.”

O sonho de Rolando, contudo, durou pouco: apenas 12 partidas vestindo a camisa 32 dos Blazers. E uma lembrança amarga para o ex-pivô. “Um dia o general manager do Portland me ligou com uma proposta, perguntando se eu não podia fingir que estava machucado para abrir espaço para um jogador voltar. E eu não sabia o que fazer. Liguei para o meu agente e, no fim, decidi aceitar. Fingi que estava machucado. Fiquei até o fim da temporada, até os playoffs, sem treinar, fazendo musculação, indo para o treino, com gelo no joelho. Isso foi uma desgraça, não gosto nem de lembrar.”

Com pouco espaço, Rolando foi emprestado para times europeus. Passou por equipes na França, onde teve problemas com lesões, e Itália. Por fim, retornou aos Estados Unidos e acabou encerrando a passagem pela NBA. Voltou ao Brasil e a jogar pela seleção brasileira após a mudança dos regulamentos da Fiba. Disputou os Jogos Olímpicos de 1992 e só não jogou em 1996 por estar contundido. Em 2000, se aposentou do basquete, se tornou treinador e, posteriormente, professor de educação física em Curitiba, onde vive atualmente.

“O que me ferrou foi eu ter aceitado aquela proposta. Eu me ferrei. Estava bem, treinando e não deveria ter aceitado. E tive o orgulho de que o meu agente não ter procurado outro time para mim. Me arrependo, lógico. Eu poderia ter tido outra carreira na NBA”, afirmou.

E não sobrou nem mesmo a camisa usada no Portland Trail Blazers para contar história: “Sumiu! Eu acho que levei algum dia no Pinheiros para os meninos verem e sumiu da minha mochila. Era a única, a branca, de jogo. Eu tenho uma bem parecida que a NBA Brasil pediu. E está num quadro.”