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Opinião: A Hipocrisia do Fair Play no futebol brasileiro

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Colaborador do Torcedores

Crédito: Jogadores membros do Bom Senso FC,sentados e com os braços cruzados, como sinal de protesto/ Foto: Reprodução YouTube

Há pouco mais de 1 mês, um erro do árbitro Thiago Duarte Peixoto, na arena Corinthians, gerou a maior polêmica, no clássico entre o timão e o Palmeiras. Na ocasião, o juiz se equivocou e deu o segundo amarelo para o volante Gabriel, por uma falta que ele não cometeu (quem na verdade puxou o palmeirense Keno, foi o corintiano Maycon). O erro culminou com sua expulsão do camisa cinco.

Depois da confusão de Thiago Duarte, os jogadores do Corinthians se revoltaram e foram protestar com o juiz. O próprio Maycon se “acusou” como autor da falta, mas Keno e Dudu apontaram para Gabriel e aprovaram a decisão do árbitro. Keno, inclusive, vibrou após o cartão.

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Como resultado da lambança que cometeu, no dia seguinte ao clássico, o árbitro foi afastado pela FPF (Federação Paulista de Futebol). Além disso, o volante Gabriel teve sua suspensão anulada, ficando assim, apto para a partida seguinte.

Até aí, tubo bem. O problema é que Gabriel, que cobrou tanta moralização do futebol, fair play dos seus adversários, quando foi prejudicado, teve atitude muita parecida com a que ele tanto repudiou. No clássico deste domingo (26), entre São Paulo e Corinthians, o mesmo Gabriel, aplaudiu o juiz do majestoso, que expulsou o atacante Wellington Nem, após uma disputa normal de jogo, com o jogador Camacho. O árbitro Vinícius Furlan, entendeu que o são-paulino atingiu com o braço de forma temerária o rosto de seu adversário.

No lance do primeiro cartão amarelo de Wellington Nem, o atacante deu uma entrada criminosa Léo Jabá e com muita audácia, questionou o juiz, como se não tivesse feito nada de errado. Ou seja, não há “santinho” no futebol. Todos só levantam a bandeira da moral e dos bons costumes, quando são prejudicados.

 

Mais polêmica no clássico entre Flamengo e Vasco

No Rio de Janeiro também teve um lance que gerou muita revolta, no clássico entre Flamengo e Vasco. Aos 49 minutos da etapa final, no apagar das luzes no estádio Mané Garrincha, em Brasília, o atacante Nenê alçou a bola para área e ela tocou na barriga do lateral Renê. O juiz Luís Antônio Silva Santos, entendeu que ela bateu na mão do flamenguista e assinalou pênalti para o Vasco, que perdia por 2 a 1, no momento. O camisa dez do time da colina converteu e selou o empate no clássico.

Como era de se esperar, o lado vascaíno minimizou o lance, enquanto o rubro-negro contestou e ironizou. Para o atacante Nenê, o que aconteceu faz parte e afirmou ter visto mão, no calor do jogo:

“Eu vi mão na hora. Se aconteceu isso mesmo (toque na barriga), faz parte. Na maioria das vezes, é contra a gente. Uma vez, veio para a gente. Acho que valeu o espírito da equipe. Depois que ficamos com dez, não desistimos e conseguimos um ponto importante”, declarou.

A repórter voltou a questioná-lo se a bola realmente tinha tocado na mão de Renê. O jogador não gostou da insistência, bradou que ela já tinha lhe perguntado isso e foi embora.

Já o lado flamenguista, reclamou bastante, como era de se esperar e usou seu perfil no Twitter, para ironizar o lance: “Barriga agora é mão, Arnaldo?”, postou.

Flamengo “tirou onda” com pênalti mal marcado no clássico. Foto: Twitter Flamengo

Em 2014, a situação foi inversa. Na final do estadual do Rio, entre os mesmos times, o gol que deu o título para os rubro-negros foi irregular (o volante Márcio Araújo estava em posição de impedimento). E para apimentar a polêmica, Felipe, então goleiro do Flamengo, afirmou que ganhar roubado era mais gostoso. Claro que é utópico cogitar que um jogador não comemore um gol decisivo, ainda mais em uma final. Contudo, fazer graça e dizer que é mais gostoso, é para se lamentar e muito. Mais um exemplo que mostra o quão hipócrita são as bandeiras pró fair play, no futebol brasileiro.

 

Bom Senso FC

O movimento de jogadores de futebol, que começou em 2013, com o slogan “Por um futebol melhor para todos”, parece que não conseguiu algo muito efetivo dentro de campo. Sem menosprezar a iniciativa, que é muito nobre, o discurso de respeito é Fair Play não tem sido colocado em prática. Cruzar os braços e reclamar, não muda nada.

Os jogadores, dirigentes, profissionais envolvidos com o esporte, continuam tendo as mesmas atitudes. Só reclamam de um problema, quando são prejudicados. E, se caso forem ajudados, é porque chegou “a nossa vez”, não é mesmo, Nenê?!