Futebol

Questionamos o “OOOO BICHA!” e olha o que recebemos de volta

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Flávio Moreira é jornalista especializado em mídias sociais. Com passagens por UOL e Electronic Arts, é apaixonado por esporte e acredita na produção de conteúdo feito de torcedor para torcedor.

Você já xingou um rival de bicha? Falar sobre qualquer tipo de preconceito no futebol, principalmente homofobia, é um negócio bem complicado. Estamos lidando com um esporte muito popular, abrangente em todas as classes sociais e com pessoas que, muitas vezes, não têm acesso  aos debates sobre o tema e ao processo de desconstrução e pouco entendem conceitos de empatia.

Mesmo com todas essas ponderações, não deixa de ser desanimador. Há quase dois anos, em maio de 2015, escrevi um texto de opinião aqui para o Torcedores.com questionando a prática comum nos nossos estádios na qual a torcida grita “OOOO BICHA” para o goleiro adversário quando ele vai bater o tiro de meta. Na época, argumentei:

“Chamar o goleiro adversário é homofobia? Em tese, não. Na definição literal da palavra, homofóbico é aquele que tem aversão ou rejeição a homossexualismo. E até onde sabemos, nenhum goleiro do futebol brasileiro é homossexual. Na prática, o argumento é bem furado, pois a carga de ódio no uso da expressão “bicha” é a mesma. É um xingamento, uma ofensa, como quem aponta um erro. Como se ser gay fosse um erro… No fim, dá na mesma.”

Sempre que a seleção brasileira joga aqui no Brasil, talvez por atrair também a curiosidade de pessoas que não acompanham o futebol com tanta frequência, o texto recebe tráfego vindo de buscas no Google de usuários querendo entender a motivação dos gritos homofóbicos.

Na última terça-feira, durante Brasil x Paraguai, válido pelas Eliminatórias da Copa, não foi diferente. Todo tiro de meta foi motivo para a agressão verbal homofóbica ao goleiro paraguaio. E olha que estamos falando de um público com alto poder aquisitivo, que comprou ingressos caros e foi responsável por umas das maiores arrecadações da história do nosso futebol. Teoricamente, muita gente ali não tinha a desculpa de não ter acesso a informação para não ser preconceituoso. E mais uma vez o texto foi bastante buscado no Google.

Pensando nisso, resolvemos divulgá-lo mais uma vez na nossa página do Facebook. Como eu disse no segundo parágrafo, as reações dos leitores nos comentários tornam o diálogo muito desanimador.

Veja alguns dos posts:

“Quem disse que chamar alguém de bicha é homofóbico, oh geração “mimimimi” da porra”

“Se for ao estadio, não grite “bicha”. Aliás, não grite. Se seu time fizer gol, não comemore. Peça desculpas ao rival. Não pule. Não cante. Não leve bandeirão. Se possivel, nem bata palmas. Resumindo: se for ao estádio, não aja como se estivesse em um estádio.”

“É bicha sim, Ronaldo é viado, Romário é viado, Rogério é viado, tudo isso sempre foi dito nos estádios, e nunca teve essa discussão se era homofóbico ou não, por isso não perdíamos de 7×1!!!!!”

“Esse tipo de comportamento de vocês da imprensa é pura VIADAGEM, quando chamamos a mãe do juiz de puta pode né?”

“Homofobia pra mídia que quer ganhar moral com os ofendidos, e para os ofendidos que se acham os dois da razão, e só quer amém para os pontos de vistas deles. No dia que eu não puder mais me expressar da forma que eu quiser em um estádio de futebol, não piso mais meus pés lá, e não assisto mais a uma partida.”

“Tá de Sacanagem, Vcs é que estão Relacionando o termo Bicha a Homosexualidade, para de Mimimi, Futebol não é Ambiente pra frescurinhas não, vai ter sempre essas Provocações!”

“Blá blá blá!!! Isso é futebol, um jogo em que você tenta desestabilizar o adversário!!! NORMAL, só quem nunca jogou futebol na vida, não compreende isso!!! Geração nutellinha!!!”

“Vão ficar no politicamente correto até no futebol? Não pode mais nem xingar no estadio? Daqui a pouco nem a mãe do juiz vamos poder xingar mais…”

PS: Para entender a motivação do xingamento no futebol e sua delicada relação com o preconceito e racismo, recomendo o texto “Por que “bicha” é xingamento?“, do meu amigo Leandro Beguoci, para o Trivela.