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Um dia de Primeira Liga na Arena: estádio vazio e torcedor com preguiça

Quando a reportagem do Torcedores.com chegou no entorno da Arena nesta quinta-feira, por volta de 20h30, nem parecia que teria jogo uma hora depois. Sentados um perto do outro, os tradicionais ambulantes conversavam amenidades e não demostravam muitas esperanças em uma noite lucrativa de vendas. As bandeiras e camisetas do Grêmio tremulavam com o vento, sem que nenhum tricolor, em mais de 20 minutos, se aproximasse para, no mínimo, questionar o preço.

Eduardo Caspary
Jornalista formado pela PUCRS em agosto de 2014. Dupla Gre-Nal.

Crédito: Foto: Torcedores.com

fila

20h30: nada de fila em uma das bilheterias

Tímido e silencioso, um cambista se aproxima do repórter e oferece um ingresso. Avisado de que sua atividade era proibida, o jovem, que não quis se identificar, dá um leve sorriso e diz que estava exercendo esse trabalho “pela primeira vez”. Na sequência, instigado pela reportagem, admite que uma noite fraca estava por vir: “Não vem ninguém, não vou vender nada”. 

A desmobilização para a partida contra o Ceará veio de dentro para fora. Focado no Gre-Nal de sábado pelo Gauchão e na estreia da Libertadores contra o Zamora, no dia 9, fora de casa, o Grêmio fez pouco caso do duelo contra os nordestinos pela Primeira Liga – jogo que, ao menos em tese, era decisivo para a classificação do time. Com o resultado de 1×1, fica agora na dependência de uma vitória simples sobre o América-MG, em casa, no dia 5 de abril, para avançar.

Os principais jogadores gremistas ficaram em casa. Renato Gaúcho, assim como já fizera na estreia contra o Flamengo, não esteve na casamata. Os torcedores, bom, exatos 2.944 “guerreiros” estiveram presentes no pior público da história da Arena. E até mesmo os jornalistas não tiveram muita mobilização para o duelo. Ao adentrar nas dependências do estádio, e depois no espaço de credenciamento à imprensa, a reportagem perguntou ao responsável da Aceg (entidade gaúcha que coordena as credenciais dos jogos da dupla Gre-Nal) sobre o número de jornalistas que viriam para o duelo contra o Ceará

– Como tá o movimento, cara?

– Hoje é tranquilo, devo dar no máximo umas 30 credenciais.

– E sábado, no Gre-Nal?

– Aí é diferente. A procura é muito maior, aí é coisa de 90 credenciais para mais.

Estacionamento

Vagas de sobra no estacionamento interno

Antes disso, o estacionamento interior da Arena era um espaço vazio. Ainda que o torcedor comum não tenha acesso, pouquíssimos carros foram vistos – como ilustra a foto ao lado.

A preguiça da Aline e o tédio da ascensorista

Casa da Aline

Visão da casa de Aline

Ouvida pela reportagem, a estudante de nutrição e gremista Aline Pedroso, que mora exatamente em frente à Arena, disse que poucas vezes viu um movimento tão baixo. E admitiu que sabia da partida, mas que a preguiça pós-carnaval falou mais alto e a impediu de ir ao jogo. 

Vi pouca gente passar hoje, até iria, mas estou com preguiça”, disse, aos risos. “Não que o jogo não valha nada, mas acho que o pessoal tá pela praia”, ampliou. 

Olha, todos os jogos eu consigo ouvir a movimentação como se estivessem dentro do meu quarto. Mas a Copa do Brasil do ano passado foi épica”, lembra a gremista, que gentilmente enviou ao Torcedores uma foto da frente de sua casa.

Depois do papo com a torcedora e da análise do ambiente, a reportagem subiu de elevador para a cabine, por volta de 21h15, não sem antes um descontraído papo com a ascensorista, que lamentou o “tédio” que teria durante Grêmio x Ceará. O repórter inicia o diálogo.

– Pouco movimento hoje, né?

– Nossa, pouco mesmo. Me falaram que vinham 2 mil no máximo.

– Pessoal tá se guardando para o Gre-Nal, sábado.

– Pois é, sábado vai ferver.

– Noite como hoje deve ser boa para ti, pouco trabalho, quase nem sobe com o elevador.

– Que nada, aí que é ruim! Morro de tédio parada aqui.

A experiência de André e a previsão de Espinosa

André Zimmermann é daqueles gremistas que vão a todos os jogos. Motivado pela chance de ver os atletas que raramente entram campo, o torcedor colocou a camisa tricolor e foi à Arena. Saiu decepcionado com o jogo e com a Primeira Liga.

“O que motiva vir para um jogo desses é ter a chance de ver esse Grupo de Transição jogar, que raramente assisti in loco. Sobre a Primeira Liga, a ideia era pressionar a CBF e o Grêmio foi um dos times que mais puxou, mas acaba botando o quarto time, aí complica. Acho que ano que vem não teremos esse torneio”, projetou.

Gentilmente, o coordenador-técnico do Grêmio, Valdir Espinosa, atendeu a reportagem na zona mista após o jogo e opinou sobre o torneio. Previu que, se os clubes não se unirem, a edição de 2017 será a última da Primeira Liga.

“Se não mudar, é a última. Se as equipes se unem para fazer a competição e elas não se unem para que essa competição tenha sucesso, esse é o primeiro passo para o fracasso. Ou os times se unem e fazem realmente uma competição, ou é a última que estamos vendo”.

Ouça a resposta de Valdir Espinosa:

O Grêmio D e o descaso dos grandes com a Liga

Em campo, o que se viu foi um Grêmio desentrosado e apático na primeira etapa, com imensas dificuldades ante um Ceará comandado pelo inacabável Magno Alves – autor do primeiro gol do jogo. Na etapa final, a garotada gremista mostrou personalidade, foi para cima e, em um ou outro momento, até fez os torcedores ensaiarem um comedido “Grêmio, Grêmio!” nas arquibancadas.

Nem os reservas imediatos do time A do Grêmio – muitos deles não devem jogar sequer um minuto do Gre-Nal -, estiveram na partida contra o Ceará, toda ela disputada com o chamado “Grupo de Transição”. O curioso é que o presidente gremista Romildo Bolzan Jr, ainda no início do ano passado, foi um dos principais entusiastas com a criação da nova competição no futebol brasileiro. Que se faça justiça: grandes clubes como Flamengo, Atlético-MG, Cruzeiro e Inter também têm poupado jogadores na Liga.

Com o acréscimo de outros quatro clubes com relação ao ano passado, a Primeira Liga vai encerrar a primeira fase agora entre março e abril, mas só terá suas finais jogadas em setembro e outubro – em um hiato enorme que tira a força da competição. O que (não) se viu na Arena nesta quinta-feira é tudo o que não queremos para o futebol brasileiro: um jogo desinteressante para os clubes, para os jogadores, para os jornalistas e, principalmente, para os torcedores.