Globo transmitiu sozinha e cobrou até PPV de reprises na Copa do Mundo de 2002

A Globo foi a única emissora com direitos de transmissão da Copa do Mundo de 2002, que acabou vencida pelo Brasil em um jogo memorável contra a Alemanha há exatos 15 anos, no dia 30 de junho. Um misto de mudança nas negociações dos direitos com a Fifa com a crise econômica vivida pelo país na época criou o cenário perfeito para que as outras emissoras ficassem fora da conquista do pentacampeonato mundial da seleção brasileira.

Allan Simon
Editor do Torcedores.com, está no site desde julho de 2014. Repórter e apresentador da TV Torcedores. Formado pela Universidade Metodista de São Paulo, já passou por UOL, Editora Abril e R7 (Rede Record). Participou da cobertura das Copas do Mundo de 2014 e 2018, de dois Pans, dos Jogos Olímpicos de Londres 2012 e do Rio 2016. Apaixonado por esportes e games, principalmente os antigos.

Crédito: Getty Images

Desde o início do segundo mandato do presidente Fernando Henrique Cardoso (PSDB), quando o governo parou de segurar artificialmente o câmbio, a cotação do dólar entrou em disparada. Mais perto da Copa, em 2002, o quadro ficou agravado porque o mercado reagia mal a cada pesquisa que indicava o favoritismo do então candidato do PT, Luiz Inácio Lula da Silva, nas eleições presidenciais daquele ano. Lula, de fato, venceu o pleito.

Além da alta nos índices do “Risco Brasil” com a dianteira de Lula, a inquietação do mercado também jogou o dólar nas alturas. Em 2002, o país viu a moeda americana ultrapassar a marca dos R$ 4. Com isso, a Globo também se deu mal, pois pagava os direitos de transmissão à Fifa em dólar, e os comprou de maneira exclusiva para o Brasil alguns anos antes. Foram US$ 220 milhões investidos.

Essa compra já representava uma mudança no mercado nacional. Em 1987, a OTI (Organização da Televisão Ibero-Americana) comprou os direitos das Copas do Mundo de 1990, 1994 e 1998. Com isso, todas as emissoras filiadas a essa organização poderiam pagar uma taxa cobrada para todas e exibir as competições. Esse cenário possibilitou que a conquista do tetra em 1994, por exemplo, fosse transmitida por Globo, SBT e Bandeirantes. A Manchete só ficou fora porque não conseguiu pagar essa taxa. A Record teve problemas judiciais, mas mostrou a de 1998.

Tudo isso mudou com a compra por parte da Globo dos direitos exclusivos de transmissão em todas as mídias. A emissora viveu um impasse com a alta do dólar, pois pagaria muito mais pelo negócio e poderia tomar prejuízo por uma Copa disputada no horário da madrugada no Brasil, o que despertaria menos interesse da torcida pelos jogos de outras seleções. Afinal, a seleção brasileira disputou sete partidas, mas houve outras 57 sem a presença dos comandados de Felipão em campo.

Por outro lado, também não compensaria à emissora fazer uma venda desesperada dos direitos de transmissão para as concorrentes. O mercado publicitário ficaria concentrado na Globo com uma transmissão exclusiva que não acontecia desde a Copa de 1982 (na época, a TV Cultura de São Paulo transmitiu por causa de um acordo da Globo com o governo paulista, mas era uma mera retransmissão do sinal da emissora carioca).

Para achar um equilíbrio entre os problemas, a Globo resolveu oferecer um pacote de licenciamento dos direitos por 60 milhões de dólares. Negociou com outros canais, sobretudo com a Record, que em 2002 passou a ter a empresa de marketing esportivo Traffic como operadora de sua programação esportiva.

Em 9 de maio, faltando menos de um mês para o início da Copa, a Globo encerrou as negociações com outras emissoras. Nenhuma delas aceitou pagar os valores pedidos pelo canal carioca para dividir os direitos de transmissão. A emissora continuava sem arrecadar para amortecer os 220 milhões de dólares pagos à Fifa. Para piorar, as cotas de patrocínio da Copa do Mundo só foram completamente vendidas de última hora, já em maio.

De acordo com o jornal Folha de S.Paulo daquele dia, a Globo ainda tentou oferecer um pacote de US$ 5 milhões que daria às concorrentes o direito de mostrar os jogos da seleção brasileira em VTs, além de poder mostrar um compacto de 40 minutos de apenas uma partida por dia, mais os gols e melhores momentos dos demais duelos disputados na Coreia e no Japão. Ninguém topou também.

Se as emissoras concorrentes não poderiam pagar o preço em dinheiro para mostrar um pouco da Copa, o preço editorial foi alto. As regras para não-detentoras dos direitos de transmissão de eventos da Fifa são extremamente rígidas. Só poderiam ser exibidos os gols e inserções de até 90 segundos nos telejornais. Para completar, a Globo ainda aplicou uma regra que só permitia a exibição desse material a partir das 13h. Os jogos da Copa do Mundo começavam às 3h e terminavam às 10h30, fazendo uma média dos horários de acordo com o nosso fuso.

Com isso, as emissoras que tinham programas de esportes no horário do almoço, como era o caso do Esporte Record, do Esporte Total (Band), entre outros, simplesmente tinham que falar dos jogos da seleção sem poder apresentar as imagens. A Record chegava a mostrar ilustrações de como tinham sido os gols.

E não parava por aí. A Globo ainda proibia a exibição das imagens depois de 24 horas da cessão do uso delas. Ou seja, os gols de uma partida podiam ser mostrados apenas entre 13h do dia em que ela aconteceu e 12h59 do dia seguinte. Resultado: as mesas redondas de domingo só puderam mostrar gols da seleção brasileira na final, o único jogo do Brasil que aconteceu nesse dia da semana.

https://www.youtube.com/watch?v=5muQ-1PiQO8

Para o torcedor, a situação também foi ruim. Além de não poder escolher outra opção além de Globo e SporTV para ver os jogos, até as reprises viraram produto e forma de arrecadação de dinheiro. O Premiere Esportes, nome do canal pay-per-view da Globosat na época, cobrou um pacote de R$ 129,90 para que o público tivesse acesso ilimitado aos VTs dos 64 jogos da Copa do Mundo.

Afinal, nem todo mundo poderia acompanhar os jogos na madrugada e essa era a única possibilidade de ver as partidas em outros horários para aqueles que não possuíam algum equipamento que gravasse as partidas. Uma possibilidade caríssima. Em valores atuais, corrigidos pelo IPCA (Índice de Preços ao Consumidor Amplo), que mede a inflação oficial do Brasil, esse pacote de reprises custaria R$ 338,59. O SporTV só estava autorizado a reapresentar os jogos às 21h, quase um dia depois.

Apesar de ter marcado o penta, a Copa de 2002 foi a pior dos últimos 47 anos em restrições ao público brasileiro. Galvão Bueno e Luiz Carlos Júnior, por Globo e SporTV, foram os únicos narradores que trabalharam pela TV brasileira na final do penta, a vitória do Brasil por 2 a 0 sobre os alemães.

Em 2006, na Alemanha, a Globo voltou a exercer exclusividade na TV aberta, mas os horários eram bem mais permissivos às outras emissoras que precisavam exibir os gols. Na TV paga, ESPN e BandSports puderam comprar os direitos e transmitir a conquista da Itália. Em 2010, a Band voltou a exibir na TV aberta, algo repetido em 2014.

Nessa Copa do Mundo disputada no Brasil, aliás, foram duas opções na TV aberta (Globo e Band) e mais quatro na TV paga (SporTV, ESPN Brasil, Fox Sports e BandSports), além das transmissões via internet do site Globoesporte.com e do SporTV Play.