Kyra Gracie desafia tabus: “Me falaram que ninguém teria aula de jiu-jitsu com uma mulher”

“Quero provar que a mulher pode lutar e pode fazer o que ela quiser”. Kyra Gracie é sinônimo de luta dentro e fora do tatame. Dentro, foi tetracampeã mundial e tricampeã do ADCC, além de outros inúmeros títulos conquistados. Fora dele, Kyra representou um avanço enorme para as mulheres no mundo das lutas.

Redação Torcedores
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Crédito: Kyra Gracie relembra dificuldades e preconceito no início da carreira (Foto: Renato Senna/Torcedores.com)

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“Uma coisa que me marcou muito foi que me falaram que ninguém teria uma aula de jiu-jitsu com uma mulher e que eu iria morrer de fome porque eu não iria ganhar nem um real com o jiu-jitsu. E hoje eu dou seminário no mundo inteiro. Por outro lado, acho que isso me motivou muito. Ao mesmo tempo que eu amava o jiu-jitsu e queria ser campeã, eu também queria provar que as pessoas estavam erradas”, revelou a ex-lutadora em entrevista exclusiva ao Torcedores.com.

Apesar de fazer parte da família Gracie, nem sempre as coisas foram fáceis para ela. A tetracampeã mundial foi a primeira mulher da família a participar de competições. Porém, a contragosto de alguns dos Gracies, que não queriam que ela seguisse carreira no esporte. Kyra precisou quebrar barreiras antes de chegar a todas glórias.

“Eu comecei no jiu-jitsu como uma brincadeira dentro de casa e, na minha família, eu nunca tive uma mulher como referência. Minha mãe chegou à faixa azul, mas não tinha muito incentivo. Eu lembro da diferença que tinha quando tinha um menino que já gostava de luta e todo mundo falava: ‘esse aqui vai ser o próximo campeão’. As mulheres eram deixadas de lado, até porque era uma cultura da época, as mulheres não tinham tanto espaço. Isso foi mudando dentro da família Gracie”, disse Kyra.

No começo do jiu-jitsu feminino, as mulheres tinham que enfrentar a diferença de tratamento em relação aos homens. Nas competições, as lutas entre mulheres nem sequer eram realizadas no tatame principal.

“Quando eu comecei, eram quatro dias de competição e as mulheres lutavam no primeiro dia junto com os iniciantes. Não era dado nenhum valor às mulheres, a gente não lutava nem no tatame principal. E eu semprei lutei para provar que a gente podia dar um bom show e trazer mídia, trazer uma galera legal pros eventos. Até que a gente conseguiu, depois de muitos anos, ir para o tatame principal. Mas ainda assim era mal divulgado, mal anunciavam as lutas femininas. Não saía nenhuma notinha nas revistas especializadas”, relembrou a tetracampeã mundial.

Kyra começou a competir com quimono rosa, para chamar incentivar outras mulheres a participar. Ela queria mostrar que as mulheres poderiam praticar o esporte sem perder seu lado feminino. Ela também passou a pintar as unhas de rosa, já que as lutadoras não pintavam suas unhas e, muitas vezes, ficava difícil distinguir nas fotos se aquela luta era masculina ou feminina. Depois, isso acabou virando uma superstição.

Vida após a luta: comentarista por acaso, empresária e desistência do MMA

Desde 2012, Kyra é comentarista do canal Combate, canal de pay per view especializado em lutas. A Gracie também é apresentadora do programa Sensei SporTV, no qual ela também faz reportagens. A carreira, porém, veio por acaso para a tímida lutadora.

“Eu entrei para comentar por acaso, nunca tinha pensado nisso na minha vida. Eu, na verdade, era bem tímida. Chegava a chorar para dar entrevista (risos). Eu tinha muita vergonha! Uma vez eu fui convidada para um programa e falei um pouquinho de uma luta do Anderson Silva. O diretor assistiu, achou interessante e me convidou. Isso tem quatro anos! Além de ser comentarista, passei para um outro lado de apresentar programas, fazer entrevistas e eu adoro”, afirmou Kyra.

Depois de pendurar a faixa, ela também investiu em outras áreas. Além do quimono rosa, lançado em parceria com sua patrocinadora, ela também tem uma grife de moda esportiva, entrou para o ramo dos eventos esportivos ao realizar o Gracie Pro e vai abrir sua própria academia. Ao parar de competir no jiu-jitsu, ela se preparava para estrear no MMA, projeto deixado para trás.

“Minha vida é totalmente diferente agora. Eu tive duas filhas, meu mundo agora é outro, é só comentar MMA mesmo”, afirmou a tetracampeã mundial, que é casada com o ator Malvino Salvador, também faixa preta de jiu-jitsu, e com quem tem duas filhas: Ayra, de três anos, e Kyara, de oito meses.

Diferença de premiação entre homens e mulheres

Um assunto recorrente nos esporte em geral é a diferença de premiação entre homens e mulheres. No jiu-jitsu não é diferente. Em muitas das competições, os prêmios dados às mulheres são dez vezes menores que os dados aos homens. Ao idealizar o Gracie Pro, evento de jiu-jitsu que teve sua primeira edição realizada no Rio de Janeiro no último final de semana, Kyra deixou bem claro: a premiação seria a mesma no feminino e no masculino.

“Foi uma luta e uma luta bem grande e até hoje a gente segue lutando. A premiação do masculino segue muito maior que a do feminino. Isso foi uma coisa que eu quis mudar totalmente no Gracie Pro. Eu coloquei a premiação totalmente igual no masculino e no feminino. Eu quero incentivar as mulheres a praticar jiu-jitsu. Os benefícios que essa arte traz são essenciais. Pras mulheres então, é importante aprender a se defender no mundo que a gente vive hoje”, disse a comentarista do canal Combate.

Sua trajetória é um exemplo. Uma mulher forte e lutadora, muito além do sentido literal de ambos adjetivos. Cheia de planos, a multicampeã e multitarefas (lutadora, empresária, comentarista, apresentadora, professora) diz ter total consciência de sua missão.

“Sou muito feliz pela minha trajetória, é o que eu amo fazer. E eu acho que eu nasci com uma missão. Eu não nasci Gracie à toa, eu nasci com a missão de divulgar o jiu-jitsu. Vou abrir minha academia agora, tem o Gracie Pro e tenho várias outras ideias de disseminar o jiu-jitsu e poder elevar o nível do esporte, que eu acho que isso falta no Brasil”, finaliza Kyra Gracie.