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Opinião: Ainda dói lembrar daquela derrota no Sarriá 35 anos atrás

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Colaborador do Torcedores

Crédito: Foto: Reprodução YouTube

Muitos jogos de futebol são apenas mais um jogo, alguns se tornam inesquecíveis, outros chegam ao nível de eternos e uns muitos poucos estão na divindade de serem partidas supremas, daquelas que podemos ter a idade que for e chorar feito criança ao recordar uma partida.

E é exatamente como criança que me recordo daquele 5 de julho de 1982, o dia em que um dos melhores times que o Brasil teve foi derrotado e com isso eliminado da Copa do Mundo da Espanha para a Itália, pelo placar de 3 a 2 que dói na alma até hoje.

Já sou um homem feito, tenho 42 anos e voltar 35 anos no tempo e recordar que eu era um menino de 7 naquele dia de julho de 1982 e que como praticamente todo o país se sentou na frente da TV para ver o selecionado nacional, comandado por Telê Santana buscar mais uma vitória. Claro que queria ter visto os jogadores de amarelo saindo com mais uma vitória, que levaria o time à semifinal da competição contra a Polônia, mas como diz uma frase da música “Deixa Chover” de Guilherme Arantes – “Infelizmente nem tudo é, exatamente como a gente quer”…

Com apenas cinco minutos de jogo já víamos que seria uma jornada complicada, quando Cabrini entrou pela esquerda do ataque italiano, sem ser incomodado por Leandro e lançou para Paolo Rossi, nas costas de Luizinho e Junior para fazer Itália 1 a 0. Claro que o Brasil já tinha passado por sustos naquela campanha e dava para buscar o desejado empate que daria a vaga na próxima fase, tanto que aos 9, Serginho teve uma chance, mas chutou para fora e aos 12, Sócrates recebeu a bola no meio e lançou rasteiro, Zico deixou passar e devolveu para o “Doutor”, que recebeu pela meia direita. Avançou e tocou a queima-roupa por baixo de Dino Zoff para empatar a peleja.

O jogo seguia igual no placar e até tinha uma polêmica. Gentile puxou a camisa de Zico dentro da área. O árbitro israelense Abraham Klein deveria ter marcado penal, só que ele ignorou a prova cabal do lance, a camisa 10 do “Galinho de Quintino” rasgada no corpo. Aos 25, uma distração de Toninho Cerezzo foi fatal. Ele tinha a bola dominada e era apenas questão de fazer um mero passe para construir uma nova jogada de ataque. O que vimos foi a bola ir para o pé de Paolo Rossi, que tocou na saída de Waldir Perez para fazer Itália 2 a 1.

O segundo tempo teve um jogo bastante equilibrado. A Itália reclamou um pênalti não marcado em Paolo Rossi e o Brasil tinha tido uma chance de empatar com Falcão, que recebeu um passe de Junior. A bola raspou o pé da trave direita de Zoff. Aos 27, Junior aciona Falcão com um passe de trivela. O volante revelado pelo Internacional e que já defendia a Roma recebeu pela meia direita e cortou para a esquerda, desferindo um chute certeiro de pé esquerdo no gol de Zoff. Jogo empatado em 2 a 2 e até esse momento, Brasil classificado.

Após o gol, Telê fez a sua única mexida no time naquele jogo, sacando Serginho e mandando a campo Paulo Isidoro (então atleta do Grêmio) , só que a Itália veio atrás do gol que a levaria para a semifinal. A Azurra conseguiu um escanteio e na batida de Graziani, a bola viajou até a entrada da área. Oscar não tirou e sobrou no pé de Tardelli, que arriscou o chute. No meio do caminho encontrou Rossi que só desviou para o findo da rede brasileira. Itália 3 a 2. O jogo ainda teve quinze minutos de duração e o Brasil só teve uma chance de gol, no final da partida, quando Eder cobrou uma falta e a bola chegou na cabeça de Oscar, que cabeceou. Zoff defendeu em cima da linha. Era a bola que se entrasse, seria o 3 a 3, mas não foi o gol sonhado, esperado e desejado e sim o apito de um dos maiores prantos coletivos jamais vistos.

A Itália fazia sua merecida festa e o Brasil estava em transe, querendo entender como aquele time que encantou o mundo caiu diante de um adversário que tinha tido três empates na fase de grupos, uma vitória num jogo duro com a Argentina e que rumaria para o sonhado destino do Brasil, o título mundial. O time de Telê voltou para casa e recebeu o carinho de seu torcedor. Muitos de nós choraram quando crianças viram o Brasil festejar as conquistas de 1994 e 2002, mas quanta gente não daria tudo para ter visto um terceiro gol brasileiro naquela tarde no Sarriá? O palco deste jogo e tragédia já nem existe mais na cidade de Barcelona, dando lugar a um conjunto residencial, mas que tem uma placa indicando que ali existiu um estádio.

Em tempo: eu era um dos muitos garotos que viram esse jogo pela TV e choraram a derrota sofrida. Há vitórias e derrotas que formam cárteres e essa foi uma dessas ocasiões. Minha paixão pelo futebol,mesmo chorando uma dolorida derrota cresceu ali. Muito obrigado aos jogadores de Brasil e Itália, por terem feito um jogo empolgante e decidido no campo e na bola.

FICHA TÉCNICA

COPA DO MUNDO DA FIFA 1982 – SEGUNDA FASE

ITÁLIA 3 x BRASIL 2

Local: Sarriá (Barcelona); Juiz: Abraham Klein (ISR), auxiliado por Thomson Tam Sun Chan (HKG) e Bogdan Dotchev (BUL); Público: 44 000; Gols: Rossi 5, Sócrates 12 e Rossi 25 do 1º; Falcão 23 e Rossi 29 do 2º; Cartão amarelo: Gentile e Oriali

ITÁLIA: Zoff, Gentile, Cabrini, Collovati (Bergomi) e Scirea; Tardelli (Marini), Antogoni e Oriali; Conti, Rossi e Graziani. Técnico: Enzo Bearzot

BRASIL: Valdir Peres, Leandro, Oscar, Luizinho e Júnior; Toninho Cerezo, Falcão, Sócrates e Zico; Éder e Serginho (Paulo Isidoro). Técnico: Telê Santana