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PAPO TÁTICO ESPECIAL: As valiosas contribuições de João Saldanha para o Tricampeonato Mundial em 1970

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Produtor executivo da equipe de esportes da Rádio Nacional do Rio de Janeiro, jornalista e radialista formado pela ECO/UFRJ, operador de áudio, sonoplasta e grande amante de esportes, Rock and Roll e um belo papo de boteco.

Crédito: Crédito da foto: Reprodução / Site oficial da CBF

Neste dia três de julho de 2017, um certo personagem bem conhecido da crônica esportiva brasileira completaria um século de idade. Conhecido pelo vocabulário simples e direto, pela personalidade forte, daquelas que não leva desaforo pra casa e por todo amor que teve com o futebol brasileiro. João Alves Jobim Saldanha. O João Saldanha. O “João sem medo” de acordo com Nelson Rodrigues. Talvez o melhor comentarista esportivo que esse Brasil já viu e um dos grandes responsáveis pelo rádio esportivo ter ultrapassado fronteiras e ter se transformado no que é hoje, mesmo com o crescimento da TV e da internet. Com tanto conhecimento do “velho e rude esporte bretão”, João Saldanha chegou a comandar a Seleção Brasileira num período em que ela estava em baixa com o publico. Não por acaso, o “João sem medo” deixou a sua valiosa contribuição para o Tricampeonato Mundial no México. Esse é o tema do nosso PAPO TÁTICO ESPECIAL.

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João Saldanha chegou ao comando da Seleção Brasileira num momento delicado. O time (bastante envelhecido) vinha da eliminação na primeira fase da Copa do Mundo de 1966, na Inglaterra, e precisava de uma injeção de ânimo para a disputa do próximo Mundial, no México. Além disso, Pelé foi caçado dentro de campo e chegou a abandonar a Seleção, mas retornou dois anos depois. Saldanha foi anunciado como novo treinador do escrete canarinho no dia 4 de fevereiro de 1969 e logo tratou de modificar algumas coisas na preparação para a Copa do Mundo do México. A primeira delas foi a formação de um time-base. Seguindo a mesma lógica de técnicos como o italiano Vittorio Pozzo e do húngaro Gusztav Sebes: jogadores que já atuam juntos com frequência terão mais facilidade para se compreenderem dentro de campo. As equipes do Santos e do Botafogo, as melhores do Brasil na época, foram as escolhidas pelo “João sem Medo” para formarem a sua Seleção Brasileira.

A estreia aconteceu no dia 7 de abril de 1969, com uma vitória sobre o Peru por dois a um no Beira-Rio. Mas a grande competição daquele ano era o torneio qualificatório para a Copa do Mundo do México dali a um ano. João Saldanha resumiu bem o que queria do seu time: gols, gols e mais gols. A Seleção Brasileira disputou seis jogos contra Colômbia, Venezuela e Paraguai (ida e volta), obtendo seis vitórias e marcando 23 gols (média de 3,83 por jogo) e sofrendo apenas dois gols. As “Feras do Saldanha” faziam a alegria do povo naqueles tempos difíceis de ditadura militar atuando no 4-2-4 típico daqueles tempos. Do seu time-base (o mesmo da foto acima), seis eram do Santos (Carlos Alberto Torres, Djalma Dias, Joel Camargo, Rildo, Pelé e Edu), dois do Botafogo (Jairzinho e Gérson), dois do Cruzeiro (Tostão e Piazza) e um do Fluminense (o goleiro Félix). A compreensão mútua e o gosto pelo ataque ajudaram a popularizar aquela Seleção.

A Seleção Brasileira de João Saldanha seguia os mesmos preceitos de nomes como Vittorio Pozzo e Gusztav Sebes: jogadores que atuam juntos possuem melhor compreensão mútua. As “Feras do Saldanha” marcaram vinte e três vezes em seis partidas durante as Eliminatórias para a Copa do Mundo do México.

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Os problemas de Saldanha começariam após as Eliminatórias. Em outubro de 1969, num dos períodos mais tristes da história do país, o general Emílio Garrastazu Médici assumia a presidência do Brasil, reprimindo a guerrilha e intensificando a perseguição política. Ao mesmo tempo, via no futebol uma maneira de conquistar a “legitimidade popular” que tanto desejava. Saldanha, conhecido pelas suas posições políticas e habitual sinceridade, não escondia a sua insatisfação com a ditadura militar. A recusa em convocar Dadá Maravilha, um dos preferidos do presidente, e a resposta sobre as razões da não utilização do então jogador do Atlético Mineiro entraram para a história do futebol. O temperamento do “João sem medo” também foi outro fator complicador. Os episódios em que deu dois tiros para o ar depois de uma discussão com o goleiro Manga e quando invadiu o hotel onde estava hospedado Yustrich, então técnico do Flamengo, exibindo um revólver carregado ajudaram a minar o clima de Saldanha na Seleção Brasileira e a relação com a imprensa esportiva. Mas dentro de campo, o time também apresentava alguns problemas.

Depois de uma derrota para o time do Atlético Mineiro, as coisas começaram a se complicar depois de uma derrota por dois a zero para a Argentina (que não tinha se classificado para a Copa do Mundo). Piazza e Gérson haviam sido completamente dominados no meio-campo. Saldanha responsabilizava Pelé pelo problema, acusando o Rei do Futebol de não obedecer as suas ordens para ajudá-los na marcação. Um empate contra o Bangu no dia 14 de março de 1970 e as declarações públicas de que poderia barrar Pelé do time foram a gota d’água e a cúpula da antiga Confederação Brasileira de Desportos optou por “dissolver” a comissão técnica. Do seu jeito característico, Saldanha respondeu que “não era sorvete para ser dissolvido” e voltou para trás dos microfones. A reação não foi das melhores. Saldanha afirmou que Gérson tinha problemas mentais, Pelé não enxergava bem e Emerson Leão tinha braços curtos.

Time que venceu o Paraguai por um a zero no dia 31 de agosto de 1969. Em pé: Carlos Alberto Torres, Félix, Djalma Dias, Joel CamargoCrédito da foto: Reprodução / Site oficial da CBF

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Após as recusas de Otto Glória e Dino Sani, a CBD acertou com Zagallo, campeão mundial em 1958 e 1962 como ponta-esquerda, e visto como uma “opção segura” dentro do ponto de vista ideológico. O Velho Lobo não fez objeções às imposições do regime militar (apesar de não ter escalado Dadá Maravilha no time titular mesmo com o jogador no elenco). Apenas algumas alterações foram feitas no time que vinha jogando: Brito ganhou a vaga na zaga e teve a companhia de Wilson Piazza no setor; Everaldo entrou na lateral-esquerda; Rivellino ganhou a vaga de Edu; o então garoto Clodoaldo ganhou a vaga no meio-campo (sacada de João Saldanha numa vitória sobre a Argentina pouco antes de deixar o cargo); e Tostão foi mantido na equipe apesar das dúvidas e temores da imprensa esportiva. O 4-2-4 de João Saldanha dava lugar a um 4-3-3 extremamente fluido, com trocas de posições e alguns elementos de “futebol moderno”.

Não era raro ver aquela Seleção Brasileira variando o esquema tático e apostando nos contra-ataques. Pela direita, Jairzinho avançava ao ataque e ganhava a companhia de Carlos Alberto Torres nas tramas ofensivas. O contraponto vinha do outro lado, onde Rivellino posicionado mais à esquerda, movendo-se para dentro e também chegando na frente para o potente chute de canhota. E Everaldo, mais defensivo, dava equilíbrio à linha de quatro defensores. O 4-3-3 de Zagallo se transformava num 4-4-2, num 4-2-3-1 (com Pelé e Tostão se revezando no comando do ataque) e até mesmo num 3-4-3 (com os avanços de Carlos Alberto e Rivellino mais aberto pela esquerda). Tais sutilezas numéricas não tinham lá muita importância na época, mas ajudam a mostrar o sucesso daquela Seleção Brasileira de 1970.

A histórica Seleção Brasileira campeã da Copa do Mundo de 1970. Zagallo acertou o time com as entradas de Everaldo, Clodoaldo e Rivellino e deu ao time o equilíbrio que faltava. O time podia varia do 4-3-3 para um 4-2-3-1 apenas com a movimentação dentro de campo.

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Diante de tudo o que foi colocado aqui, qual é a contribuição de João Saldanha para o título em 1970? A primeira delas é a mudança na mentalidade. Desde a eliminação ainda na primeira fase da Copa de 1966 e a despedida da geração vitoriosa de Gilmar, Djalma Santos, Zito, Orlando, Garrincha e Bellini, o torcedor andava meio afastado e um pouco desgostoso com a Seleção Brasileira. Talvez não tanto quanto os primeiros meses após os sete a um para a Alemanha, mas havia uma certa desconfiança da imprensa e dos torcedores no ar. A chegada de Saldanha e o jeito com o qual falava do time foram essenciais na recuperação da confiança em torno da Seleção Brasileira pouco antes do Mundial do México. Faltou um pouco de tato para lidar com a pressão natural do cargo, com os egos dos jogadores e o clima pesado que tomava conta do país nos “anos de chumbo”. Assim como também faltou um pouco de visão para perceber que o usual 4-2-4 estava com os dias contados no futebol mundial.

Talvez a grande sacada de Saldanha na Seleção esteja na escolha de Tostão atuar no comando de ataque no escrete canarinho. O camisa nove não era um centroavante de ofício (jogava com a oito no Cruzeiro), mas tinha inteligência para abrir os espaços no ataque para a chegada do já citado Pelé, Jairzinho, Gérson, Edu e posteriormente Rivellino e até mesmo Carlos Alberto Torres. Com o técnico Gerson dos Santos na Raposa, Tostão se revezava no ataque ao lado de Dirceu Lopes (então camisa dez) e abria espaços para a chegada dos pontas Natal e Rodrigues num dos primeiros 4-2-2-2 da história do futebol. Nos seus primeiros jogos no comando da Seleção, Zagallo aguardou pela recuperação do jogador, que havia passado por uma cirurgia no olho, para montar o time que julgava ideal. Tanto que muitos autores e jornalistas citam os “cinco camisas dez” da Seleção Brasileira de 1970. Um outro ponto a seu favor é a montagem do elenco. Embora não tenha conseguido equilibrar o time, Saldanha convocou a grande maioria dos jogadores que estariam no México.

Crédito da foto: Reprodução / Site oficial da CBF

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A discussão sobre a contribuição de João Saldanha para a conquista do tricampeonato mundial em 1970 duraria meses. E ainda assim, não chegaríamos a uma unanimidade. Certo é que o “João sem medo” escreveu seu nome na história do futebol brasileiro não apenas como um dos maiores comentaristas esportivos que esse país já conheceu, mas como um treinador que iniciou um processo que culminaria simplesmente no maior time de futebol de todos os tempos. Se Zagallo organizou a equipe e entrou para a história como o primeiro a ser campeão da Copa do Mundo como jogador e como treinador, João Saldanha plantou as primeiras sementes um ano antes da conquista histórica e fincou os pilares e escolheu a maioria das peças. Não por acaso, na partida decisiva contra a Itália, o “João sem medo” chorou após o apito final.

Fica aqui a singela homenagem de um admirador ainda que tardio da obra e do legado do eterno João Saldanha. Seja como cronista ou como treinador.