Lucão, morte em campo e tapetão: conheça o Gil Vicente

O empréstimo do zagueiro Lucão, do São Paulo, ao Gil Vicente, de Portugal, colocou o desconhecido clube europeu nas manchete da mídia brasileira. Pouco se sabe sobre os gilistas aqui no Brasil. A história da equipe de Barcelos, porém, tem muitos episódios curiosos.

Willian Ferreira
Colaborador do Torcedores.com e contador de histórias do esporte.

Crédito: Norberto Valente/ComUM Online

Nome

As curiosidades a respeito clube começam já no nome. Ao contrário do que muitos pensam, o Gil Vicente não tem esse nome por ser uma homenagem direta ao famoso dramaturgo português, autor de obras como “Auto da Barca do Inferno”, “Auto da Lusitânia” e “Farsa de Inês Pereira”.

O clube foi fundado por um grupo que se reunia com frequência no Largo Doutor Martins Lima. Por conta do Teatro Gil Vicente estar localizado no local, a equipe foi batizada com o nome do teatro – que poderia ser qualquer outro.

Sobre o dramaturgo português, cabe a explicação: seu local de nascimento segue desconhecido. Barcelos, a cidade do Gil Vicente FC, é uma das hipóteses. Outras cidades apontadas como terra-natal dele são Guimarães, Lisboa e o centro de Portugal – região conhecida como Beira.

Mascote

A cidade que abriga o Gil Vicente é mundialmente conhecida pela lenda do Galo de Barcelos. A história conta que um crime aconteceu na cidade e não havia sequer um suspeito. Um galego, que supostamente estava em peregrinação até Santiago de Compostela, foi preso e condenado à forca.

Quem chega e quem sai dos clubes?

 

O galego pediu para ser levado à presença do juiz que o condenou pouco antes da execução. O magistrado, que estava em um banquete, ouviu a célebre frase do condenado:

“É tão certo eu estar inocente, como certo é esse galo cantar quando me enforcarem”.

Enquanto ia à forca, o galo saltou da mesa e cantou. O juiz correu até o local da execução e descobriu que o galego se salvou por conta de um nó mal feito. Anos depois, o “quase enfocado” voltou a Barcelos e esculpiu o “Monumento do Senhor do Galo”, o tão famoso Galo de Barcelos.

Início e morte em campo

Fundado em 1924, o Gil Vicente só alcançou a Primeira Liga do futebol português na temporada 1990-1991. Antes disso, porém, dois episódios merecem destaque.

O primeiro estádio do Gil Vicente foi o Campo da Estação, de propriedade de outra pequena equipe de Barcelos – o Triunfo. O primeiro estádio próprio dos gilistas foi o Campo da Granja, inaugurado em 1933.

A história do Campo da Granja foi brutalmente marcado em 1945. No dia 16 de setembro de 1945, em uma partida entre o Gil Vicente e o Desportivo Aves, o goleiro gilista Adelino Ribeiro Novo saiu do gol e buscou a bola nos pés do atacante adversário. A defesa foi feita, mas ela não impediu um forte impacto do atacante com o baço do arqueiro.

O jovem goleiro do Gil Vicente morreu tempos depois. A cidade de Barcelos, então, rebatizou o estádio com o nome do vitimado.

Revolução dos Cravos

Até 1974, Portugal vivia o Estado Novo. O regime autoritário, iniciado e tocado por Antonio de Oliveira Salazar e concluído por Marcelo Caetano, foi derrubado pela Revolução dos Cravos, em 25 de abril. A data, até hoje, é comemorada como feriado nacional em Portugal.

Após a Revolução, iniciou-se o PREC (Processo Revolucionário em Curso), uma série de atitudes que buscavam estabelecer a democracia em Portugal. O período teve, também, muitas manifestações contrárias de setores ainda ligados ao Estado Novo e ao conservadorismo.

Um dos setores ligados ao antigo regime era a igreja. Em plena temporada 1974/1975, o padre José Maria Furtado, de Barcelos, torna-se dirigente do Gil Vicente.

A atitude desagradou a muitos, fazendo com que o Gil Vicente se tornasse uma equipe detestada durante alguns anos. A história, porém, começou a mudar pouco depois.

Na temporada de 1976/1977, o Gil Vicente chegou à semifinal da Taça de Portugal, perdendo no jogo-extra para o Braga. No ano seguinte, nova boa campanha no torneio: perdeu nas quartas-de-final, para o Porto.

Primeira Liga

Tão sonhado pelos torcedores, a chegada do Gil Vicente à Primeira Liga aconteceu na temporada 1990/1991. Logo na primeira temporada, os gilistas venceram o Sporting no Adelino Ribeiro Novo. Na seguinte, a equipe de Barcelos venceu o Porto.

Um atacante sérvio do Gil Vicente chamou a atenção na temporada 1992/1993: Ljubinko Drulovic. Ele foi contratado pelo Porto em 1994 e fez 225 gols pelos tripeiros. Em 1994/1995, a equipe venceu não só uma, mas duas vezes o Benfica.

Volta e tapetão

O Gil Vicente foi rebaixado na temporada 1996/1997. Voltou em 1999/2000, e com a melhor campanha da história do clube: a quinta colocação na Primeira Liga. A equipe tinha Petit (que jogou na seleção entre 2001 e 2008 e foi campeão nacional com Boavista e Benfica), Ricardo Nascimento e Carlitos como destaques.

Nascido em Barcelos, Carlitos foi revelado pelo Gil Vicente em 1995 e foi direto para o Real Madrid. Com passagens pelas seleções de base, ele voltou por empréstimo para os gilistas.

Em 2002/2003, Luís Loureiro foi chamado à seleção portuguesa por Luiz Felipe Scolari – primeiro atleta do clube a ser convocado.

Em 2004, a equipe deixa o Estádio Adelino Ribeiro Novo e vai para o recém-inaugurado Cidade de Barcelos.

Tudo ia bem até a temporada 2005/2006. O Gil Vicente foi rebaixado no chamado “Caso Mateus”. Angolano, Mateus foi contratado pelo Lixa (clube amador de Portugal) junto ao Felgueiras (profissional) antes do interesse gilista.

Em Portugal, o contrato de futebolistas amadores tem duração mínima de um ano. O Gil Vicente contratou Mateus há menos tempo que isso. Após perder no âmbito desportivo, levou o caso à justiça comum e também foi derrotado na causa. Na temporada seguinte, jogou a Segunda Liga – e só voltou em 2011/2012. Em 2014/2015, voltou a ser despromovido.

Brasileiros

Assim como boa parte das equipes de Portugal, o Gil Vicente possui brasileiros em seu elenco. Além de Lucão, o time gilista tem outros antigos jogadores do São Paulo no elenco.

Zagueiro revelado pelo próprio São Paulo, Luiz Eduardo passou por Náutico, Comercial, Boa Esporte, Rio Claro e Juventude antes de ser contratado pelo time de Barcelos, em 2006. Vitor Tormena, também da base tricolor, está emprestado à equipe.

O Gil Vicente também conta com Rafael Batatinha (revelado pelo Bahia em 2011) e Bruno Dybal (lançado pelo Palmeiras e com passagens por Oeste e Figueirense).

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