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Espinosa vê elo entre 1983 e time atual, faz previsão sobre Renato e diz: “O Grêmio é tudo”

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Jornalista formado pela PUCRS em agosto de 2014. Dupla Gre-Nal.

Espinosa

Foto: Grêmio

Crédito: Foto: Assessoria/CBF

Foi com Valdir Espinosa na casamata que o Grêmio alcançou suas primeiras grandes glórias. Gaúcho de Porto Alegre, o atual coordenador-técnico gremista entrava apenas no seu quarto ano como treinador profissional quando elevou o tricolor a um outro patamar. Da área técnica, o ainda novato Espinosa viu César testar para as redes do Olímpico e garantir a primeira Libertadores ante o Peñarol; meses depois, do outro lado do mundo, foi um espectador privilegiado do show de Renato diante do Hamburgo na conquista do Mundial.

Passaram-se 34 anos da conquista da primeira Libertadores, mas nem o longo período foi capaz de tirar o sorriso do rosto de Espinosa. Com o sentimento estampado de alegria, cercado por gremistas, o ex-técnico comemorou o “aniversário” do título sobre o Peñarol na última sexta-feira, em Porto Alegre, no bar Brechó do Futebol (Fernando Machado, 118, Centro), e gentilmente conversou com a reportagem do Torcedores.com.

Valdir Espinosa e Renato Gaúcho na volta ao clube na temporada de 2016 – Foto: Grêmio

“Eu queria sentir o torcedor mais perto. Depois de 34 anos, como eles reagiam a isso. Alguns estavam até no Olímpico, outros viram pela televisão, rádio. E outros nem nascido eram. E aí tu olha para a cara de todos eles e vê alegria. Mas o mais importante, além disso, é que eu queria dizer para o torcedor gremista: “Obrigado””, resumiu um realizado Valdir Espinosa.

Ao lado dele, jogadores decisivos no título continental de 1983 como China e Casemiro também estiveram presentes no evento que reuniu cerca de 100 torcedores. À reportagem, em um bate-papo de cerca de 30 minutos, o coordenador e fiel parceiro de Renato Gaúcho traçou algumas semelhanças entre o grupo de 83 e o time atual, fez uma previsão sobre o futuro de Renato e ainda se derreteu ao Grêmio.

(Se preferir, OUÇA a entrevista clicando aqui)

Torcedores.com: O que significa para ti, um homem com grande experiência no futebol, uma noite de comemoração de aniversário de 34 anos da primeira Libertadores do Grêmio?

Valdir Espinosa: Rapaz… eu venho aqui sempre. Então, eu fiz amizade com o pessoal do Brechó do Futebol. E aí me veio a ideia, já que são 34 anos, e nós comemoramos esses 34 anos da Libertadores de 1983 de várias maneiras. Eu queria sentir o torcedor mais perto. Depois de 34 anos, como eles reagiam a isso. Alguns estavam até no Olímpico, outros viram pela televisão, rádio. E outros nem nascido eram. E aí tu olha para a cara de todos eles e vê alegria. Mas o mais importante, além disso, é que eu queria dizer para o torcedor gremista: “Obrigado”. Através de uma entrevista eu já tinha agradecido várias vezes, mas eu nunca tinha feito frente a frente. Não sei quantos gremistas estavam aqui, 50, 100… mas através de todos eles eu via milhões de gremistas ouvindo o meu “obrigado”. Pelo carinho. Eu tenho a felicidade de ter trabalhado em vários times, tenho o carinho de várias torcidas, mas claro que o Grêmio é diferente. No Grêmio, com 15 anos, eu lá cheguei para jogar. Eu não era Grêmio, eu era Renner. E aí passei a torcer para o Grêmio. No Grêmio foi o início, não como treinador, porque como treinador foi no Esportivo, de Bento Gonçalves. Foi o início de uma trajetória grande. Eu digo brincando sempre. Eu tinha 35 anos e fui campeão da Libertadores e com 36 do Mundial. E se fosse hoje? Se fosse hoje eu estaria hablando com Neymar e Messi, como entrenador del Barcelona, por supuesto (risos).

T: O que ficou de toda aquela época?

VE: O carinho do torcedor. Eu brinco com eles. Chegam e dizem: “Desculpe te incomodar, mas podemos tirar uma foto?”. Eu digo: “Uma foto não, duas. Um autógrafo não, dois”. Isso representa tudo aquilo que eu entendo ser o papel do treinador, do dirigente, do jogador. O time é a torcida, sempre.

T: Sobre o time de 1983, qual a tua principal lembrança? É a únião que o grupo tinha, é algum jogo específico? O que te marcou?

Espinosa em entrevista ao Torcedores.com

VE: Em primeiro lugar, o grupo. Era unido de uma forma extraordinária. Se não existe comprometimento, não existe a vitória. Sem cumplicidade, não tem sucesso. O importante é você mostrar aos jogadores que eles podem colaborar dando opinião, fazendo crítica, porque assim, estando envolvidos, eles olham e pensam assim: “Poxa, esse sucesso tem uma parte minha”. Isso era importante. Tinham total liberdade para conversar e o faziam de uma forma educada. Podiam discordar e faziam de forma inteligente. Tudo isso fez com que o grupo de 1983 fosse forte. Ele tinha garra, característica gaúcha, mas tinha uma qualidade técnica. Basta ver um Tita, um Renato, um Osvaldo, um Paulo Roberto, enfim. Além deles, tínhamos jogadores com muita raça, para dar o aporte para as vitórias que tivemos.

T: Aqueles títulos pelo Grêmio mudaram a tua trajetória como treinador?

VE: Era o meu quarto ano como treinador, início de carreira. Se tu consegue um título de Libertadores e um Mundial, tu não abre uma porta, abre um verdadeiro portão. Aquilo ajudou e me proporcionou que eu fosse para outras equipes e conquistasse outros títulos, em função daquele aprendizado que eu tive com o Grêmio. Ganhar uma Libertadores e um Mundial é somar uma experiência incrível, que poucos têm a chance de ter. Então isso, com certeza, foi muito importante para o desenvolvimento da minha carreira. Ali aprendi uma primeira grande lição que levo até hoje. Por ser jovem e ainda inexperiente, eu procurava ouvir. E esse “ouvir” me ensinou muito. Levo até hoje. Continuar ouvindo, continuar vendo, para poder aprender e crescer ainda mais.

T: Sobre o time de hoje. Eu tenho feito a cobertura de todos os jogos do Grêmio na Arena e me surpreende a forma como esse grupo se gosta, com uma união evidente, que vai dos jogadores aos funcionários. Essa é uma das receitas desse sucesso atual?

VE: Exatamente, é exatamente isso. É aquilo que eu disse anteriormente: comprometimento. Eles sabem que um depende do outro. Eu disse uma coisa ao grupo quando tive a oportunidade, com a liberdade que o Renato dá. Disse a eles, antes de algum jogo da Copa do Brasil, que lá estava uma taça. Mas ela não vem até nós. Nós que temos de ir em direção a ela e pegá-la. Mas tem mais quantos times que também querem? Que tem o mesmo objetivo? Só chega um e esse um precisa ser melhor que os outros. Então, com esse espírito, é que o Renato conseguiu desenvolver ideias próprias dentro dessa filosofia de estarmos juntos, de nos ajudarmos, de comprometimento, de liberdade, de alegria, de respeito. Tudo isso aí é algo que o Renato traz e daquilo que o Renato aprendeu. Ele participou de equipes vencedoras não apenas no Grêmio. No Flamengo, Fluminense, Cruzeiro… E toda a equipe campeã precisa estar comprometida, sem soberba.

T: Esse grupo do Grêmio absorveu completamente essa ideia de união?

Ao lado do “parceiro” Renato – Foto: Grêmio

VE: Com certeza. A prova está no ano passado. Eram 15 anos de uma cobrança de não ter título e buscamos o primeiro título da Arena. Esse grupo mostrou que tem essa qualidade. De suportar pressão, suportar peso, e de saber que precisa trabalhar muito para conquistar um sonho. Tivemos algumas mudanças, tivemos problemas de lesão, mas esse grupo em sua maioria foi mantido. E a ideia é cada vez mais é melhor trabalhar em cima dele.

T: A gente sabe que o Renato é um “cidadão” do Rio de Janeiro, gosta de praia, gosta do futevôlei… mesmo dentro dessa realidade, a torcida do Grêmio pode ficar otimista e aguardar um trabalho a longo prazo, de repente uns três ou quatro anos seguidos de Renato no Grêmio?

VE: Eu tenho quase certeza que isso vai acontecer, em função de uma outra certeza que eu tenho, de que o Grêmio vai ser tricampeão da Libertadores e bicampeão mundial. Se nós olharmos dentro desse raciocínio, que não é incorreto, basta ver o período que o Renato já está no Grêmio. Menos de um ano? Sim, mas ele virou o ano e seguiu. E para mim não será surpresa porque ao olhar para o Renato, ele também, ele Renato, tem esse comprometimento. Esse sonho de permanência não é um sonho individual. É um sonho coletivo, que o Renato também tem. Para você conquistar esse desejo, porque o Renato não só é treinador como é torcedor do Grêmio, ele realmente quer o sucesso desse clube. Esse é o ponto importantíssimo e que diferencia um outro tipo de situação. Não quero dizer que o treinador, por ser assim, ele é melhor que outro por isso. Mas dá uma diferença. Essa minha identificação com o Grêmio e a do Renato dá um charme ao torcedor e ao trabalho. Se eu fosse responder a tua pergunta há dois anos, realmente eu diria que “é, pode ser, difícil… realmente o Rio de Janeiro é bonito, realmente o futevôlei é bem legal”. Mas como estou te respondendo hoje, veja bem, hoje, para mim não será surpresa ele ficar dois ou três anos seguidos no Grêmio. Até porque, se isso acontecer, eu vou ficar sete, oito, nove ou dez…

T: Para encerrar, duas. A torcida do Grêmio pode esperar um grande título ainda esse ano? E o que o Grêmio representa pra ti?

VE: A torcida do Grêmio sonha, como nós sonhamos, com Libertadores, Brasileiro e Mundial. E se você fizer essa pergunta para os torcedores, e para mim também porque sou gremista, vamos dizer que queremos ser tri da Libertadores e bi do Mundial. É o sonho que temos. Sonhar é importante, mas o mais importante é saber transformar esse sonho em realidade. Todos trabalham dentro desse aprendizado para que isso realmente aconteça. E o Grêmio para mim é tudo. É o lugar onde eu aprendi não apenas a ser jogador ou a ser treinador, eu aprendi a ser homem. Meu pai me ensinou muito, mas foi no Grêmio, quando lá cheguei com 15 anos de idade, que eu aprendi. Sou do tempo que dirigente puxava minha orelha e eu era ainda infanto-juvenil e o presidente do Grêmio me puxou orelha, imagina isso. Depois como juvenil também aprendi muito com os dirigentes máximos do clube na época. Eu era um garoto apenas. Ao Grêmio, eu sou eternamente grato. Ao Grêmio, sempre digo uma coisa: muito obrigado por me fazer ser gremista.