Palmeiras Livre: movimento luta contra homofobia nos estádios e enfrenta ataques na internet

O futebol é o principal esporte do povo brasileiro, e assim como acontece no dia-a-dia, o preconceito também está presente nesse meio. Não é todo dia que ouvimos falar de movimentos criados pelos próprios torcedores para combater a intolerância nos estádios, mas o Palmeiras Livre foi criado com o intuito de mudar essa situação.

Danielle Barbosa
Colaborador do Torcedores

Crédito: Foto Reprodução/Facebook

O Torcedores.com conversou com a fotógrafa e educadora Thaís Nozue, criadora da página no Facebook.“O Coletivo Palmeiras Livre surgiu em 2013, quando houve um “boom” de torcidas livres e queers, principalmente a Galo Queer. Surgimos pela necessidade da representatividade de um público historicamente oprimido e excluído dos estádios”, disse Thais.

Thaís ainda ressaltou que o coletivo não expõe sua luta contra o preconceito por medo. “Não somos uma Torcida Organizada. Frequentamos o estádio, contudo não com camisetas do coletivo e nem bandeiras, pois temos medo de violência”

A página do Palmeiras Livre possui mais de sete mil curtidas no Facebook, e a criadora revela que ainda sofre ofensas. “Acontece com frequência, sempre que algum post viraliza ou quando saem matérias sobre o tema”.

Questionada sobre a falta de incentivo dos clubes, das entidades que comandam o esporte e até mesmo da imprensa, Thais destacou a omissão sobre o assunto. Ainda há um enorme desconforto na sociedade em geral de associar o time à luta LGBT, antirracista e antimachista. O Brasil é o país no qual ocorre mais mortes LGBT e entidades ligadas ao esporte são muito omissas. Deveria ser uma luta de todas e todos.

Confira outros trechos da entrevista:

Torcedores.com: O que pode ser feito a curto prazo para acabar com o preconceito nos estádios?

Palmeiras Livre: Visibilidade, segurança de quem se manifesta, adesão à causa pelos clubes e entidades ligadas ao esporte, maior veiculação sobre o tema fora de datas específicas seria um belo começo.

Torcedores.com: Como você, que tem movimento que luta contra homofobia, vê o grito de “bicha” nos estádios?

Palmeiras Livre: É um absurdo, né? Primeiro que ser homossexual não é ofensa. Segundo que é de uma ignorância sem tamanho uma torcida acreditar que chamando o adversário de “bicha” irá desestabilizar o goleiro. Terceiro que isso é muito “5ª (série) D”. E mais inacreditável ainda que esse questionamento não seja feito para a grande imprensa, emissoras de grande porte que transmitem os jogos, sobre o que eles acham sobre esse grito. Afinal não há qualquer desconforto de quem narra, aparentemente, sobre esse grito. Porque o que nós achamos, bem, é muito óbvio.

Torcedores.com: E as provocações dos rivais com torcedores do São Paulo e toda aquela história do “bambi”, inclusive, criada pelo ex-jogador Vampeta. Isso é um preconceito disfarçado de piada?

Palmeiras Livre: O tipo de preconceito e opressão que impera na sociedade é o velado. É uma absurdo que as pessoas ainda usem a sexualidade de alguém como ofensa. Assim como os rivais chamam os cruzeirenses de “Maria”, como se ser mulher fosse uma ofensa, adversários chamam são-paulinos de “Bambi”. Ser gay não é uma ofensa. É um orgulho.

Torcedores.com: Você acha que algum dia veremos gays jogando futebol profissional sem medo de assumir a orientação sexual?

Palmeiras Livre: Sim, acredito, senão não haveria razão de existirmos. Assim como já há uma liga LGBT de vôlei, esperamos o mesmo no futebol. Vários times já estão se organizando e esperamos que isso aconteça logo.

Casos recentes:

Foto: Reprodução/Facebook Alma Celeste

Recentemente, dois episódios de intolerância sexual ganharam destaque nas manchetes esportivas do Brasil, sem que qualquer providência séria fosse tomada para que caso como esses não se repitam.

O primeiro caso aconteceu em Belém, no Pará, quando integrantes da Banda Alma Celeste, torcida organizada do Paysandu, decidiram demonstrar apoio à causa LGBT abolindo o grito de “bicha” das arquibancadas e abrindo uma bandeira com um arco-íris no jogo contra o Luverdense, pela Série B do Campeonato Brasileiro.

Em nota publicada em seu site oficial, a Banda Alma Celeste revela que vários membros da torcida foram agredidos fisicamente por outros torcedores do clube paraense.

Foto: Reprodução/Twitter

No mesmo fim de semana, o clássico entre Atlético-MG e Cruzeiro, pela rodada da Série A do Brasileirão, também ficou marcado pelo preconceito. Algumas ruas do entorno do Estádio Independência receberam faixas com um arco-íris e a frase “Sejam bem vindas” (sic), colocadas nas ruas percorridas pela torcida cruzeirense – apelidados de “marias” pelo por torcedores rivais – para chegar ao local da partida.

Sport Clube Gaúcho:

Em julho, vazou e viralizou um vídeo de quatro jogadores do Sport Clube Gaúcho, time da terceira divisão, encenando relações íntimas. As imagens foram gravadas no vestiário do clube, depois de um treino. Os atletas envolvidos no caso tiveram seus contratos rescindidos com o clube, que negou que a motivação tenha sido homofóbica.

Futebol para gays:

Foto: Reprodução/Facebook Unicorns

“Grupo de esporte em prol da diversidade”, “Aqui a única regra é a diversão”, “Escolha seu esporte, abrace a diversidade e some a essa família. #GoUnicorns”.

Esses são alguns dos slogans adotados pelo Unicorns FC, um time de futebol amador criado em 2015 para reunir pessoas LGBT para se divertir e jogar futebol em um clube no Ipiranga, zona sul de São Paulo.