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Antigo palco de glórias, Olímpico sofre com abandono, saques e indefinição

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Jornalista formado pela PUCRS em agosto de 2014. Dupla Gre-Nal.

Crédito: Velho palco gremista partido ao meio entre o que resiste e o que já agoniza - Foto: Eduardo Caspary/Torcedores.com

O dia era 17 de fevereiro de 2013. Ainda que o verão estivesse no auge, o sol de Porto Alegre resolveu não iluminar o velho casarão em sua despedida. Até ele deveria estar triste com o adeus do Olímpico Monumental, que, nessa data, sob céu nublado, recebeu a derradeira partida e viu o Grêmio vencer o Veranópolis por 1×0, com gol de cabeça do zagueiro Werley, ainda nas fases iniciais do Gauchão. A partir de então, o tricolor mudou-se de vez para Arena e deu início a uma nova história, enquanto a antiga casa passou a agonizar com o abandono e a indefinição.

Rua José de Alencar, quarta-feira, 30 de agosto. São quatro horas da tarde. A reportagem do Torcedores.com para em frente ao portão principal do Olímpico e se vê diante de grades altas, lacradas, que servem como uma espécie de proteção ao abandono. Atrás, uma equipe de seguranças – administrada pelo Grêmio – se reveza e tenta cumprir protocolarmente aquilo que o clube determinou: ninguém mais pode entrar no palco que, ao tricolor, abrigou títulos como a Copa Libertadores de 1983 e o Campeonato Brasileiro de 1996.

A situação degradante ainda não tem data para ser modificada. Quando assinou o contrato com a empresa OAS para a construção da Arena, no Humaitá, zona norte de Porto Alegre, o Grêmio colocou o terreno do Olímpico, cerca de 8 hectares, à disposição da empreiteira como forma de barganhar o preço do novo estádio – concluído no final de 2012 e inaugurado em um amistoso contra o Hamburgo, em 8 de dezembro daquele ano. Mas a área que abrange a antiga casa só será cedida à OAS quando a compra da Arena for efetuada pelo Grêmio, em uma negociação que segue arrastada e sem prazo para conclusão.

O fato é que o clube não cederá o Olímpico à OAS enquanto o pagamento da compra da Arena não for desonerado pelos bancos – este quesito é garantia para o financiamento junto ao BNDES. Com um contrato complexo, a parceria cada vez mais enfraquecida e a presença frequente da construtora dentro das investigações da Operação Lava-Jato, o tema parece longe de uma resolução – ao jornal Zero Hora, em março desse ano, o presidente gremista Romildo Bolzan chegou a dizer que o Grêmio não faria mais as articulações do negócio e esperaria uma tomada de posição da OAS.

Enquanto isso, o Olímpico agoniza. Por conta de um aditivo no contrato entre Grêmio-OAS em 2013, o velho palco gremista começou a ser demolido e o ingresso de máquinas para a retirada de concreto foi autorizado, o que pouco durou. Por isso, é possível ver atualmente o estádio partido ao meio entre o que já foi destruído e o que, a duras penas, resiste. Em contato com a reportagem do Torcedores, o diretor jurídico do Grêmio, Nestor Hein, explicou de que forma o clube ainda tem responsabilidade sob o que restou do estádio e admitiu gastos com manutenção mínima.

“O que ainda acontece sobre essa situação é o seguinte: toda a edificação e todos os terrenos adjacentes ao antigo estádio Olímpico continuam como propriedade do Grêmio. A manutenção do espaço e a segurança também seguem feitas pelo clube. Lá nós temos uma equipe que se reveza. São três turnos de pessoas que ficam 24 horas, sábados e domingos, para zelar por aquele prédio. O Grêmio só não pinta novamente o Olímpico, ou dá uma nova utilidade, porque ele é o imóvel para cumprir a troca pela Arena”, explicou – OUÇA:

Em outras palavras, o clube não pode se responsabilizar mais pelo futuro do velho estádio, uma vez que ele é peça central no arrastado processo de compra da Arena. De acordo com Hein, o Grêmio não tem nenhuma responsabilidade na futura implosão para o início das obras do conjunto habitacional, previsto no projeto estabelecido pela OAS. O diretor relembra, no entanto, que a demolição total só se dará após a aquisição da nova casa, o que reserva ao Olímpico um período ainda indefinido de abandono e insegurança.

Paredes pichadas, vasos sanitários atirados e matagal: para quem vê de fora, Olímpico assusta

Tudo atrasou dentro do processo estabelecido pela OAS e pelo Grêmio. A partir da inauguração da Arena contra o Hamburgo, em dezembro de 2012, imaginava-se que o clube só jogaria na nova casa – aliás, o Gre-Nal terminado em 0x0 na última rodada do Brasileirão daquele ano era encarado como o “último jogo do Olímpico”, que ainda acabou recebendo jogos do Gauchão de 2013. O tricolor, enquanto instituição, demorou além do previsto para levar sua sede administrativa, materiais e outros itens para a Arena. E as obras, que iniciaram tarde e pouco duraram, transformaram o antigo palco de glórias em um cenário que assusta.

Paredes pichadas, algumas até com críticas políticas, antecedem a visualização do que sobrou do Olímpico quando a reportagem lentamente caminha pela calçada da Avenida Cel Gaston Mazerom, do lado oposto à Avenida Carlos Barbosa. Ao encontrar o pátio do estádio, o cenário indica um longo matagal ao fundo da parte traseira da arquibancada, que embaixo abriga inúmeros vasos sanitários quebrados. Mais adiante, ao lado do principal campo para treinamento, a antiga caixa de areia para trabalhos de preparação física está completamente tomada pela grama.

Antiga caixa de areia do Olímpico e o que sobrou dela – Foto: Grêmio.net e Eduardo Caspary/Torcedores.com

Mas o prejuízo não é apenas estético e no aspecto histórico aos gremistas: o local abandonado se tornou um prato-cheio para atividades que em nada têm a ver com o futebol. A reportagem obteve relatos de insegurança maior entre os vizinhos e até mesmo de saques entre itens antigos do estádio, conforme observou o torcedor gremista Marcelo Antiqueira, 26 anos, que, por amor ao velho casarão, garante que costuma visitar o Olímpico com certa frequência.

“É fato. Já presenciei cenas de insegurança na área que abrange o Olímpico. Não é um terreno totalmente iluminado, é parcialmente iluminado. E é uma área enorme. Acaba tendo invasões, saques, mas até o próprio torcedor comum entra para pegar uma recordação, uma cadeira, um vidro, um tijolo, não necessariamente para vender e lucrar com aquilo. São torcedores normais do clube”, lamentou.

A assiduidade de moradores de rua no entorno do terreno preocupa quem tem residência na região. No mesmo dia em que o Grêmio se preparava para vencer o Fluminense por 3×1 na Arena, pela Copa do Brasil deste ano, um princípio de incêndio causado por transeuntes assustou quem passava por uma das arquibancadas inferiores do Olímpico. Graças ao rápido trabalho do Corpo de Bombeiros, não houve danos mais significativos.

Letreiro da Grêmio Mania não suportou – Eduardo Caspary/Torcedores.com

Até relatos de tráfico de drogas já foram vistos a partir da inutilidade do campo. No dia 4 de janeiro do ano passado, uma matéria divulgada pelo jornal Diário Gaúcho, de Porto Alegre, trouxe declarações de moradores que lamentavam o fato do Olímpico ter virado uma “cracolândia”. Além do medo pelo clima de insegurança criado, os vizinhos do Olímpico sofrem com a indefinição quanto ao futuro. No início do projeto, a OAS chegou a cadastrar os moradores mais próximos para a eventual retirada das casas anexas, já que o processo de implosão necessitaria de espaço. Mas a indefinição geral traz a incerteza da permanência nos próprios lares.

Antiqueira, que diz ter ido somente duas vezes na Arena – sendo uma delas no velório recente do ex-presidente Hélio Dourado -, enquanto costumava ir em uma média de 10 jogos por ano no tempo do Olímpico, se sente tocado pelo atual cenário no qual a antiga casa está envolvido. “O Olímpico não foi um estádio construído em um estalar de dedos, botando um par de cimento aqui, outra viga ali e está pronto. Não. O Olímpico foi crescendo junto com o time, foi se desenvolvendo junto com o Grêmio. Eu não sei, mas aquele estádio tinha alma”.

De fato, o Olímpico levou exatos 26 anos para ser considerado totalmente concluído. Projetado pelo arquiteto Plínio Almeida, que venceu um concurso para este fim, o estádio foi inaugurado em 1954, com uma vitória do Grêmio por 2×0 sobre o Nacional do Uruguai. Mas a construção só foi dada como finalizada em 1980, com o fechamento do anel superior.

“Condutor” da paixão pelo Grêmio, Olímpico era símbolo de relação entre pai e filho para torcedor

“O Olímpico foi o condutor para a minha grande paixão pelo Grêmio”. Foi dessa forma que Roger Weber, 25 anos, definiu a sua relação com o antigo palco dos jogos do clube do coração. Para o torcedor, o estádio não representava apenas a casa do time que torcia: era, também, o símbolo de uma relação familiar que se fortalecia a partir do tricolor e do seu velho lar.

“Foi o primeiro estádio de futebol que pisei na vida. Eu tinha 5 anos de idade. Se eu fechar os olhos, posso sentir e lembrar quando adentrei aos portões do segundo anel de mãos dadas com meu pai. Tremia de alegria e nervosismo, coração batia forte. Mesmo criança e vendo aquele majestoso estádio eu poderia ver e sentir que estava em casa. O Olímpico nada mais é que o grande divisor de águas do enorme amor que sinto pelo Grêmio e pelo futebol”, sintetizou.

Convidado pela reportagem a relembrar em vídeo um jogo marcante que presenciou no Monumental, Roger escolheu uma partida relativamente recente – talvez um dos últimos grandes duelos da história do Olímpico. Ainda determinado a quebrar o longo jejum de grandes títulos, o bravo e aguerrido Grêmio montado por Silas, em 2010, mostrava sua força diante do Santos, que naquele ano despontava a dupla Neymar e Ganso.

Roger, Marcelo, Hein e o próprio Santos visitaram o Olímpico outras vezes depois daquele incrível 4×3 a favor do tricolor, naquele 12 de maio de 2010. O estádio já se encaminhava para os últimos suspiros, mas ainda respirava justamente no ano do último título gremista dentro dele: o Gauchão, sobre o Internacional. Dois anos se passaram e o Grêmio foi seguir sua história a quilômetros de distância. A Arena já é a segunda casa dos gremistas, que seguem ao pé da letra o hino do clube e estão com o Grêmio onde o Grêmio estiver.

Mas ainda há Grêmio no Olímpico.

CRONOLOGIA DO ESTÁDIO OLÍMPICO MONUMENTAL:

19 de setembro de 1954 – Projetado pelo arquiteto Plínio Almeida, o estádio é inaugurado com vitória do Grêmio por 2×0 sobre o Nacional, do Uruguai.

1980 – Olímpico é dado como 100% concluído a partir da finalização do anel superior. Nasce a alcunha de “Olímpico Monumental”.

28 de julho de 1983 – Grêmio é campeão da Libertadores dentro do Olímpico. Após vencer o Peñarol por 2×1, com gols de Caio e César, tricolor celebrou sua primeira grande conquista no estádio.

15 de dezembro de 1996 – Grêmio se torna bicampeão brasileiro, em Porto Alegre, ao vencer a Portuguesa por 2×0.

2006 – Clube elabora plano para revitalizar o Olímpico, mas o então diretor Eduardo Antonini volta da Alemanha com o projeto de um novo estádio. Nasce a Arena.

19 de dezembro de 2008 – Grêmio e OAS oficializam parceria para a construção da Arena. Contrato estipula que terreno do Olímpico passa a ser da construtora assim que o clube efetivar a compra do novo estádio – o que ainda não ocorreu.

2 de maio de 2010 – Inter até vence o Grêmio por 1×0 no segundo jogo da final do Gauchão, mas vê o rival levantar o seu último título dentro do próprio estádio.

12 de maio de 2010 – Grêmio bate o Santos de Neymar e Ganso por 4×3, no jogo de ida da semifinal da Copa do Brasil, em uma das últimas grandes partidas do estádio – jogo foi relembrado pelo gremista Roger Weber ao Torcedores.com.

2 de dezembro de 2012 – Grêmio e Inter ficam no 0x0 no último Gre-Nal da história do Olímpico. Em tese, este seria o derradeiro jogo da vida do estádio, mas ele ainda seria usado nas fases iniciais do Gauchão de 2013.

17 de fevereiro de 2013 – Com gol do zagueiro Werley, hoje no Coritiba, Grêmio vence o Veranópolis por 1×0 pelo Gauchão no definitivo adeus do velho casarão.

2014 – Estádio passa por breve limpeza e ajustes custeados pelo Grêmio como forma de se candidatar a CT de alguma seleção para a Copa do Mundo. Mas acaba não sendo escolhido.

4 de janeiro de 2016 – Reportagem do jornal Diário Gaúcho relata reclamações de moradores do entorno do estádio. Vizinhança diz que Olímpico virou “cracolândia”.

17 de maio de 2017 – Princípio de incêndio na arquibancada inferior causado por moradores de rua assusta vizinhos. Bombeiros agiram rápido para evitar danos maiores.

30 de agosto de 2017 – Reportagem do Torcedores.com vai até as cercanias do estádio Olímpico Monumental e se depara com um triste cenário abandonado, inseguro e indefinido.