Das tribos indígenas às quadras: conheça a jogadora argentina que conquistou o vôlei brasileiro

Mimi Sosa é uma das principais apostas do São Caetano na Superliga; aos 30 anos, ela foi criada na infância e adolescência em um povoado wichi

Márcio Donizete
Jornalista desde 2012, com passagens pelos jornais ABCD Maior e Diário do Grande ABC, além do canal NET Cidade de TV. Foi repórter colaborador, líder de colaboradores e editor no Torcedores.com. Apresenta o Lente Esportiva ABC em lives no Facebook e Youtube.

Crédito: Uma das estrelas internacionais da Superliga, a central baixinha é um dos destaques da boa equipe do Pinheiros. Consideradas uma das melhores sacadoras da última temporada do torneio, a argentina chega com credibilidade ao time Paulista. Foto: Ricardo Bufolin

Há três temporadas, o vôlei brasileiro conta com um toque argentino nos jogos da Superliga: Emilce Sosa, ou simplesmente Mimi Sosa. Aos 30 anos, a meio de rede é uma das principais contratações do São Cristóvão Saúde/São Caetano para a temporada e possui uma história de vida que mistura suas origens com a vivência indígena na infância e adolescência.  

Nascida em Ibarreta, na província de Formosa, considerada uma das mais carentes da Argentina (e que fica a mais de 1.200 km de Buenos Aires), foi criada distante da cidade, em um povoado de índios wichis, onde os pais trabalhavam como professores. “Não tinha luz, não tinha telefone, não tinha nada, só natureza”, contou Sosa ao Torcedores.com. Dos 8 aos 14 anos, viveu essa experiência no povoado e guarda as recordações com carinho. 

Sosa tem tatuagem em homenagem ao povo wichi – Crédito da foto: Márcio Donizete/Torcedores.com

Prova disso é que, sempre que faz ponto, ela dedica aos familiares e aos wichis. Uma tatuagem no braço foi feita em homenagem a eles: “Otetsel ta n’am talakis”, frase do dialeto local que em português significa “Minhas raízes, minha história”. Toda vez em que pontua, a atleta a exibe com o antebraço na testa. “Como morei com os indígenas e vivi coisas boas, é uma forma de devolver tudo isso a eles”, explicou. 

Início foi no... futebol  

Mimi Sosa não teve contato primeiramente com o vôlei. Ela jogava futebol. Por influência do pai, que gostava da bola no pé, Sosa treinava nesse esporte. “Eu seguia ele sempre, como meus seis irmãos. Sempre brincava em casa com a bola (de futebol)”, destacou ela, que nos treinos do São Caetano frequentemente mostra identidade com a modalidade mais popular do mundo. 

Mimi Sosa é a capitã e camisa 10 da Argentina – Crédito da foto: Reprodução/Facebook/Mimi Sosa #10

O voleibol surgiu quando adolescente. Sosa admitiu que não gostava de praticar o esporte e jogava porque fazia parte do cronograma escolar. “Tinha de fazer vôlei, mas eu não gostava muito”, riu. “Como não queria fazer aula de Educação Física no sábado, fazia vôlei”, emendou. A mudança surgiu porque a jogadora se desgastava bastante indo aos treinos de futebol, que ficavam distantes de casa, algo que incomodava a mãe. 

Apesar dos 1,76m, altura incomum (e baixa) para uma atleta de vôlei, trabalhou o salto com seus primeiros treinadores, que enxergavam potencial de evolução em Mimi Sosa. Nisso, começou a se destacar e concretizou um sonho: jogar pela seleção argentina. “Realizei o maior sonho da minha vida até então, quando fui convocada aos 23 anos pela primeira vez. Tremi quando vi a lista”, disse a capitã, que há sete anos defende o selecionado local e ajudou a levar voleibol do país pela primeira vez às Olimpíadas, nos Jogos do Rio de Janeiro, em 2016. 

Vinda ao Brasil veio quando cogitou aposentadoria precoce 

Com experiência de atuar na Romênia, por pouco ela não parou de jogar, quando tinha apenas 26 anos. Devido a uma mononucleose, doença que causa febre e cansaço, a aposentadoria estava na mente, mas tudo isso mudou quando o Rio do Sul ofereceu a Mimi Sosa um contrato. Aí que o Brasil entrou em sua vida. “Já tinha decidido parar de jogar e não queria voltar à Europa. Para mim foi o máximo. Assinei o contrato sem ver o quanto ia ganhar, sem ver o que ia dar. Sempre quis jogar no Brasil, queria fazer uma experiência de, pelo menos, um ano.” 

Mimi Sosa chegou ao Brasil após quase abandonar a carreira por uma mononucleose – Crédito da foto: Divulgação

A paixão foi tanta pelo Brasil que, em vez de um ano, ela já atua nas quadras brasileiras há mais de três. Além do Rio do Sul, onde ficou por dois anos, defendeu também o EC Pinheiros, antes de assinar com o São Cristóvão Saúde/São Caetano no início da atual temporada. No time do ABC paulista, a meio de rede tem outra companheira estrangeira, a cubana Anet Alfonso. “Eu amo o Brasil. O nível vôlei jogado aqui é muito alto. Na Europa você até pode ganhar mais (em salários), mas perde em nível. Aqui não, o nível é alto. Por isso muitas jogadoras campeãs olímpicas atuam aqui.” 

Treinar com Bernardinho é seu sonho 

Sosa ainda tem um sonho a se cumprir no Brasil: treinar com o técnico Bernardinho. “Eu queria muito treinar com o Bernardinho, pelo menos uma vez. É um sonho que tenho, seja em qualquer time, onde ele estiver. Sei que é um grande técnico, que é uma pessoa incrível. Sempre que o encontrei desde que cheguei ao Brasil, ele me tratou muito bem. Ele sempre lembra de mim nos jogos e sempre foi gentil comigo.” 

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* Direto do Ginásio Milton Feijão, em São Caetano do Sul-SP