Torcedores | Notícias sobre Futebol, Games e outros esportes

‘Exílio’ e protestos: NFL começa sob sombra de injustiça e imagem questionada

A NFL volta nesta quinta-feira (7). Quando a bola oval cruzar o gramado do Gillette Stadium, em Foxborough, às 21h30, New England Patriots e Kansas City Chiefs abrem outra temporada do futebol americano nos Estados Unidos. Mas, enquanto muitos festejam o retorno do campeonato, um caso ainda sem resposta fora de campo pode mostra um lado sombrio, confuso e polêmico da liga: Colin Kaepernick.

Patrick Mesquita
Colaborador do Torcedores

Crédito: Colin Kaepernick desafiou a NFL em protesto e está sem equipe para jogar esta temporada

Um dos responsáveis por levar o San Francisco 49ers ao Super Bowl em 2013, o quarterback de 29 anos está sem time nesta temporada, e o principal motivo pode ser o ativismo social. Há um ano, o jogador decidiu se ajoelhar durante a execução do hino nacional dos EUA em protesto contra a desigualdade racial no país, principalmente causada pelo número de mortes causadas por policiais, e gerou uma das maiores discussões atuais sobre o tema nos esportes americanos.

“Eu não vou ficar em pé e mostrar orgulho para a bandeira de um país que oprime os negros e pessoas de cor. Para mim, isso é maior do que o futebol americano e seria egoísta da minha parte fazer outra coisa. Há corpos nas ruas e pessoas impunes”, declarou na época em entrevista à NFL Network.

Aparentemente, a queda de braço com a NFL custou caro. Um ano depois, Kaepernick está fora da liga sem muitas explicações. Algumas equipes até ameaçaram contratar o atleta, mas não avançaram com o interesse, caso do Jacksonville Jaguars. A situação levou a uma série de questionamentos. O maior deles é: como um quarterback que levou um time até a final do campeonato há cinco anos não é nem reserva de uma das 32 franquias?

Talento e “business” x polêmica

Há quem diga que Kaepernick está fora da liga por uma questão de meritocracia. Com temporadas abaixo das anteriores, o jogador teria perdido espaço por questões naturais diante da concorrência. A queda de desempenho realmente aconteceu, mas isso explica a ausência até mesmo do banco de reservas? Um levantamento feito pelo departamento Stats&Info da ESPN dos EUA mostrou que o atleta teve um rating (métrica utilizada para medir a eficiência na posição) superior a mais do que a metade dos reservas da posição na NFL em 2016.

Para o especialista em futebol americano e comentarista da ESPN, Paulo Antunes, é impossível cravar que exista um boicote apenas pelos protestos, mas a situação influencia e certamente seria diferente se o jogador fosse um dos melhores do futebol americano. Assim, as franquias analisam a relação postura x desempenho e o enxergam como uma distração nos vestiários.

LEIA MAIS:
ASTRO DA NFL DENUNCIA VIOLÊNCIA POLICIAL EM ‘ENQUADRO’ E SE DIZ VÍTIMA DE RACISMO
‘BAIXINHO’ E ACROBATA: SUL-COREANO SURPREENDE, DESBANCA CONCORRÊNCIA E VIRA TITULAR NA NFL
ASTRO DA NFLGASTA R$ 600 MIL EM CARRO COM ‘SALA DE CINEMA’

“Ele não jogou bem nos últimos anos. As estatísticas de passe foram ruins, apesar de ele correr bem com a bola e sofrer poucas interceptações. É um jogador bem diferente daquele que levou o time ao Super Bowl. Ninguém quer uma distração. Se for contratar, tem que ter confiança que ele será o seu titular e vai resolver. Ninguém quer um monte de gente no vestiário para falar com um jogador reserva. Ele tem talento e pode batalhar até para ser titular. Mas contratar para ser banco? Não precisa”, afirma em entrevista ao Torcedores.com.

Um caso intrigou ainda mais os analistas dos Estados Unidos. Em busca de um quarterback devido a lesão de Ryan Tannehill em agosto, o Miami Dolphins preferiu buscar o recém-aposentado Jay Cutler (34 anos) para o posto, ignorando completamente Kaepernick. Para Paulo Antunes, não seria nenhuma surpresa uma aposentadoria.

“Ele poderia ser opção em Miami, mas escolheram o Jay Cutler, que estava aposentado. Ele ainda é jovem, merece uma chance na NFL. Ele também não fala nada, seria legal falar alguma coisa. Pode ser o fim da carreira dele”, completa.

Bater em mulher ou pedir igualdade racial?

O cenário analisado por Paulo Antunes mostra um pouco sobre como funciona a mentalidade da NFL ao longo da história. A competitividade e o desejo de vencer das equipes são tantas que, em alguns casos, o talento excepcional dos jogadores superou atitudes polêmicas fora de campo, até mesmo violência doméstica foi “perdoada” pelas equipes.

Um caso popular é o de Michael Vick. Primeira escolha geral no draft de 2001, o quarterback ficou dois anos preso por organizar rinhas de cachorros. Após cumprir a pena, ele voltou para a NFL e assinou com o Philadelphia Eagles.

Uma situação mais recente envolve Joe Mixon, running back novato do Cincinnati Bengals. O jovem foi flagrado por uma câmera de segurança dando um soco em uma garota em 2014. O vídeo só veio a público em 2016. Mesmo assim, o talentoso garoto foi escolhido e terá o seu espaço na liga.

“O torcedor está mais preocupado com o desempenho do time dentro de campo do que o comportamento dos jogadores fora dele. Mas a NFL está mudando. Todas as ligas norte-americanas estão muito envolvidas nas comunidades”, aponta Paulo Antunes.

Preocupada com a imagem, a organização tem tentado mudar e passou a aplicar suspensões cada vez mais duras a quem comete atos de indisciplina. Além disso, um dos prêmios concedidos pela organização todos os anos é o “Walter Payton Man of the Year”, entregue ao jogador que mais colaborou com a sua comunidade durante a temporada. A atitude é uma forma de incentivar os atletas a praticarem atos de caridade e trabalhos voluntários nas cidades onde jogam.

Mesmo com os esforços para manter uma linha disciplinar e minimamente envolvida com a comunidade, a NFL ainda abre brechas para questionamentos sobre a própria conduta. Recentemente, a liga aceitou de volta do artista country Hank Williams Jr. para cantar a música de abertura do Monday Night Football. A melodia escolhida é uma versão do hit “All My Rowdy Friends”, que foi tema do evento por 22 anos antes de emissora ABC terminar o acordo em 2001. O motivo? Hank Williams Jr. fez comentários preconceituosos contra o presidente Barack Obama e o presidente da Câmara, John Boehner.

O histórico do cantor também não é dos melhores. Entre as composições famosas está a polêmica “If the South Woulda Won” (Se o Sul tivesse vencido, em tradução livre) – uma alusão à derrota dos estados confederados na Guerra Civil Americana.

Dados os exemplos acima, como ajoelhar pedindo igualdade racial durante o hino pode ser mais desrespeitoso do que os exemplos citados acima?

Efeito

Mesmo com as críticas e exílio, o apoio a Kaepernick tem aumentado. Recentemente, o astro e quarterback titular do Green Bay Packers, Aaron Rodgers, se pronunciou sobre o caso e afirmou que o companheiro de profissão deveria estar empregado.

“Eu acho que ele deveria estar em um elenco agora mesmo. Eu acredito que ele não está por conta dos seus protestos”, disse em entrevista publicada pela ESPN.

Nesta terça-feira, Cam Newton, quarterback do Carolina Panthers, também deu apoio durante entrevista coletiva.

“Não é justo. Se ele deveria ser o titular dos 49ers? Sim, absolutamente. Se ele deveria estar no elenco? Absolutamente. Não há questionamentos sobre isso. Ele é bom o suficiente para estar no elenco”, analisou.
As manifestações devem continuar nesta temporada. Apesar da ausência do precursor da ideia, muitos jogadores pretendem protestar. Um exemplo aconteceu na segunda rodada da pré-temporada. Vários atletas do Cleveland Browns ajoelharam durante o hino antes da partida contra o New York Giants.

“Vai ter um efeito dominó, ainda mais com o momento conturbado pelo qual passam os Estados Unidos. Vários jogadores vão ajoelhar durante o hino. Eu realmente admiro o Kaepernick. Ele fez o que achava certo, de coração”, completa Paulo Antunes.

O efeito da atitude de Kaepernick ainda não pode ser mensurado, mas a sua ausência faz pairar uma nuvem duvidosa e polêmica sobre os valores da NFL, ainda mais em um momento de forte discussão racial nos Estados Unidos. Nesta quarta-feira, Michael Bennett, defensor do Seattle Seahawks, denunciou uma forte abordagem policial no fim de agosto. Um vídeo divulgado pelo site TMZ mostra a atitude dos agentes. O jogador disse ter sido vítima de racismo e prometeu continuar com os protestos ao longo da temporada que começa nesta quinta-feira.