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200 Dias com Eles: CBF teve atletas da sub-17 por até 7 meses a serviço da seleção

O processo de construção da seleção brasileira sub-17 até a disputa do Mundial da categoria, na Índia, foi baseado em uma relação de longa duração com os 21 jogadores do elenco. Iniciado em 2014, o trabalho com as gerações 2000 e 2001 colhe os frutos de um planejamento que apostou em uma frequência grande de convocações e na continuidade dos nomes à disposição da CBF, com a qual os clubes dividiram a tarefa da formação dos jovens talentos por até sete meses.

Jonatan Androwiki
Jornalista formado pela Fiam-Faam (2016), começou a acompanhar futebol de base a partir de 2007. Passou pelo Olheiros.net, especializado em categorias de base, Jornal Guarulhos Hoje, Revista Palmeiras e Press FC Assessoria. Atualmente, é scout e analista de mercado da base do Athletico Paranaense.

Crédito: Desde 2014, jogadores das gerações 2000 e 2001 ficaram em média quase 154 dias à disposição da seleção brasileira (Foto: Reprodução/ CBF)

Além do entrosamento natural pelo período vivido com a camisa amarela, o processo fez com que os jogadores da atual safra sub-17 tivessem mais tempo para absorver os métodos e conceitos passados pela comissão técnica. Outro ganho valioso para a formação dos jovens vem da familiaridade com o ambiente e o peso de representar a seleção brasileira, cujo cronograma de torneios e amistosos acrescenta ainda mais experiência e bagagem internacional aos atletas.

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O projeto com os nascidos em 2000 começou há três anos, quando o grupo de selecionáveis tinha entre 13 e 14 anos de idade, e a categoria sub-15 era comandada por Cláudio Caçapa, sob a supervisão de Alexandre Gallo. O ex-zagueiro foi o responsável pelas cinco primeiras listas da geração, quatro em 2014, incluindo a disputa da BH Cup, e uma em janeiro de 2015.

A quantidade de convocações cresceu e o trabalho ganhou diretrizes mais bem estruturadas com a chegada do coordenador Erasmo Damiani, em abril de 2015 – ele deixou o cargo em fevereiro deste ano – e dos técnicos Guilherme Dalla Déa, para a categoria sub-15, e Carlos Amadeu, na sub-17, ambos ainda em seus cargos.

Dalla Déa comandou e lapidou os 2000 durante o ano de 2015 para que eles fossem trabalhados pelo atual técnico do Brasil que joga o Mundial Sub-17. Sob a antiga direção de Damiani que foi implantada na CBF a ideia de realizar chamados específicos para os nascidos em ano ímpar. Dessa forma, os jogadores 2001 começaram a ser observados de perto e introduzidos aos métodos da entidade desde o ano passado.

Três jogadores do grupo atual de Carlos Amadeu foram captados com a estratégia de integração entre os 2000 e os 2001. Terceiro goleiro do elenco, Yuri Sena, do Vitória, recebeu chances nas convocações restritas aos mais novos em julho e em novembro de 2016. Com a ida de Arthur Gazze, dono do posto no Sul-Americano, para a reserva do São Paulo, o arqueiro do time baiano assumiu a condição no plantel principal da sub-17.

Outro jogador que cativou a comissão técnica foi o atacante santista Yuri Alberto. Lembrado para a seleção dos 2001 em maio e julho do ano passado, ele só voltou a ser chamado na convocação que antecedeu o Sul-Americano Sub-17. O terceiro caso é o do palmeirense Luan Cândido. Convocado em março de 2016 como atacante, ficou de fora de três dessas listas e retornou em novembro, já como lateral-esquerdo, posição que passou a atuar no Palmeiras. Os dois ganharam espaço em definitivo no Torneio de Montaigu, disputado na França, em abril deste ano.

Entre 2014 e a lista final para o torneio na Índia, em 2017, foram feitas 32 convocações, média oito por ano, sendo 26 para os nascidos em 2000 e 2001 e seis exclusivas para os 2001. Foram 128 atletas lembrados de 32 clubes diferentes para as listas que abrangem as duas gerações, e 70 nomes, de 21 equipes, para as dos nascidos em ano ímpar – total de 191 jogadores de 34 agremiações, incluindo cinco do exterior: Atalanta, Atlético de Madrid, Barcelona, Charlton Athletic e Chievo Verona.

Das 32 vezes em que os atletas sub-17 estiveram a serviço da seleção brasileira, 19 foram para treinamentos e amistosos, e 13 para competições. Foram elas: BH Cup (2014); Torneio de Montaigu-FRA, Copa Natalício del Libertador Simón Bolívar-VEN, Sul-Americano Sub-15-COL e Torneio Nike Friendlies-EUA (2015); Torneio de Montaigu, Torneio das Nações, Copa BRICS-IND e Torneio Nike Friendlies (2016); Sul-Americano Sub-17-CHI, Torneio de Montaigu e Mundial Sub-17-IND (2017).

Apesar do número de atletas testados, aos poucos uma espinha dorsal foi sendo moldada e preservada pela comissão técnica. A ideia de acostumar as promessas com a atmosfera e dar rodagem internacional fez com que a CBF priorizasse a constância de uma convivência longeva. Edu Gaspar, coordenador de seleções, teria recomendado a diminuição do número de testes e convocações. Por isso, ao menos 15 dos 21 jogadores estiveram em 40% das 26 convocações para os 2000-2001 no processo.

(Crédito: Torcedores.com)

* Entre parênteses, o número de convocações dos jogadores para as listas exclusivas aos nascidos em 2001.
** Chamado para o Mundial Sub-17, Vinícius Júnior somaria 17 convocações, mas foi cortado do torneio.

O levantamento feito com exclusividade pelo Torcedores.com, baseado em números extraoficiais, mostra que os integrantes do elenco brasileiro passaram, em média, até esta quarta-feira, 25, um total de 153,38 dias à disposição da CBF – aproximadamente cinco meses e três dias (veja a tabela acima). Ou seja, de 2014 até aqui (1.303 dias) – sem contar os três meses de férias –, os jogadores da sub-17 tiveram cerca de 11,77% de seu tempo dedicado à seleção e, consequentemente, longe de seus clubes. Os índices irão aumentar naturalmente, já que o Mundial Sub-17 irá até sábado, 28.

Os dados foram extraídos com base em notícias e notas no site oficial da Confederação Brasileira de Futebol sobre as convocações realizadas das gerações 2000 e 2001 de 2014 a setembro de 2017. A somatória dos dias foi feita considerando datas de apresentação, folgas e término de atividades preparatórias, torneios e amistosos. Não foram computados listas e períodos não divulgados publicamente pela entidade.

Vinícius Jr., do Flamengo, também é mencionado na relação porque, além de ter sido moldado para ser a referência desta geração, foi chamado e inscrito para a competição – de forma até inocente pela CBF. Outros jogadores que não estão no Mundial, mas que têm número considerável de convocações são: Patrick Souza (Flamengo), 14; Arthur Gazze (São Paulo), 12; André Luiz (Botafogo) e Mateus Cardoso, o ‘Tetê’ (Grêmio), 10; Marco Antônio (Cruzeiro) e Kazu (Coritiba), 8; Alerrandro (Atlético-MG), Douglas Bôhm (Internacional), Hiago Ribeiro e Miguel (São Paulo) e Pétterson (Grêmio), 7.

Vitinho é o atleta que passou mais tempo com a seleção (Foto: Reprodução/Facebook)

Recordista de tempo com a seleção brasileira de sua categoria, o meia-atacante Vitinho, do Corinthians (ao lado), passou mais de sete meses (223 dias) vestindo a amarelinha, uma vez que também foi preparado para ser uma das estrelas ao lado do rubro-negro. Ele é um dos seis jogadores do time atual que são lembrados desde os 14 anos – além dele, o goleiro Lucão, o que mais acumulou convocações, com 13, o lateral Wesley, o volante Bobsin, e os atacantes Lincoln e Vinícius Júnior também estão com a equipe brasileira desde 2014.

Hoje titular indiscutível, Victor Bobsin é um dos maiores casos de desenvolvimento e mudança de percurso no grupo. Chamado por Caçapa em maio de 2014 e, depois, em outubro, o volante ficou um ano, sete meses e 11 dias longe da seleção. E viu, inclusive, seu companheiro de posição no Grêmio, Rocyan, ser lembrado antes dele. Ainda assim, seguiu no radar da CBF e, após notar evolução, Amadeu o convocou em junho de 2016. Tomou conta do meio-campo brasileiro.

A base da geração foi sendo mais bem desenhada a partir de 2015, quando os nascidos em 2000 protagonizam os torneios da categoria sub-15. Aos poucos, Brazão, Vitão, Weverson, Victor Yan, Rodrigo Nestor, Alan Guimarães, Helinho, Brenner e Paulinho se uniram ao sexteto que já havia ganhado espaço no ano anterior e, juntos, conquistaram o Sul-Americano Sub-15 de forma invicta, na Colômbia, com grandes atuações do quarteto Paulinho, Vinícius Jr., Lincoln e Alan, o “Alanzinho”.

Fora de todo ciclo sub-15, dois titulares do Mundial ganharam chance somente no sub-17 por uma questão burocrática. O Atlético-PR não libera atletas antes dos 15 anos para a seleção e, por isso, Marcos Antônio só estreou em abril de 2016; em maio, ele fez companhia a dois debutantes: seu companheiro de time, Lucas Halter, e Matheus Stockl. O outro defensor do grupo, Rodrigo Guth, foi lembrado apenas na primeira lista deste ano.

Projeto em longo prazo, a relação duradoura com os atletas das gerações 2000 e 2001 se tornou uma marca proeminente dessa seleção. Se, antes do Mundial, o elenco de 21 jogadores não havia ficado junto em nenhuma ocasião, os titulares (Brazão; Wesley, Vitão, Lucas Halter, Weverson; Bobsin, Marcos Antônio, Alan; Paulinho, Lincoln e Brenner) estiveram reunidos em quatro oportunidades, 93 dias ao todo – ou três meses e três dias.

Se no cinema o inconformado Tom (Joseph Gordon-Levitt) fica desiludido com o amor não correspondido e o término repentino com Summer (Zoe Deschanel) no drama-comédia romântica “500 Dias com Ela” (‘500 Days of Summer’, 2009), na seleção brasileira sub-17 o relacionamento com as gerações 2000 e 2001 vem sendo estável e contínuo. E já há vários sinais de que essa união pode durar por muito mais tempo e ter um final feliz.